sábado, 6 de maio de 2023

O que resta?

não há psiquiatria, 

bebida ou 

abstinência;

não há cura.


está tudo

nos cantos escuros da alma,

está tudo

em cada esquina suja

do passado


o que ficou para trás,

sepultado na eternidade,

vive inteiro no agora e

também viverá no amanhã.


passaram-se os anos

e nada passou. 


não passou

nada mais importa

não passou, 

eu perdi. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Possession

"I can't exist by myself because I'm afraid of myself, because I'm the maker of my own evil." 

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Mais uma vez esse velho algo novo

têm aparência de putrefação,

os dias, as horas,

a rua.

e os minutos vividos são

todos

trágicos equívocos.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Mês passado fez três anos que não enlouqueço

Não que eu tenha me tornado uma pessoa normal, dessas que estão aos montes por aí, todos os dias em suas rotinas chatas, servindo o estado, mastigando as doenças do cotidiano e trocando cusparadas. Não que eu tenha me esquecido dos caídos, dos pisados. Também não aceitei cabrestos, nem permiti que me forçassem a nada que ferisse minha liberdade.

É só uma sensação de poder caminhar sem muletas, nem refúgios, que transborda depois de muito tempo trancafiada em qualquer lugar pequeno o bastante para quase desaparecer; para quase me matar. É só sede de ser livre.  

São três anos sem ressacas. Três anos que não fujo, nem ouço falar no amor que deu errado, no dialogo que deu errado, no trabalho que deu errado, na vontade que morreu, na vida que fracassou. Três anos que não tenho tenebrosas crises de ansiedade que me faziam vomitar e passar noites em claro, sentindo a sensação das agulhas enterrando no peito de dentro pra fora, pensando em como todas as saídas de emergência estavam distantes e fechadas para mim. Três anos que não caio pelos becos, procurando qualquer alento falso e destrutivo que me tirasse a noção dos dias que ainda me restavam. Três anos que não dou um murro em um amigo, ou em paredes.  

Três anos
que não enlouqueço. 


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A maior árvore do bairro

foi um dia triste
o dia em que cortaram a
maior árvore do bairro;
costumava brincar ao redor dela e
a considerava imortal, porque ela tinha
uma aparência muito antiga e um tronco bastante largo

era domingo e acordei cedo, como de costume.
eu era criança e julgava o tempo
uma coisa valiosa demais para
se gastar dormindo

dormir era coisa de adultos afinal,
porque eles eram chatos e
passavam horas preocupados com
coisas chatas, coisas que não tinham sentido algum

mas nessa manhã, os adultos da casa e
provavelmente os do  resto do quarteirão também,
tinham levantado primeiro

havia um barulho de motosserra pairando no ar
que despertou a vizinhança
ele atravessava com violência
as paredes e as janelas da casa

vrééééééé
vrééééééé
vrééééééé

ouvi minha mãe falar com minha avó
"eles vão mesmo construir o prédio"
ela disse

então olhei pela janela da cozinha
de onde antes podíamos ver a árvore esbanjando vida, mas
agora ela estava tombando bem em câmera lenta,
morta

lembro-me de ter sentido um calafrio
que percorreu a espinha e
nesse dia eu quis voltar a dormir
pra, quem sabe, acordar outra vez
olhar pela janela e ver que a árvore tava lá
inteira

eu ainda nem tinha crescido o suficiente
para abraça-la, coisa frustrante, porque
eu achava que ela merecia um abraço

e os dias caminharam rapidamente a partir daí
caminhões, maquinários e caçambas de entulho
circulavam aos montes pela rua
e também havia os caras da construção civil
com seus capacetes laranjas;
eu os via como inimigos, e só mais tarde entendi
que também eram vitimas.

o prédio foi erguido na velocidade
de um relâmpago
e dava pra escutar os vizinhos falando que
aquilo ia ser bom pra cidade
que aquela coisa era "o primeiro de muitos"

eu já tinha visto as cidades maiores na tv
tão atulhadas por esses caixotes de concreto
que até as pessoas pareciam inexpressivas e sem vida
correndo como robôs nas linhas do metrô ou
presas em seus carros com ar condicionado
porque o calor  já se fazia insuportável.

toda essa ideia me assustava cada vez mais e
levei mais alguns anos para digerir que isso se dava
porque eu tava crescendo e tinha acabado de entender que
a Terra tava perdendo a vida para os próprios habitantes

o que eu não sabia, é que tudo isso
era só o começo
de uma sequencia enorme
de tragédias.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015


Leme, 20 de outubro de 2015

Hoje estive brincando com a gaita cor prata que você me deu quando eu ainda era muito pequeno, ela é do  tempo em que você fazia aquela brincadeira com o dedão como se o estivesse arrancando e eu ficava alucinado tentando entender qual era a física por trás daquilo. Eu jamais entendia e você me abraçava rindo.
Aquele tempo era outro tempo e eu na qualidade de criança, sabia pouco dos reais problemas mundanos. Sabia pouco da morte e menos ainda da separação dos meus pais (sabia que eu morava com a minha mãe e era isso). Eu não vivi esse momento (tinha um ano e pouco quando aconteceu, creio) e portanto não lembro de nada. Crescer entre duas famílias sempre foi normal para mim, principalmente porque ambas são boas demais para se deixar de lado.
Eu gostava de passar aqueles dias na sua casa mesmo com meu pai estando longe, nos Estados Unidos. Dormir com vocês no quarto e a vó exagerando nos doces e me cobrindo de mimos eram coisas das melhores do mundo. Eu era um pouco tímido quando chegava, mas logo esquecia a timidez e começa a correr pela casa, entre seus sorrisos, brincado com as cachorras (Bô, Xuxa e Lu) como se tivesse nascido ali. Tudo isso era tão bom e passou tão rápido, como um forte raio. Um raio que fez algo estranho comigo, no lugar do choque mortal.  
É muito fácil culpar depressão e álcool por todo o lixo que fiz em minha vida durante os anos de meia ausência e decepções (eu decepcionei muito a mim mesmo), mas essa não é uma justificativa plausível. Eu causei isso e essa é uma certeza inexorável que vai viver dentro de mim.
Mas quando foi que eu me esqueci de você, vô? Quando foi que me esqueci que um dia você me ensinaria a tocar essa gaita? Passei esses dias me perguntando, pois fiquei com essa sensação horrível que pesa uma tonelada aqui dentro.
Parece que abandonei vocês durante tanto tempo, parece que estive em coma durante mil anos. Parece que perdi inúmeras boas conversas, sabedoria, conselhos, abraços. E agora perdi você, vô. Assim, bem quando eu começava a sentir a infância de volta (um pouco mais madura, é claro). Bem quando começávamos a sofrer juntos nos jogos do Palmeiras. Ah, como eu queria assistir mais jogos com você. Como eu queria que você me ensinasse a tocar essa gaita. Como eu queria dividir com você os problemas pelos quais eu passava e ainda passarei, porque a vida é problemática assim mesmo. Mas eu demorei demais, vô... Eu me sinto mesmo um verdadeiro imbecil as vezes.
Em janeiro fará dois anos que parei de beber. E eu posso me orgulhar porque você me viu parar. Desculpe aquela discussão completamente desnecessária e sem sentido algum que tivemos um dia em que eu estava meio bêbado (você sabe do que estou falando). Desculpe pela minha ausência que hoje tanto me fere, pois eu ainda estou tentando me perdoar.  
Fique bem, onde quer que você esteja. E um dia, em outra vida ou outra dimensão nos encontraremos para por em dia todas essas coisas valiosas que perdi, porque assim há de ser. 
Eternas saudades de você, que foi tão valente enfrentando essa doença. 

Do seu neto,
Diego.    

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Rigor mortis

Era estranho estar diante do fim. Abraça-la e não sentir nada além de um garrote preso à garganta, e na ponta dos dedos um formigamento de quase morte. Era estranho porque fazia calor e meus lábios, pela primeira vez, sentiram em seu pescoço um frio cadavérico.

Buscávamos, os dois, dizeres finitos e insignificantes num enorme cemitério de palavras, mas falar já era impossível afinal as palavras é que morreram primeiro, num outro momento, num outro tempo que não era aquele.

Soltamo-nos e cruzamos nossos olhos, negros como nuvens de tempestade, uma última vez.

Breu fez-se ao redor, misturando-se aos seus cabelos e engolindo aquele dia de verão. Nossos lábios, antes carne, agora eram lápides cinzas. Estávamos rígidos.

Aquele dia não era dia. Era tarde demais.            

sábado, 6 de dezembro de 2014

Leme, dezembro de 2014

Me perdoe.
Preciso chafurdar a cabeça nisso tudo por uma última vez, antes que o ano vire. É a ânsia de desafogar (porque calei demais pra te ouvir) que me faz perder alguns minutos da minha noite de sono com essas palavras que vieram um pouco tarde. O fato é - se você está lendo isso agora - é porque esqueceu alguma coisa (me pergunto o que dessa vez) da mesma forma que eu esqueci. Mas não se preocupe, não vou estender o assunto, que já é muito batido pra se perder mais do que dez minutos de reflexão. As coisas se tornam muito breves depois de tantas despedidas tortas.

Naquele tempo eu só queria ser legal, mas era imbecil demais pra conseguir fugir das suas palavras secas. E eu bebia. Bebia muito.

Eu gostava dos seus olhos, porque eles eram mais escuros que os meus e tinham um quê de abismo. E meu passatempo preferido era mergulhar em abismos. Me jogava em queda livre, engolia bosta de urubu e tomava muito vento na cara, mas eu não tava nem aí porque eu era otário e bebia. Bebia muito.

Talvez tenha sido exatamente por culpa do meu mundo ébrio que nunca entendi muito bem suas idas e vindas. Não que você tenha tentado explicar. A ideia era plantar o peso das suas dúvidas nas minhas costas mesmo, eu acho. E funcionava. Eu rolava minha montanha imaginaria abaixo, batendo em árvore e pedra. Eu ficava feliz, mas devia correr e não corria. Eu esperava pra despencar quantas vezes fossem necessárias.

Não da pra dizer que as coisas com você não foram marcantes. Esse nosso último encontro em janeiro, era pra que mesmo? Como me acompanharam essas marcas. E elas ainda acompanharão. Você disse que sempre lembraria de mim quando ouvisse O Teatro dos Vampiros. Eu também tenho tralhas pra lembrar de você.

Outro dia, em dois mil e dez, queria te mandar uma carta. Qualquer besteira dessas pra se ter numa gaveta... Século XXI, eu sei, eu não devia me espantar por você achar uma chatice. Eu, que busco inspiração em todos esses escritores velhos e decadentes e prefiro a paz dos cemitérios e você toda moderna em meio aos arranha-céus e luzes mortas de TV. Talvez eu seja um porra de um atrasado mesmo, vai saber, as vezes só tô perdido nesse século lixo, mas quem não gosta de ter algo assim pra guardar, ou pra tacar fogo, que seja? Mas eu não sabia que, como foi mesmo que você disse?

"Carta é coisa de viado."

Você me disse que carta é coisa de viado. E eu inventei qualquer assunto pra disfarçar minha cara de frustração e tentar te agradar com qualquer coisa que não fosse uma maldita carta. Não funcionou. Nunca funcionaria.

E eu sumi por aquele portão de embarque porque as coisas eram confusas, confusão era seu sobrenome e ali eu tinha a chance de chutar tudo pro inferno, precisava escapar de alguma forma. Antes mesmo de te contar que viajaria, e aguentar aquele seu ataque de sei lá o que e todo aquele discurso de "eu vou no aeroporto me despedir" (você ama despedidas né? Toda aquela coisa cinematográfica hollywoodiana e o caralho. Pelo menos isso deu pra sacar em todos esses anos.) e seu primeiro sumiço, eu tava morrendo pra te ver de novo. Eu te contei e você perguntou:

"Afinal, o que você espera de mim?"

Nesse instante eu resolvi partir.
Mas podia ter respondido alguma coisa inteligente, só que meu cérebro virou do avesso com a bofetada. E ficou por isso mesmo, perdi a fala. Eu sempre perdia a fala. (Na última vez que nos vimos não foi diferente. Eu tinha um oceano de coisas pra te dizer, mas afoguei, e foi feio. Mas essa é uma outra parte - repetida - da história que não convém registrar agora.) No fim você seguiu seu rumo e eu fingi que segui o meu. Aqui eu ainda não sabia que essa coisa ia virar um hábito, só queria voar por cima do atlântico e achar meu espaço no mundo. 

Então no ano seguinte eu estava instalado em Lisboa, ou melhor, eu tava fodido em Lisboa porque te amava. E assim enterrei minha viagem. Me enganava com um trabalho ali na biblioteca em Cascais, outro na serra de Sintra, no meio do mato. Mas eu tava mesmo fodido, vomitando poemas e ressaca.

Quando não perambulava pelos inúmeros sebos procurando raridades nem tão raras assim, passava horas andando por aquelas ruas muito antigas, repletas de lojas de suvenires para turistas, daqueles chineses loucos trabalhando feito locomotivas a vapor. Costumava olhar para os postais, tentava adivinhar qual deles você gostaria mais e aí não tardava para o "carta é coisa de viado" aterrissar na minha cabeça e eu desistia da ideia.
Não tava difícil pra cair na real. Você era uma mulher pequena, cercada de coisas pequenas numa cidade grande. Eu não fazia parte desse mundo. Jamais nos adaptaríamos e é por isso que nunca daríamos certo. Mas eu tava enlouquecendo.

Eu passava tempo demais bêbado e tinha um fantasma morando na minha cabeça. Eu inventei você. Eu precisava me tratar. 

E parar de beber.

Agora sei. As coisas estão seguindo o curso certo e o ponto zero desse saber foi janeiro desse ano.
Espero que tenha sido o mesmo para você.

Um abraço,
Diego.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

00:00

pensando em insônia
pensando em uísque e cerveja e
nostalgia enquanto leio conversas antigas de msn
e o programa nem sequer existe mais

pensando em coisas que morreram em você
e em como elas morrem o tempo todo,
em todos os lugares e em todas as pessoas,
por infelizes falhas humanas

pensando no toque infernal do despertador às 7:00 da manhã
pensando nos latidos dos cachorros da vizinhança
cortando o silêncio da noite,
pensando que tenho que trabalhar hoje e depois e depois e depois
pensando no salário
pensando em rotina e
no ódio

tudo resumido em murros contra o nada.

pensando em viagens
ônibus, campinas, são paulo, cheiro de bosta, guarulhos,
aviões, nuvens, turbulências, comida congelada,
banheiros minúsculos, guias de segurança
novos velhos ares

pensando em amigos
família
alegria
ursos polares
montanhas nevadas
natureza
isolamento
solidão
manifestações
política
corrupção
fronteiras
poder
consumismo
riqueza
pobreza
contas bancarias
dívidas
fome
guerra
tragédias
overdose
humanos
deuses
falsidade
raiva
assassinato
dúvida
desmotivação
descrença
decepção
indiferença

pensando em deitar,
fechar os olhos,
sonhar uma e outra coisa para fugir da mesmice
dos ponteiros do relógio
pensando em acordar,
cara de merda contra o espelho,
contra o mundo

pensando em saudade
e eis sua voz e olhos e boca e mãos e cabelos
pensando em você caminhando sozinha,
desaparecendo pelas escadas do metrô
pensando que eu podia ter te amado melhor
pensando no passado

pensando durante anos,
mergulhando no mesmo erro
que escorre incessantemente pelos muros mais altos e resistentes
que você jamais imaginou

pensando em teimosia, orgulho, cretinice
pensando em crise
pensando errado

e pensando em não pensar
nunca mais

ou quase isso.

17/7/2013

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Formigas por todos os lados


Desvio da fila dos caixas eletrônicos. O calor ali se mescla com a respiração e o burburinho das pessoas que se espremem pelo banco, o que faz a atmosfera começar a ficar perturbadora. Uma leve dor me sobe pela nuca e eu respiro fundo e estalo os dedos da mão direita. Enfio a mão no bolso, tiro o celular e o deposito no pequeno compartimento para objetos metálicos. Tento atravessar a porta giratória. Ela apita e trava. O guarda do outro lado do vidro me encara de cima a baixo, com suas olheiras pendendo pelo rosto. Dou um passo atrás com certa irritação, começo a vasculhar os outros bolsos, encontro o isqueiro, as chaves, o maço de Marlboro. Meto tudo no compartimento, junto com o celular. Atravesso a porta e recolho meus objetos no compartimento, ao lado do guarda que tem um bigode amarelado de nicotina e sorri dizendo “bom dia”.
Antes de pegar a senha do caixa, passo pelas mesas de atendimento ao cliente e vou até um filtro de água mineral parado num canto. Bebo três copos de água gelada. Volto até a maquininha das senhas e aperto o botão: “pagamentos e recebimentos”. A máquina cospe o papel: “senha número 87, previsão de espera: 15 minutos”. Olho ao meu redor, todas as cadeiras estão ocupadas, olho para o monitor que mostra as senhas chamadas e ele marca o número 43. “15 minutos? 15 minutos o caralho...” falo comigo. Atravesso outra vez o recinto e encosto ao lado do filtro. “Somente o ser humano mesmo pode ser tão estúpido a ponto de inventar essas burocracias, esses compromissos. Só nossa raça pra acabar com o simples que era pra ser a vida”, penso.   
Puxo um desses encartes de benefícios e serviços do banco que estava numa espécie de prateleira de papelão e cinco minutos da minha manhã já se foram pelo esgoto. Olho para o encarte que tem como ilustração a foto de uma família acompanhada pelo slogan: “Invista na família. Mude agora o seu futuro”. A mulher loira, vitoriosa, vibrante como uma raridade, uma escultura única. O homem igual, se não fosse pelo cabelo castanho escuro. No meio dos dois, uma menina e um menino. Todos estão bem arrumados, despreocupados e aparentemente cheirosos fazendo um piquenique num jardim repleto de cores pulsantes, num dia ensolarado de primavera. Todos sorrindo descaradamente com os seus dentes a mostra, brancos e limpos, impecáveis e vitoriosos. Desvio o olhar do encarte e acompanho com os olhos as pessoas que estão por ali, em sua grande maioria desesperadas e enlouquecidas, sem tempo para cuidar dos dentes, ou sem chances para juntar um pouco que seja de tempo livre. Elas estão fatalmente vitimadas e humilhadas por qualquer coisa errada no mundo. São pessoas reais, vivendo, respirando, comendo realidade e perdendo a compostura diariamente enquanto enfrentam a labuta. A ironia que escorre pelos muros e grades da nossa pequena e frágil existência as vezes é tão escancarada, tão grotesca que se mistura em meio ao resto da sujeira e passa despercebida pelos olhos mais cansados. Eu devolvo o encarte no lugar e tento distrair meu pensamento com algo que não seja o calor do outro lado ou cheiro de bunda, quando escuto alguém dizer meu nome.
- Diego? Que aconteceu que nunca mais te vi por aí?
- Ando ocupado. O tempo está curto, César. 
César costumava frequentar os mesmos bares que eu. É pintor, além de vendedor. Vive tentando expor suas telas em eventos pelo país, mas ainda não conseguiu. Ele fala demais quando não está bêbado, o que deve ser uma forma de vomitar a ansiedade crônica que corre em suas veias. É um bom sujeito, mas unicamente chato.
- Sei como é. Eu também estou passando apertado. Eu e a Patrícia estamos morando juntos agora. – ele diz, suspirando.
- É mesmo?
- Vai fazer duas semanas.
- Que bom, cara.
- Você estava deplorável no fim do ano, enquanto entornava garrafas e contava sobre aquela história das duas mulheres. Você conseguiu se acertar com aquela lá, cheia das tempestades?
- Não.
- Oh, sinto muito...
- Não sinta.
- Mas a outra sumiu, pelo menos?
- As duas sumiram. 
Ficamos em silêncio. César parece um pouco impaciente e logo volta a falar. 
- Sabe... Eu acho que não gosto mais da Patrícia. Na verdade, acho mesmo que estou começando a odiá-la.  
- Por quê?
- Eu não sei. Sinto que estou no limite. 
- Entendo você.
- Eu a amava há duas semanas. A coisa estava exatamente aqui dentro – ele aponta com a mão esquerda para o próprio peito – até quarta feira da semana passada. Era noite e estávamos transando, sabe? 
- Sim...
- Foi magnifico como sempre. Estávamos felizes. Terminamos o negócio e fomos tomar um banho juntos. Até aí tudo bem, então deitamos para dormir. Eu precisava realmente dormir, vinha passando por noites intermináveis de insônia e sentia que ali, naquele momento poderia dormir como nunca. Realmente consegui, acho que dormi profundamente durante uns trinta minutos e aí ela me acordou dizendo que havia formigas pelo colchão. Acendi a luz, não tinha nada. Apaguei a luz, virei pro lado e fechei os olhos. Estava quase pegando no sono novamente quando ela começou a me cutucar, falando sobre as formigas. Levantei, acendi a luz mais uma vez. Eu disse que não havia formigas, que ela devia estar com algum tipo de alergia. Então ela me disse que as formigas estavam escondidas em baixo da cama, eu dei uma olhada e não tinha nada lá. Nisso ela se levantou e atirou o lençol pro chão e gritou: “Elas tem que estar em algum lugar!” Aí ela foi pra cozinha e voltou com uma daquelas facas de churrasco e começou a triturar o colchão e a roupa de cama. Enfiava a faca e rasgava com uma destreza realmente assassina. Quando o colchão ficou totalmente destruído e com as molas expostas feito vísceras, ela olhou pra mim e disse calmamente: “Não estão aqui”, e foi guardar a faca. Eu tentava digerir o que tinha acontecido quando ela me chamou na cozinha. Fui até lá, ela apontava para todos os lugares. Pra pia, pra parede, pra mesa, pro doce de abobora da mãe em cima do fogão. “Estão aí as danadas, eu apenas sonhei que elas estavam na cama”, ela disse. Eu fiquei claramente irritado, ela tinha destruído um colchão praticamente novo. Tinha feito um escândalo e eu odeio esse tipo de coisa. Então começamos a discutir e eu não consegui dormir outra vez. Passei a noite praguejando enquanto ela dormia no sofá.
- Olha... Eu entendo você.
- Não, eu estou enlouquecendo. Ela também mudou meus quadros de lugar. Todo dia de manhã olha pra eles e diz que eu devia usar mais cores nas pinturas, enquanto tomamos leite naquelas canecas horríveis que ela trouxe pra minha casa. Às vezes tenho a impressão de que ela só está me parasitando. É como se ela sugasse até a minha merda.
- Eu passei por isso ano passado.
- Verdade?
- Sim.
- Não sei mesmo o que pode ter dado errado, Diego. Veja bem – ele faz uma pausa para coçar a garganta - ontem mesmo ela começou outra vez com o assunto sobre as formigas. Disse que eu devia comprar algum veneno, porque as malditas apareciam no açúcar e no arroz e estavam por todas as partes. Disse que estava farta de comer formigas e que eu precisava tomar alguma providencia.
- E você tomou?
- Então eu disse para que ela mesma comprasse o veneno, que não me esperasse por tudo porque ela já é grande o suficiente para fazer coisas por conta própria e eu já tenho que passar o dia trabalhando e preciso de tempo para pintar. E ela me encarou, começou a gesticular com os braços pra lá e pra cá, de forma enlouquecedora, dizendo que eu não dou valor suficiente a ela, não ouço o que ela diz e que eu só penso em pintar e gosto mais dos quadros do que dela, essas merdas todas, sabe? Daí eu falei que era bom ela procurar alguma ocupação e me ajudar a por dinheiro na casa, me ajudar com qualquer coisa, porque eu estou cansado de ver a cara dela em casa o tempo todo, batucando teclas no computador enquanto eu enlouqueço. 
- E ela?
- Começou a chorar. Depois ela berrava histericamente sobre valores e princípios, e desejou que as formigas comessem todas as minhas telas. Você precisava ver, fez um verdadeiro teatro. Aí foi pra casa da mãe dela e então minha sogra me ligou. 
- Minha nossa. Queria te apedrejar pelo telefone?
- Não exatamente. Ela queria me passar o nome de um ótimo veneno para formigas, veja só que piada. Pediu para que eu tivesse mais paciência... Disse que a minha personalidade estava mudando por causa das formigas e que tão logo as mesmas fossem eliminadas tudo ficaria bem. Então eu pensei em perguntar se a filha dela era uma formiga, mas disse apenas “ok” e desliguei, porque naquele momento precisava dar uma cagada. A Patrícia voltou meia hora depois como se nada tivesse acontecido e ainda veio dizendo que o aniversário dela está chegando e então quer um presente magnifico.
- O presente é fácil... Você pode pintar uma tela de uma formiga. Uma tela grande. Podem ser várias formigas ao invés de uma.
- Porra, você quer me ajudar ou não?
- Estou te ajudando.
- Hoje, antes de eu sair de casa ela estava prestes a começar a falar das formigas mais uma vez. Eu disse pra ela ir embora se não estava satisfeita. Que eu não era obrigado a sustenta-la. E ela disse que se fosse embora, eu nunca mais a veria. Você acha que as coisas vão melhorar se eu matar as formigas? 
- Não, eu não acho. Esse tipo de coisa ou é boa ou é ruim, independe das formigas. Matar as criaturas só faz você entrar no jogo, e depois das formigas vão aparecer besouros, moscas, baratas e qualquer outra coisa pior e é você que vai ter que lidar com tudo isso.
- Mas eu não queria perde-la. Eu sentia mesmo que a gente tinha algum futuro.
- Parece que você se enganou.
- É... Ela é louca. Acho que vou mesmo dizer pra ela fazer as malas hoje. 
- Pode ser melhor para ambos. 
- Mas isso vai me deixar deprimido por dias. Acho que nunca vou arrumar uma foda tão boa outra vez. E ela também é muito bonita, uma verdadeira raridade, você sabe. Tínhamos tudo pra vingar, não sei o que aconteceu.  
- Essas coisas acontecem o tempo todo.
- Acontecem?
- Estamos sempre procurando nos enterrar num buraco cada vez mais fundo, César.  A única coisa é que tem gente que leva tempo demais pra perceber isso.
- Como assim?
- Deixa pra lá.
Sei que ele voltará atrás com a merda toda e não tenho mais nada a dizer. Olho novamente para o monitor das senhas. Está lá o número 58. Eu amasso minha senha e penso comigo: “pro inferno com isso.” Digo a César que preciso ir e saio do banco. O centro da cidade nunca esteve tão feio e quente. Atravesso a avenida em direção a praça, sento num banco protegido pela sombra de uma arvore. Acendo um cigarro enquanto vejo pernas cansadas atravessarem os jardins, quase perdidas. Formigas. 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Algo sobre como as coisas ficam insanas no natal



É 24 de dezembro, 3:47 da manhã, madrugada da véspera de natal. Tudo parece silencioso nas ruas. A loucura está chegando ao fim. A correria para comprar o peru, os assados, castanhas, as frutas de todos os tipos e cores e as uvas passas, as malditas uvas passas. As pessoas pararam de arrastar suas crianças pelas calçadas, finalizaram as buscas frenéticas e furiosas por presentes e merdas. Agora dormem em suas casas, entre pisca-piscas irritantes e bolas coloridas penduradas em arvores de plástico, esperando alucinadas pelo natal enquanto Victor detona uma garrafa de vinho e tem um bom sexo reconciliatório com Diana. 
Ela está por cima enquanto ele concentra o olhar em seus seios. Ela arrasta as unhas por seu peito, em meio aos pelos e diz “Monstro. Você é meu monstro.” O celular no criado mudo começa a tocar, a chamada vai até o fim e o toque cessa. Agora ele carrega Diana para baixo e começa a trabalhar mais rápido, uma gota de suor escorre pela têmpora direita dele e pinga entre os seios dela, a gota percorre todo aquele vale branco e mergulha no umbigo. Os dois gozam. Ele rola para um lado e Diana levanta, puxa o maço de cigarros de dentro da bolsa e vai ao banheiro. O celular toca outra vez. Número desconhecido. Victor atende. 
- Alô?
- Ela está aí com você, não é?  - A voz de Eva vaza pelo aparelho.
- Eu não disse para você parar de me ligar?
- Está ou não?
- Não. Estou dormindo. Deixe-me dormir.
- Estou indo aí.
- NÃO VENHA. VOCÊ NÃO TEM ESSE DIREITO. 
- Ela está aí. Eu sabia seu filho da puta.
- Eva, nós terminamos. Você precisa se afastar de mim, tomar um tempo só seu, ou isso vai te deixar doente.
- Você me prometeu que nunca voltaria pra ela. Você disse isso. 
- Escuta Eva, é melhor você ir dormir. São quase quatro da manhã...
- O que eu vou fazer sem você, Victor?
- Vai viver sua vida. Vai encontrar outro otário. Vai continuar fazendo o que você sempre fez. 
- OTÁRIO OTÁRIO OTÁRIO – ela grita - você adora essa palavra. Deve me achar uma otária também. O que você pensa seu cretino? Você acha que é uma espécie de gênio?  VOCÊ ACHA QUE É DEUS? QUE TODO MUNDO É OTÁRIO, MENOS VOCÊ?
- Eva, você está bêbada? 
- Eu vou me matar, ouviu bem? Vou matar meus cachorros, meu canário e depois me matar. E a culpa é sua. Você vai lembrar disso todo final de ano, nunca vai me esquecer. – Ela desliga
Diana sai do banheiro, jogando a longa cabeleira cor de caramelo para trás com as mãos.  O cigarro preso entre os lábios. Victor está sentado na beirada da cama, ainda segurando o celular.
- Quem era ligando tão tarde? – Diana quer saber
- Eva está bêbada. Disse-me coisas horríveis. Falou que ia matar os cachorros, o canário e depois se mataria. 
- Não é melhor ligar e falar com ela direito? 
- Já tentei, ela não vai me atender.
- Então é melhor ir até lá.
- Não. Ela não vai fazer nada, não tem colhões. 
- Bem, vou preparar um chá para relaxarmos. – ela joga o que resta do cigarro dentro da garrafa vazia ao pé da cama.
- Boa ideia. Depois dessa crise, seria mesmo bom.
Victor caminha até o banheiro e puxa uma revista de uma cesta que fica ao lado da pia. Levanta a tampa da privada e senta. Começa a ler uma matéria sobre submarinos clandestinos que transportam drogas, fabricados nos confins da floresta amazônica pela As FARC. Diana faz barulho na cozinha, parece que matou uma barata. O celular volta a tocar. Ele levanta da privada e corre atender. 
- Ainda não me matei. – Eva diz
- Estou vendo. Se tivesse se matado eu teria terminado minha cagada.
- Eu pensei que você estava fodendo com aquela outra, por isso liguei.
- Eva, concentre-se na sua vida. Você vai conseguir.
- Estava pensando em me matar, mas não há mais o que matar. VOCÊ MATOU TUDO O QUE EU PODIA MATAR EM MIM.
- Você ainda está bebendo?
Diana aparece na porta do quarto com duas canecas de chá. Atravessa o cômodo, os seios firmes apontando em direção a Victor. Ela sussurra “Então, é ela de novo?” Victor assente com a cabeça.
- Eu cheguei a pensar que você era diferente, Victor. Mas você é igual aos outros. Por que você fez isso comigo?
- É isso que os seres humanos fazem uns aos outros... É natural as coisas acabarem, entende?
Victor escuta um barulho do outro lado. Eva deve ter derrubado alguma coisa. Uma garrafa, talvez. Ela desliga.
Ele volta ao banheiro, recoloca-se na privada. Diana deixa uma das canecas em cima do criado mudo e da pequenos goles na outra. Acomoda-se na cama, encosta na cabeceira e cruza as pernas.  Victor termina o serviço no banheiro e volta para o quarto. 
- Falei com Vilma. Vamos até lá por volta das seis da tarde, para ajudar a arrumar as coisas. Ela disse que Todd não vê a hora de te mostrar sua nova espingarda. – Diana diz com uma voz mansa. 
- Odeio essa época do ano. Feliz natal? Feliz ano novo? Foda-se.
- Você odeia todas as coisas. Por isso é meu monstro. 
- Diana, podemos passar esse tormento de natal em casa. Terminamos os vinhos e fodemos e jogamos cartas... O que me diz?
- Não. Já está tudo combinado.
- Vilma tem um presépio gigante no quintal. Presépios me assustam.
- Lembra ano retrasado, Victor? Todd, bêbado, abateu um dos três reis magos com uma de suas espingardas, Vilma ficou furiosa. Agora são apenas dois.
- Ele devia é abater o presépio inteiro. Libertar a casa daquela coisa assustadora. 
- Bom, temos que estar lá às seis da tarde.
- Eu não sei se vou conseguir dormir, sabendo de toda essa loucura ao meu redor.  Se eu não conseguir dormir, não vou suportar. 
O celular toca pela quarta vez, Diana estica um dos braços e apanha o aparelho jogado na cama. 
- Número desconhecido. – ela diz
- De novo?
Victor atende. Ele faz algumas caras de espanto, passa uma das mãos sobre a cabeça. Eva havia começado um discurso interminável, ele quase não consegue uma brecha para falar.
- Eva... Estou ligando para sua mãe!
Eva desliga. 
- Santo deus! 
- O que aconteceu? – pergunta Diana.
- Ela disse que falou com Tommy. Que ele vai leva-la a Paris e que a ama de verdade
- Oh, isso não é ótimo?
- Seria, se Tommy não fosse um maldito urso de pelúcia de vinte e sete anos. E ela disse mais, falou que vai mandar flores francesas para o meu velório, quando você me matar.
- Nossa. E depois eu é que sou a louca.
- Mas você já me ameaçou com uma faca duas vezes. Na segunda abriu um rasgo no meu braço. Treze pontos... Lembra? 
- Eu e ela certamente somos muito diferentes. 
- Com certeza...
- Me diz, vai mesmo ligar pra mãe dela?
- É claro que não, Eva tem trinta e dois anos. Amanhã nem vai lembrar que isso aconteceu.  
Os dois terminaram o chá, apagaram a luz e deitaram. Victor envolveu Diana nos braços. Os corpos ainda suados se mesclavam sobre o colchão. Ficaram em silêncio durante quinze minutos.
- Diana? – ele sussurrou em meio ao breu silencioso do quarto.
- O que é?
- Eu não te disse quando estávamos no mercado? As pessoas ficam muito perigosas nessa época do ano. Completamente insanas...
Ele sentiu Diana suspirar. Ela ficou imóvel como uma pedra, imersa em sono profundo. Victor fechou os olhos. Pensou consigo mesmo, “o que diabos é isso que os seres humanos vivem fazendo a si mesmos e aos outros?” Uma hora depois, dormiu sem respostas.

domingo, 4 de novembro de 2012

Clichês efêmeros

O conto a seguir sofreu pequenas alterações ao longo das últimas horas (05/11/2012 - 02:07).

Estamos numa noite nublada de quinta-feira. As nuvens estão um tanto carregadas, trovões e relâmpagos tomam parte da penumbra do céu formando desenhos e rabiscos luminosos que me riscam os olhos. Por um instante desvio o olhar do firmamento em direção ao chão, reparo numa moeda de cinco centavos presa entre as pedras da calçada, já tão gasta quanto as solas dos meus sapatos. Estava quase irreconhecível, parecia esquecida ali há muito tempo. Isso dispersa meu pensamento por instantes e me faz lembrar que precisava comprar calçados novos, e talvez umas meias.
Volto a olhar para o céu. Não transpiro muito, mas o calor dos últimos dias faz minha testa umedecer levemente. Não estaria mal que começasse a chover. Tento evitar olhar as horas, e é bom que elas me evitem também. Impaciência é uma coisa que não combina comigo, não é o tipo de negócio que costuma borbulhar dentro de mim. Na verdade mal sei o que é isso; se não fosse por estar parado aqui, na frente desse bar, no meio de um movimento incessante de pernas e mais pernas esperando por ela, provavelmente todo meu corpo estaria imerso em apatia e indiferença. Não existe substancia ou situação que eu conheça até então que me cause efeitos tão devastadores quanto essa mulher. Bizarro, colega. Eu não sei descrever o tipo de força que ela emana para me construir e me derrubar quase que ao mesmo tempo. Eu não sei descrever merda nenhuma quando se trata disso. É quase bestial. 
Tenho sede e vou para dentro do bar. Penso em comprar uma cerveja. Melhor, cerveja não. Não agora. Pego uma água. Lembro-me de algumas das várias discussões que tivemos no passado por causa do álcool. Está tudo bem, eu tento beber menos. Eu quero fazer as coisas certas uma vez na vida.
Planto-me outra vez na calçada, observo entre as cabeças, em meio às luzes e os relâmpagos. Não há sinal de chuva no céu e eis que a vejo virando a esquina, com seu pouco mais de 1 metro e 56 centímetros. Cabelos negros, de tamanho mediano balançando com a leve ventania que contorna as pessoas e os prédios. Faz aproximadamente oito meses desde o nosso último encontro, uma coisa corrida. Um quase adeus tão deprimente quanto a ausência que venho sentindo. Porra, eu não sei por que diabos tudo entre a gente ficou assim. Não entendo como deixei, ou deixamos tudo chegar nesse ponto nebuloso, nessa nuvem negra que separa vidas da mesma forma que separa o céu da terra. 
Agora Ana surge em minha cabeça. Por alguns instantes sinto-me como se estivesse sido transportado para um universo paralelo, como se tivesse perdido os sentidos, afogado em reminiscências desgastantes, é isso que certos erros fazem com a gente. Estou imaginariamente longe do bar, da calçada, do fedor da cidade. Ana foi mais um dos meus erros. Talvez o pior da minha vida até então e digo não só por mim, mas também por ela. Ana não tem culpa por ter sido uma coisa que plantei sem querer colher, e não devia sair machucada. Mas ainda assim dividi meu erro com ela e sou sujo por dividir minhas culpas, sujo por algum dia ter jogado metade dos meus sacos de merda nas costas dos outros. Sujo por em momentos de loucura ter alimentado vezes sem conta um ódio tão vil, tão porco, inclusive de mim mesmo. Dividi o peso, mas a capacidade de ter afundado aquilo que mais queria quando voltei para cá será sempre minha. Ana, uma brisa que soprou no canto errado, um pássaro que se perdeu no céu escuro dessa sujeirada que fiz e agora tento limpar. Isso tudo significa ser humano. Isso tudo significa ser humano por ser tão errado.
Se eu pudesse voltar naquela sexta, era começo do ano. Eu teria atendido aquele telefonema, Camile. Eu teria mudado o rumo dessa merda toda sem abrir feridas em ninguém, como devia ser. Mas fiz a coisa ao avesso e agora agonizo.
Começo a voltar ao mundo real. Estou novamente em pé na calçada esperando por Camile, que virou a esquina e agora já está tão próxima que posso olhar fundo em seus olhos, e mergulhar mais uma vez naquelas duas luas negras, os satélites do meu melhor planeta.
Instintivamente pego o maço de cigarros do bolso, levo um a boca e acendo. Não me parece a melhor coisa a ser feita, mas não levo nenhum jeito para reaproximações. Nunca levei. Só percebo que estou realmente fumando quando dou lá a terceira tragada. Camile agora está parada em minha frente e estica seus bracinhos finos de pele meio morena em minha direção. É um abraço gelado, como aquele de oito meses atrás. Ela olha em minha direção e deixa escapar um sorriso falso, quase rasgado.
- E pensar que antes você dizia que eu estava carregado de falsos sorrisos... - eu digo
- O que quer dizer com isso, err Diego?
- Nada.
- Você não tinha parado de fumar?
- Achei que tinha.
- Tá aí uma coisa que não muda em ti. Vive achando demais.  O que tu faz com as certezas?
Eu não respondo. Procuro uma mesa e faço sinal para sentarmos. Amasso o que sobra do cigarro numa lixeira próxima. Ela parece impaciente, não para de brincar com um cordãozinho da bolsa e evita olhares diretos. Ela sabe se esquivar como ninguém e sempre acaba me desarmando.
- Todo ano é a mesma situação. - eu digo
- Acho que dessa vez é diferente.
- Em que sentido?
- Não sei. Nem sei o que você quer dizer com isso...
Tento desconversar, ela tem o controle de tudo. Não demoro em perceber o quão fodido estou.
- Camile... Eu sinto sua falta.
- Eu também sinto a sua, mas não acho boa ideia a gente voltar a se falar. - ela ataca dessa vez, sem flanquear.
- Por que não?
- Porque eu já passei por isso duas vezes e não quero passar uma terceira.
- Se você acreditasse...
- Mas eu não acredito, Diego. Não acredito. Isso nunca funcionaria. E também não quero falar sobre tudo o que a gente já conversou antes. Então não comece um monólogo.
- Não seja egoísta. Tô me encontrando com você porque sempre quis as coisas diferentes.
- Egoísta o caralho, entendeu? Já se esqueceu das outras vezes? Eu tô cansada das suas merdas. E isso nem sequer é um encontro. – ela olha para o teto, leva uma mecha do cabelo para trás da orelha e continua. – Sabe, você deve ser o cara mais estagnado que eu conheço. Das coisas que você queria, chegou a concluir alguma? Você desiste de tudo. Você morre pelo caminho toda vez.
- E o que é que você sabe sobre as coisas que eu quero? 
- Agora estamos fazendo avanço. Você desistiu de mim inconscientemente. Apenas não descobriu ainda, Diego. 
Dou uma golada na garrafa de agua. Espero em silêncio para ver se ela solta mais alguma bofetada verbal. Ela voltou a se posicionar na defensiva. Penso em atacar, mas não tenho forças. 
- O único avanço que eu queria fazer aqui era me acertar com você.
Tento investir com um beijo, ela se inclina para trás e vira o rosto. Sinto o cheiro da maquiagem, a leveza de sua pele. Como me faz falta aquele toque... Eu recuo por um segundo. Agora tento abraçar seu rosto levemente com uma das mãos. Ela levanta: 
- Já estamos acertados, de certa forma.  Eu vou indo agora.
Camile começa a andar. Eu a acompanho, desviando dos transeuntes que aparecem em minha frente. Viramos a esquina. O metrô está logo ao lado, ela desce as escadas quase levitando, como se eu não estivesse ali. Continuo atrás. Sinto por dentro um desespero fora do normal subindo pela boca do estomago e girando no esôfago. Essa coisa é tão incomum para mim que mal consigo acionar um mecanismo de defesa. Estou completamente rendido e em segredo não sei o que fazer. Compramos os bilhetes, passamos as catracas. A merda do trem já esta lá. Ela vai irredutível até a porta:
- Camile, espera!
 Ela me olha pela última vez, antes de entrar:
- Eu disse que se você terminasse com ela, ia ficar sozinho. Otário.
- Fico sozinho então, porra, fico sozinho! – nesse momento eu perco a paciência e começo a gritar. – Isso não me faz mais ou menos fudido do que já estou, Camile!
Algumas pessoas olham um pouco assustadas enquanto passam pela plataforma.
- Então tá bom. A gente se vê.
Ela embarca no trem, sem olhar para trás. Agora estou impotente, gritando do lado de fora. Começo a andar de costas, sem tirar o olho da janela onde ela está sentada. O trem parte e some na escuridão do túnel. Tudo indica o último minuto, a última vez. Eu acabo de perder algo insubstituível. 
Tenho vontade de vomitar, mas minhas pernas querem correr. Saio do metrô, acendo um cigarro. Tento caminhar normalmente, enquanto praguejo em silêncio. “Vai pra puta que pariu, então. Vai...” 
O metrô mais uma vez leva uma parte de mim, enquanto apanho um táxi para a rodoviária. 
Desmembrado, estou voltando para casa. 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Às 5 da manhã

coisas batendo na cabeça
às 5 da manhã
talvez um tijolo ou
uma garrafa vazia,
um estalo no cranio e
avencas brotando pelas orelhas
em meio ao calor.

acomodo-me no sofá
ao mesmo tempo em que alguém tenta vender
modernos utensílios
dentro da minha TV muda
igual um tumulo formado por luzes

percorro os canais
e lá estão mais utensílios
ou previsões do tempo e
telejornais carregados de "bom dia"
prestes a começar

o mundo nunca parece tão feito
de televisores e coisas batendo
em cabeças como é
às 5 da manhã
enquanto o tempo faz questão de morrer
sem passar.

um murro num velho filme de ação bate
o uísque barato
canções desconhecidas batem
e o resto descansa
numa especie de sono
interminável
e estou tão acordado
quanto jamais estive

desligo a TV.

vou até o banheiro
jogo água no rosto e
encaro o espelho, não há nada a fazer.
caminho para o quarto
não acendo a luz
ligo o ventilador.
atiro-me na cama e faço um casulo com o lençol.

mantenho os olhos fechados.

as janelas batem,
e as portas
e os pássaros
e sol

você também bate em minha cabeça
com toda a força que o silêncio pode ter
às 5 da manhã.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Alissa não precisava morrer

Alissa tinha essa forte tendência suicida. Já havia tentado de tudo. Uma mangueira conectada no escapamento do carro inundando o interior do veículo com monóxido de carbono. Uma forca improvisada numa viga de madeira do rancho da casa, que por sinal estava podre e se rompeu quando ela pulou da cadeira. Tentou remédios, vários deles e álcool. Até mesmo um veneno ou sabe se lá o que diabos era aquilo que encontrara enquanto dava fim nas coisas da mãe, já falecida a oito anos. " Eu precisava de espaço no armário e então resolvi jogar a velharia fora. Separei apenas uma boneca de porcelana, que ela gostava muito e então me deparei com um frasco avermelhado, cheio de bolinhas laranjas e ásperas. Pensei que aquele era um bom momento e tomei tudo, mas aquilo só me fez cagar e vomitar por uma semana. Tive que dormir sentada na privada, um horror." Ela contou certa vez enquanto fazia uma omelete para o café da manhã. E numa noite, após o sexo, quando tomei coragem para perguntar das marcas nos pulsos ela respondeu "a primeira vez é sempre a mais idiota." Fiquei em silêncio por alguns segundos tentando entender o que ela quis dizer com idiota, matutando sobre as outras tantas vezes. Terminei por mudar de assunto.
Não sei bem se Alissa não tinha mesmo sorte com esse lance de suícidio ou se no fundo da sua alma nebulosa coberta por aquele manto de pele cristalina, ela na verdade não queria morrer. Talvez fosse isso, ela odiava em silêncio e por mais ódio que pudesse sentir da vida, odiava a morte igualmente como se buscasse um mundo paralelo entre as duas coisas. Algo que cultivara na infância e que sobrevivera até então, infinito. Possuía também grandes olhos cor de caramelo, um nariz fino, pequenino, levemente arrebitado que parecia sempre querer, com certa timidez, apontar para a lua. Uma boca avermelhada por natureza, nem muito fina, nem muito grossa terminava o contraste com aquela cabeleira obscura, num tom preto quase de cegueira.
Nos conhecemos por acaso, na sessão de filmes de horror de uma locadora alternativa numa noite de sexta. Eu procurava coisas trash do gênero Grindhouse, quando ela veio com um filme na mão. Apontou a capa para mim.
- Já assistiu esse?
Olhei para o título. Era um filme japônes chamado Suicide Club. Uma colegial estava em primeiro plano na capa e atrás dela varias outras.
- Não. - respondi.
- Eu estava pesquisando, me pareceu muito bom.
- É, talvez...
- Você não é muito falante, não é?
- A maior parte do tempo, não.
- Bom assim. Se quiser assistir comigo... Está convidado.
- Você nem me conhece.
- Você não me parece perigoso. Apesar de justamente isso indicar o contrário - ela abriu um sorriso.
- Olha...
- Então o rapaz vai me seguir? – perguntou, interrompendo.
- Com certeza.
Morava perto dali e no caminho, pouco foi dito. Ela contou coisas sobre a vizinhança e disse que há uma semana a policia federal havia cercado o bairro para prender seu vizinho, que era pedófilo.
Vivia com o irmão, ele trabalhava com alguma coisa de supervisão e controle de hidrelétricas e estava viajando a trabalho. Um portão grande e cinza que se abriu fazendo um barulho agudo levava pela garagem até uma porta grossa de madeira que dava para a sala. E ali estávamos sentados, assistindo o filme japonês. Tudo começou numa estação de metrô de Tóquio, onde varias colegiais estavam indo apanhar o trem, mas antes que ele chegasse até a plataforma, todas elas deram as mãos e pularam nos trilhos ao mesmo tempo. E aí veio aquele banho de sangue e carne triturada na tela, na multidão. E gritos, muitos gritos. Uma serie de suicídios começou a acontecer no decorrer do filme e um detetive resolve investigar tudo isso. Logo descobriu que existia um grupo de música, teoricamente infantil e de muito, mas muito mal gosto japonês que estava por trás disso. Bem, nessa altura eu já não estava nem mais ligando para o filme. Não conseguia tirar os olhos daquele pedaço de gente ao meu lado. Ela ejetou o dvd.
- Gostou?
- Na verdade achei todos esses cretinos um bando de adolescentes influenciados pela mídia. Nada mais que isso. Sei lá, aquele grupo era horrível. Parecia uma coisa tipo Xuxa. Talvez se partirmos desse ponto podemos entender as mortes. Por outro lado, Japão é meio assim mesmo. Muita gente bitolada com esse tipo de coisa...
Ela riu.
- Também esperava mais, – disse – eu já tentei.
- Tentou o que?
- Suicídio, oras.
- Por quê?
- Acho que falta do que fazer. Ou falta de vontade de fazer... Quer uma cerveja?
- Mas é claro.
E assim passei o final de semana na casa dela, acordando atrasado para o trabalho na segunda feira. As pessoas desequilibradas sempre me atraíram.

*

Uma semana se passou. Madrugada seca. Estávamos no meu apartamento bebendo sem parar durante umas quatro horas, quando Alissa aproximou-se da janela e voltou-se para mim.
- Vamos fazer um teste.
- Que teste?
- Eu vou subir no ar condicionado do vizinho de baixo, está logo aqui. – ela se debruçou na janela para olhar o ar condicionado.
- Estamos no décimo quarto andar...
- E daí?
- Para com essa merda.
- Eu vou subir, vamos ver se ele me aguenta.
- Não ouse meter sequer uma perna pra fora dessa janela.
Ela era pequena, 1,57 de altura e pesava 48 quilos. Vinte e três anos de muitas historias. Apoiou uma perna no ar condicionado e me fitou com olhos de provocação.
- Volte essa perna para dentro AGORA MESMO! – gritei, me contorcendo no sofá.
- Parece firme, acho que não vai cair.
- Não...
- Já estou indo! Já estou indo!
- Escuta aqui...
- Atenção!
- Foda-se também. É isso que você quer? Vá em frente. Tomara que se arrebente lá em baixo.
Alissa gargalhou, deixou cair a garrafa para fora. Eu pensei que ela iria recuar.
- Nossa, é alto mesmo!
Nesse momento já estava em pé no ar condicionado, completamente fora. Eu só podia ver a calça jeans preta pela janela. Levantei-me para puxa-la para dentro, mas ela voltou por conta própria.
- Viu? Me aguentou.
- Você é louca ou o que? Podia ter caído de bêbada também.
- Não sei.
Ela foi até o banheiro, pude ouvi-la vomitar, depois escutei o som de seus passos se arrastando pelo assoalho até o quarto. Abandonei minha garrafa e a segui. Ela já estava deitada, de barriga para baixo, fez um esforço para me olhar.
- Você pode me comer se quiser, mas eu vou dormir. Hoje você finge que é um necrófilo.
Não consegui conter o riso, mas sabia que de alguma forma ela iria gostar da experiência.

*

As coisas correram bem a partir daí. A indiferença de Alissa perante a vida e os riscos e qualquer coisa que envolvesse certo tipo de ação inesperada me encantou. Ela começou a passar a maior parte do tempo em meu apartamento, o que não era ruim. Sua presença desfilando pelos cômodos todas as manhãs e todas as noites era como uma obra de arte viva. Também sua voz baixa e suave como uma nuvem ecoando pelas paredes feito uma melodia composta só para mim. E seu sorriso quase inexistente, como uma Mona Lisa comtemporânea, louca e suicida me dava forças para ressuscitar da cama todos os dias e correr para o trabalho. Já levávamos dois meses juntos. Suicídio não era decepar a própria cabeça numa guilhotina, mas sim abandonar Alissa.
Estávamos numa manhã de domingo nublada e tudo indicava uma boa chuva. Já fazia mais ou menos um mês que não víamos agua cair, a cidade estava em clima de deserto. Sentei na cama e acendi um cigarro, olhei para a janela e acariciei levemente os cabelos de Alissa, que voltou o olhar para mim.
- Parece que finalmente vai chover. – eu disse
- Já não é sem tempo. Posso morrer afogada, seca jamais.
Ela se levantou, foi até o banheiro e jogou agua no rosto. Pude ouvir barulhos na cozinha e um cheiro de café logo começou a navegar pela atmosfera. Fui até lá.
- Já era pra ter resultado, não é? – olhou para mim e sorriu.
- O que?
- A morte.
- Vai começar com isso de novo? Alissa, você nunca quis morrer de verdade.
- Não vou. Até acho que você tem razão, mas porra, que tudo é uma verdadeira merda, isso é. E morrer é supostamente uma coisa boa...
- Não discordo, mas faltando a capacidade de comprovar isso, a gente morre de mentira por aqui. Pra mim tem funcionado muito bem, apesar de ainda termos que calçar nossos sapatos e enfrentar meia cidade para trabalhar.
Alissa tirou o café do fogo, serviu duas xícaras.
- Pelo menos é certeza que aqui a gente pode foder e fazer nossas guerras e criar nossos personagens. – ela riu
- Certeza é sempre uma vantagem! – alcancei uma xícara e dei um gole no café.
- Se é! E das grandes.
Alissa sabia, a gente só precisava matar um demônio de cada vez. E os primeiros pingos de chuva já começavam a encharcar os vidros das janelas.

domingo, 12 de agosto de 2012

Um poema áspero

a estupidez te domina tão rápido
quanto exércitos de homens enfurecidos pela pátria
mal colocada na
história e
não importa a quantidade
de garrafas entornadas
as coisas não vão mudar.

é isso que Otávio diz
enquanto termina outro copo,

elas simplesmente não vão mudar
e vão te atormentar ano após ano,
ele continua.

não preciso de ninguém
não quero saber de nada - digo -
vamos apenas continuar na pegada.

Otávio pede mais duas doses de conhaque
e solta uma tímida gargalhada.

não só quer como lamenta a ausência
feito um cão,
você é sujo - solta outra gargalhada
é tão sujo que não pode viver sóbrio
você é sujo e fraco
e não aguenta um segundo
na escuridão

por um momento penso em fugir das coisas ruins
e ligo para Marília,
ao mesmo tempo que a chamada se propaga por meus ouvidos e
o som percorre meu corpo como uma corrente de vapor,
penso se há realmente algo a ser dito.

as coisas estão morrendo,
é tudo morte, uma sequência assassina,
lembro de quantas coisas matei pelo caminho
e
desligo antes que alguém atenda, sem pensar no meu número
cravado como uma chaga ali no aparelho que pertence a ela.

eu, uma chaga.
Marília, uma bênção.
uma paisagem tão longínqua quanto posso
imaginar.

derrotado outra vez
abandono a mesa enquanto Otávio
mergulha em outra
dose

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Um mergulho no breu

existe uma superfície infinita
que bate em mim
com a força de cem punhos
de homens banguelos, bêbados e
insanos, que gritam com o mesmo terror e
silêncio de um vulcão em erupção
existe uma superfície de loucura e de
contas à pagar
bancos
desemprego
fome
filas enormes nos hospitais
no caixa do mercado
dinheiro por comida
roupa
casa
saúde
dinheiro por cagar,
trabalhos horríveis por quantias
de dinheiro mais horríveis ainda
e bocas, muitas bocas trazendo o inferno.
tente encontrar o real significado para
tudo isso e você terminará
tão louco como jamais
foi.

é provável que esse seja o motivo
pelo qual não consigo levar nada adiante,
a não ser uma sucessão inacabável de fracassos e
desinteresses.

tenho assisto aos jogos olímpicos de Londres
como quem tenta escapar do fundo de um balde
transbordando de merda, e isso me tem feito algum bem;
procuro apreciar Londres cinza e chuvosa,
bonita como tem de ser,
também as modalidades e suas disputas com toda a força
que isso possa significar, e a beleza,
especialmente das garotas da ginástica artística com suas séries
e movimentos quase mágicos.
é só quando penso no passado que uma pontada
atravessa o corpo.
as vezes se eu tivesse continuado a nadar - e como eu era bom -
talvez hoje pudesse estar lá
mostrando que em algum lugar de mim ainda existe
uma alma pulsante, pronta para brigar.
quase me arrependo dos doze anos de natação
jogados no lixo, e das tantas outras coisas que joguei e
ainda vou jogar

é só que não tenho sonhos
não consigo sonhar;

mas o mergulho no breu
na falsa superfície do presente,
com as recordações azedas e pontiagudas
pesando feito chumbo,
é o que resta
enquanto luto para não sucumbir em filas de espera,
para não perder os papéis coloridos
antes que seja decretada
a última sentença

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Porque quatro dias é demais

O barulho daquela avenida numa manhã de domingo assim como em todos os outros dias era um tormento, os motores dos carros que passavam pelas duas vias nunca sessavam e apesar da cidade não ser tão grande, era chato. Era como ter uma maquina de engrenagens dentro da cabeça. No caso de Alex, isso já tinha se convertido em algo quase inaudível. Vivia ali desde o nascimento e já não sustentava esperanças de encontrar silêncio naquele lugar, aliás, nem em parte alguma. O homem estava mesmo fadado a conviver com barulho e loucura, seja ele de maquinas, televisores, rádios, animais ou do próprio ser humano e sua boca fedida.
Raios de sol se infiltravam pelas frestas da persiana, iluminando parcialmente o quarto. Marcela já devia estar acordada há umas duas horas, ela sempre acordava primeiro.
- Alex? Tá acordado?
- Hmmm ahn hmmmm
- Al? Já são quase 13:00. Você não vai levantar? Al.. Eu estou enjoada de ficar deitada.
- Pode levantar, pode fazer o que quiser. Você não está amarrada, amor. Mais um pouco e saio da cama...
- Então tudo bem.
Alex soltou um longo suspiro, sem abrir os olhos. Coçou o rosto e virou para o outro lado. Marcela começou a acariciar suas costas, descendo e subindo com o dedo indicador. Depois deu um cutucão, e outro.
- O que é, porra? - Disse Alex - É impossível dormir com você aqui e já se vão TRÊS DIAS E TRÊS NOITES assim. Maldito seja esse feriado prolongado.
- Mas já são quase 13:00. Você dormiu demais. Parece que não sabe pensar em outra coisa. Dorminhoco.
- Pro caralho com isso. Você mal me deixa dormir a noite. E nem por isso eu te acordo quando, no meio da madrugada, começo a sentir um calor do inferno e preciso levantar para não morrer queimado.
- Por que tá falando assim comigo? Não me quer aqui? Há dois dias você estava diferente.
- Olha, você vem e fica sempre dois dias. Quatro dias é demais pra mim. Posso suportar dois, mas quatro é demais.
- Você não me ama mais? Não quer estar comigo?
- Eu posso te amar quando você está de boca fechada. Você fala o tempo todo, minha cabeça, meus ouvidos estão doendo. É demais pedir um pouco de silêncio?
- Eu sou chata?
- Santo Cristo.
- O que foi?
- Não é isso. Você tá parecendo uma parasita. Você me esgota. Sinto-me doente. Eu posso dormir por oitenta e seis dias seguidos, mas se você estiver do meu lado em todos eles, grudada feito uma sanguessuga eu vou sempre estar cansado e acabado. Sem contar essas perguntas infinitas.
- HAHAHAHAHAHA Exagerado. Aliás, você arrumou o carro? Queria dar uma volta...
- Estou falando sério. Não se faça de desentendida.
- Qual o problema? Meu aniversário está chegando e...
Alex levantou, procurou a cueca no meio do lençol, vestiu-a e foi até a cozinha. Abriu uma cerveja, pegou a frigideira. Uma mancha negra e grudenta se formava bem no meio dela, parecia mais um tumor. Jogou óleo por cima da mancha, colocou no fogo a frigideira e quebrou um ovo dentro. Marcela veio do quarto e sentou à mesa.
- Tô cansada. - ela disse
- Só pode ser piada...
- Não, acho que é fome.
- Marcela, você não gosta de nada que tem aqui. Não gosta de ovos, não gosta de frutas e nem das bolachas que estão no armário. Nada serve pra você.
- Idiota.
- Pega uma cerveja. Depois vamos ao mercado.
- Não quero mais saber.
- Ok. Foda-se.
- Eu vou embora.
- Vá. Você está dois dias atrasada.
Marcela fechou a cara, correu para o quarto. Dava para ouvi-la juntando suas coisas, vestindo a roupa enquanto balbuciava alguns insultos. O estalo que fazia a velha maçaneta da porta principal ecoou pela casa.
- SEU FILHO DUMA PUTA! ESPERO QUE VOCÊ SUBA SONAMBULO NO TELHADO, CAIA E QUEBRE TODOS OS OSSOS E MORRA! - Ela gritou, e bateu a porta.
Alex terminou a cerveja, comeu o ovo frito e voltou a dormir. Nada se comparava à tranquilidade de estar só, em meio aos motores na avenida. A própria respiração servindo de companhia, flutuando em meio à luz solar fosca que iluminava o quarto.
O romance se arrastou por mais duas semanas, mas só nos sábados e domingos.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Epílogo

Não é de hoje, não é novidade. O que eu tiro daqui é só cansaço, é apenas uma coisa que vem e volta com o tempo, com o clima e o ar, no cheiro do orvalho em meio ao odor cinza da cidade ou no oco do silêncio dessa madrugada crua e insone. Também não é tristeza da mais pura, não. Longe disso. É só essa ideia que parece uma faca afiada e certeira, dando pontadas na boca do estômago. Hoje até meu travesseiro é uma navalha. Eu encosto a cabeça e sinto o couro rasgando por dentro e por fora, mas isso nem importa tanto, já que há tempos carrego um peso extra pra dormir. Acho que o pior peso de todos é acordar e antes mesmo de sair da cama, já mergulhar de cabeça nessa piscina vazia que é a rotina incrustada nos dias. Isso é sair da cama, vestir-se, correr para o trabalho que você odeia ou finge gostar, receber uma merda dum dinheiro a cada mês e aguentar conversa batida dos colegas durante seis ou mais horas a cada dia. Achar tempo para os amigos. Ir ao mercado, rechear de porcaria o carrinho. Fazer turismo na TV mudando freneticamente os canais. Comprar roupa nova, celular novo, carro novo quando der. Tirar satisfação desse monte de lixo comprado que a gente na verdade mal precisa. Limpar a casa. Ir ao médico, dentista. Atender telefone, mandar sms ilimitada por causa do plano que você fez com a operadora. Ir ao banco pagar a fatura do cartão, as contas da casa e impostos. Fila nisso, fila nos mercados, nos cinemas, nos aeroportos. Intermináveis salas de espera. Pedágio na estrada. Pegar transito no frio, no calor, na puta que pariu. Às vezes transar pra pensar que tem uma válvula de escape. Até dormir demais cai na rotina. O lado bom é que dormindo a gente nem percebe. Isso, dia após dia após dia. Mas tudo bem, a gente se acostuma, e acostumar-se a tal coisa também é rotina. A vida é pura adaptação, tem quem diga. E de certa forma, já estou mesmo adaptado. O problema na verdade nem é tanto esse monte de coisas que estão aí, pra ficar. Não é essa ilha tão grande que a gente tem que percorrer, dando voltas. O problema é só ausência.
Sabe que outro dia sonhei que estava morando em Barcelona e as coisas estavam indo realmente bem, era aquele inverno gostoso de fim de ano e eu encontrava você, assim ao acaso, caminhando pelas Ramblas no meio de todos aqueles cafés e lojas de pequenos souvenires e estátuas humanas excêntricas. Os mesmos olhos castanhos, bem escuros e críticos e os passos leves, que vinham como uma neblina pronta para me abraçar. Acordei enquanto inclinava-me para jogar uma moeda para uma das estátuas, e quando olhei para o relógio no criado mudo, percebi que só tinha dormido três horas. Grande merda o sono, nessa altura a única coisa que eu podia fazer era calçar os chinelos e dar uma espiada no quintal. Fumar um cigarro, pegar algum livro do meu escritor favorito. Ficar ali, uma ou duas horas, junto com a minha cretinice. É assim que venho parar aqui, com uma carta na mão, um texto, qualquer merda dessas que nunca vão sair do lugar.
Ah, pequena. Podemos remar em correntezas diferentes, mas só queria dizer que sinto falta da alegria irresponsável que eu tinha com você; até mesmo dos relâmpagos que por vezes, muitas vezes, saltavam entre as falhas. Eles também foram esplêndidos.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Dia de limpeza

Era uma terça feira de muita chuva. O chefe não aparecia na empresa durante as terças e sempre era um dia calmo na corretora. Trancado em sua sala, Oscar fumava um cigarro. Um pouco das cinzas caiu em cima da documentação de um cliente, ele assoprou tudo para o chão e deu uma espalhada com o sapato. O telefone tocou, era uma chamada da sala 23.
- Ei, Toni. Qual o problema?
- O homem está subindo.
- Quem?
- Sr. Marcone.
- Mas hoje não é terça?
- Mas ele está subindo.
- Oh merda. - Oscar desligou
Tentava esconder o cinzeiro quando a porta se abriu. O barulho dos paços do Sr. Marcone fazia parecer que ele estava calçando uma espécie de tamanco plataforma, porém continuava baixo como uma criança de doze anos. A sala fedia a cigarro, Oscar pousou o cinzeiro na mesa e foi abrir a janela.
- Deixe estar - disse o Sr. Marcone.
- Aconteceu alguma coisa? Hoje é terça...
- A política da empresa proíbe fumar no horário de serviço, independe do dia da semana... Mas não é por isso que estou aqui.
- Algum problema?
- Qual a sua relação com Bernadete, a recepcionista?
- Bem, às vezes almoçamos juntos.
- Só isso?
- Sim.
- Ela me disse que um dia você foi até a casa dela...
- Fui, mas ela me pediu para ajudar a carregar um fogão da casa da mãe até lá. E como tenho uma picape...
- Você sabe que não são tolerados relacionamentos amorosos entre os funcionários, não é?
- Não há relacionamento, sou casado, lembra Sr. Marcone?
- Bernadete me disse que você lança olhares estranhos para ela a todo o momento.
- O que? Isso é um absurdo!
- É melhor começar a juntar suas coisas, Oscar.
- Mas eu trabalho aqui há quinze anos. QUINZE ANOS!
- A política da empresa é muito clara...
- MAS ISSO É UM ABSURDO!
- Olha, se quiser posso fazer boas recomendações de você e logo arrumará outro emprego, agora por favor, seja o bom profissional que todos sabemos que você é, junte suas coisas e saia daqui sem dar uma palavra com Bernadete.
Oscar passou pela recepção carregando suas coisas, encarou Bernadete com o canto dos olhos. Tinha vontade de pular naquele corpo magro, branco e sardento e enche-lo de pancada, mas permaneceu calado e em linha reta em direção a porta, precisava de uma maldita recomendação. Cruzou o estacionamento até sua picape, o citroën do chefe estava parado logo ao lado. Entrou no carro, acomodou as coisas no banco do passageiro. Toni ligou.
- Ei, cara. Sinto muito.
- Oh, tudo bem. Marcamos de beber algo qualquer dia, Toni. Eu esqueci umas coisas no meu armário, você pode guardá-las para mim?
- Não vai ser possível, eles foram rápidos e já fizeram uma limpeza na sua sala, jogaram fora tudo o que você deixou. Eu estou arrumando minhas coisas agora.
- Puta que pariu. Mas como assim arrumando suas coisas? Foi demitido também?
- Deixe-me contar a novidade. Fui promovido! Agora ocupo o seu lugar. Isso não é legal? Tenho que desligar, eu te ligo mais tarde para tomarmos algo e falarmos sobre isso.
- Olha, Toni, vai se foder. Vai tomar no olho do seu cu! FILHO DA PUTA!
Desligou e arrancou com o carro e destruiu o retrovisor direito do citroën. Estava possesso; pro diabo com a política da empresa. Quinze anos enterrados na merda, servindo de fantoche e para quê? Aguentar ingratidão atrás de ingratidão. Era isso que pensava Oscar, a gente vem ao mundo para servir de boneco e o nome que dão pra essa coisa toda é política. Ele não sabia a quem queriam enganar, mas estavam conseguindo.

Oscar chegou a casa, guardou a picape na garagem, enxugou os pés no tapetinho amarelo e abriu a porta. O cheiro de água sanitária misturado com álcool logo inundou suas narinas. Susan deu um salto do sofá, seus 130kg divididos em pouco mais de 1 e 63 de altura fizeram as paredes tremer, a cabeleira loira, espichada até os ombros balançou como folhas ao vento. Ela espirrou álcool nos sapatos do marido.
- Tire os sapatos. Quantas vezes tenho que dizer?
- Querida, o chão foi feito para ser pisado. Caso o contrário flutuaríamos...
- Você pode pisar de meias. – borrifou mais do álcool pra cima de Oscar.
Ele já ia encostando os sapatos num canto perto da porta quando a mulher interrompeu, aflita.
-Oh, espere! Tire essas meias também, elas estão imundas! Você é um porco, eu me casei com um porco. Por que, Deus?
- Está chovendo, as coisas estão todas úmidas...
- Você vai infectar a casa, vamos adoecer e morrer. É isso que você quer?
Oscar tirou as meias. Susan saiu correndo pela casa com um tubo de veneno e um pano na mão, ela disse que alguns insetos haviam entrado e não escapariam vivos. Ele resolveu fazer um lanche enquanto vivia seu pesadelo por mais um dia. Voltar para casa já era um pesadelo e agora isso, estava desempregado e traído por Toni e Bernadete, aquela vadia; que olhos verdes enganosos ela tinha. Até o Sr. Marcone, o filho da puta que esteve ao seu lado durante quinze anos resolveu deixar a mascara cair.. Que vida de merda estava fadado a levar. Por um instante se imaginou na áfrica, metido num campo de refugiados em algum lugar do Quênia, mas isso não amenizou sua preocupação, só o fez afundar ainda mais na perversão do ser humano. Estava deprimido.
Não sabe ao certo quando ou porque a mulher ficara assim, com essa paranoia toda. Já faz uns dois anos que não tem paz dentro da própria casa com a mulher comendo e limpando sem parar. Fazer compras é um tormento, ele quase poderia alimentar o mundo todo com os gastos em mercado.
Não pode lembrar-se das crises de pânico e limpeza da mulher e da forma como ela quase morre quando estão juntos na rua, ou quando ela resolve ir ao mercado usando luvas e mascaras. E os teatros, os malditos teatros que ela faz quando se joga contra as paredes e bate com a cabeça no chão ao encontrar uma gota de mijo na borda da privada, ou quando ele derruba café na toalha da mesa, entre outras coisas... Peidar na cama com ela por perto então, nem pensar. Como se ela não peidasse enquanto dormia. Estava louca e hoje ia passar um bom tempo mais louca ainda, atrás dos insetos.
Depois de terminado o lanche, Oscar levou o prato até a sala, com todo cuidado para não ser visto, passou na ponta dos dedos sobre o tapete persa de Susan. O tapete era só mais um problema, uma mancha, uma cor a mais além dos traços próprios dele e a casa vinha a baixo e a mulher agonizaria a troco de nada, mais uma vez. Estava preste a ligar a TV para assistir as noticias do esporte quando Susan apareceu bufando, sua pele clara ficava vermelha com facilidade e os cabelos loiros pareciam até mais brancos quando ela estava com raiva.
- Seu miserável! O que é aquela mancha amarela na toalha da cozinha? E você está comendo aqui, em cima do meu sofá? Nem eu como no sofá, porque ODEIO isso.
- O sofá é nosso...
- Mais um motivo para você cuidar bem dele, seu porco nojento!
- Susan...
- Você não me ama, higiene é a única coisa que te peço, a única! Você não me ama!
Oscar levantou com o prato e o lanche e disse:
- Olha, amor... Não é melhor procurarmos um psiquiatra? Pode ser bom para você... Estou tendo um dia difícil e ainda tenho que chegar em casa e aguentar essa ladainha toda. VOCÊ ESTÁ ME MATANDO DIA APÓS DIA, SUSAN.
- O que? Está me chamando de louca? O louco aqui é você! Quem é que gosta de viver na imundice? Seu canalha, não tem respeito pela sua mulher?
Ele ia levando tudo para a cozinha, quando encarou o pequeno vaso de violetas que ficava junto ao telefone. Ouviu a mulher resmungando "dia difícil, mal sabe o que é dia difícil, esse pilantra." Ela tinha que acordar dessa doença por bem ou por mal. Ele sabia que ela pararia de gritar se derrubasse o vaso, ela teria mais uma crise de pânico e tão logo se acalmaria. Então esbarrou propositalmente no vaso. La se foi tudo de encontro ao piso branco e brilhante com cheiro de água sanitária. Terra, flores, vaso, prato, pão, presunto, queijo, mostarda tudo condensado numa poça colorida... Oscar agora encarava a expressão raivosa da mulher com um sorriso de canto. Expressão essa que foi murchando, desaparecendo como uma rosa no frio, indo ao encontro do arco-iris de sujeira formado no piso. O pânico tomou conta do rosto de Susan, ela calou. Começou a tremer e colocou as mãos no rosto. Oscar por fim, disse:
- Esses seus ataques de pânico não me enganam mais. Vamos querida, pare com isso, era só um vaso...
Susan não respondeu. Caiu de joelhos e em seguida desabou babando sobre o tapete persa, de 3.600 reais.
- Vamos lá, isso já foi longe demais. Você está babando a porra do tapete todo, querida. Não quer sujar seu tapete persa com saliva, quer? Os germes vão entrar pela sua boca, levanta daí meu amor.
- Aaaargh, aaaaaah, uuuuh – respondeu Susan apertando intercaladamente o peito e o pescoço
- Você precisa de ajuda. Entenda de uma vez... Se não for ajuda profissional, que seja divina. Ouviu? Espero que os deuses estejam ouvindo também...
- Aaaaaaargh, aaaaaarght
- Ora, foda-se. Fique aí então. Vou ao mercado comprar umas cervejas.

Voltou duas horas depois. Uma mosca caminhava tranquilamente sobre os lábios levemente arroxeados de Susan. Oscar pulou toda a sujeira e o corpo da mulher , deixou uma marca de barro no tapete e foi até a cozinha, abriu uma garrafa. A mosca agora passeava pela casa. Ele sentou-se no sofá. Soltou um peido, derrubou um pouco da cerveja, procurou na TV as noticias do esporte, mudou para um canal de filmes. O telefone tocou.
- Alô?
- Oscar Rocha, corretor?
- Ele mesmo.
- Sou Aline Quaresma da L&A corretora. Estamos aqui com uma recomendação, gostaríamos de contratá-lo de imediato.
- Oh, que ótimo, então para quando fica a entrevista?
- De imediato, senhor. Já estamos com o seu currículo e não será necessária entrevista.
- Mas isso é maravilhoso. Muito obrigado.
- Nos vemos amanhã de manhã, as 8:00. Até logo.
- Até logo.
As coisas pareciam começar a voltar ao normal, enquanto a mulher continuava deitada, feito uma colina enraizada no tapete. A mosca voltou a pousar em seu rosto, Susan nada fez. Agora Oscar estava ansioso pelo novo emprego, e também por conhecer Aline, que tinha uma voz adorável. Tudo o que ela falava parecia poesia. Ele então suspirou.
- Vamos meu bem, acabou a brincadeira! Ainda preciso te contar sobre o trabalho...
Susan nunca mais respondeu.