quinta-feira, 18 de julho de 2013

00:00

pensando em insônia
pensando em uísque e cerveja e
nostalgia enquanto leio conversas antigas de msn
e o programa nem sequer existe mais

pensando em coisas que morreram em você
e em como elas morrem o tempo todo,
em todos os lugares e em todas as pessoas,
por infelizes falhas humanas

pensando no toque infernal do despertador às 7:00 da manhã
pensando nos latidos dos cachorros da vizinhança
cortando o silêncio da noite,
pensando que tenho que trabalhar hoje e depois e depois e depois
pensando no salário
pensando em rotina e
no ódio

tudo resumido em murros contra o nada.

pensando em viagens
ônibus, campinas, são paulo, cheiro de bosta, guarulhos,
aviões, nuvens, turbulências, comida congelada,
banheiros minúsculos, guias de segurança
novos velhos ares

pensando em amigos
família
alegria
ursos polares
montanhas nevadas
natureza
isolamento
solidão
manifestações
política
corrupção
fronteiras
poder
consumismo
riqueza
pobreza
contas bancarias
dívidas
fome
guerra
tragédias
overdose
humanos
deuses
falsidade
raiva
assassinato
dúvida
desmotivação
descrença
decepção
indiferença

pensando em deitar,
fechar os olhos,
sonhar uma e outra coisa para fugir da mesmice
dos ponteiros do relógio
pensando em acordar,
cara de merda contra o espelho,
contra o mundo

pensando em saudade
e eis sua voz e olhos e boca e mãos e cabelos
pensando em você caminhando sozinha,
desaparecendo pelas escadas do metrô
pensando que eu podia ter te amado melhor
pensando no passado

pensando durante anos,
mergulhando no mesmo erro
que escorre incessantemente pelos muros mais altos e resistentes
que você jamais imaginou

pensando em teimosia, orgulho, cretinice
pensando em crise
pensando errado

e pensando em não pensar
nunca mais

ou quase isso.

17/7/2013

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Formigas por todos os lados


Desvio da fila dos caixas eletrônicos. O calor ali se mescla com a respiração e o burburinho das pessoas que se espremem pelo banco, o que faz a atmosfera começar a ficar perturbadora. Uma leve dor me sobe pela nuca e eu respiro fundo e estalo os dedos da mão direita. Enfio a mão no bolso, tiro o celular e o deposito no pequeno compartimento para objetos metálicos. Tento atravessar a porta giratória. Ela apita e trava. O guarda do outro lado do vidro me encara de cima a baixo, com suas olheiras pendendo pelo rosto. Dou um passo atrás com certa irritação, começo a vasculhar os outros bolsos, encontro o isqueiro, as chaves, o maço de Marlboro. Meto tudo no compartimento, junto com o celular. Atravesso a porta e recolho meus objetos no compartimento, ao lado do guarda que tem um bigode amarelado de nicotina e sorri dizendo “bom dia”.
Antes de pegar a senha do caixa, passo pelas mesas de atendimento ao cliente e vou até um filtro de água mineral parado num canto. Bebo três copos de água gelada. Volto até a maquininha das senhas e aperto o botão: “pagamentos e recebimentos”. A máquina cospe o papel: “senha número 87, previsão de espera: 15 minutos”. Olho ao meu redor, todas as cadeiras estão ocupadas, olho para o monitor que mostra as senhas chamadas e ele marca o número 43. “15 minutos? 15 minutos o caralho...” falo comigo. Atravesso outra vez o recinto e encosto ao lado do filtro. “Somente o ser humano mesmo pode ser tão estúpido a ponto de inventar essas burocracias, esses compromissos. Só nossa raça pra acabar com o simples que era pra ser a vida”, penso.   
Puxo um desses encartes de benefícios e serviços do banco que estava numa espécie de prateleira de papelão e cinco minutos da minha manhã já se foram pelo esgoto. Olho para o encarte que tem como ilustração a foto de uma família acompanhada pelo slogan: “Invista na família. Mude agora o seu futuro”. A mulher loira, vitoriosa, vibrante como uma raridade, uma escultura única. O homem igual, se não fosse pelo cabelo castanho escuro. No meio dos dois, uma menina e um menino. Todos estão bem arrumados, despreocupados e aparentemente cheirosos fazendo um piquenique num jardim repleto de cores pulsantes, num dia ensolarado de primavera. Todos sorrindo descaradamente com os seus dentes a mostra, brancos e limpos, impecáveis e vitoriosos. Desvio o olhar do encarte e acompanho com os olhos as pessoas que estão por ali, em sua grande maioria desesperadas e enlouquecidas, sem tempo para cuidar dos dentes, ou sem chances para juntar um pouco que seja de tempo livre. Elas estão fatalmente vitimadas e humilhadas por qualquer coisa errada no mundo. São pessoas reais, vivendo, respirando, comendo realidade e perdendo a compostura diariamente enquanto enfrentam a labuta. A ironia que escorre pelos muros e grades da nossa pequena e frágil existência as vezes é tão escancarada, tão grotesca que se mistura em meio ao resto da sujeira e passa despercebida pelos olhos mais cansados. Eu devolvo o encarte no lugar e tento distrair meu pensamento com algo que não seja o calor do outro lado ou cheiro de bunda, quando escuto alguém dizer meu nome.
- Diego? Que aconteceu que nunca mais te vi por aí?
- Ando ocupado. O tempo está curto, César. 
César costumava frequentar os mesmos bares que eu. É pintor, além de vendedor. Vive tentando expor suas telas em eventos pelo país, mas ainda não conseguiu. Ele fala demais quando não está bêbado, o que deve ser uma forma de vomitar a ansiedade crônica que corre em suas veias. É um bom sujeito, mas unicamente chato.
- Sei como é. Eu também estou passando apertado. Eu e a Patrícia estamos morando juntos agora. – ele diz, suspirando.
- É mesmo?
- Vai fazer duas semanas.
- Que bom, cara.
- Você estava deplorável no fim do ano, enquanto entornava garrafas e contava sobre aquela história das duas mulheres. Você conseguiu se acertar com aquela lá, cheia das tempestades?
- Não.
- Oh, sinto muito...
- Não sinta.
- Mas a outra sumiu, pelo menos?
- As duas sumiram. 
Ficamos em silêncio. César parece um pouco impaciente e logo volta a falar. 
- Sabe... Eu acho que não gosto mais da Patrícia. Na verdade, acho mesmo que estou começando a odiá-la.  
- Por quê?
- Eu não sei. Sinto que estou no limite. 
- Entendo você.
- Eu a amava há duas semanas. A coisa estava exatamente aqui dentro – ele aponta com a mão esquerda para o próprio peito – até quarta feira da semana passada. Era noite e estávamos transando, sabe? 
- Sim...
- Foi magnifico como sempre. Estávamos felizes. Terminamos o negócio e fomos tomar um banho juntos. Até aí tudo bem, então deitamos para dormir. Eu precisava realmente dormir, vinha passando por noites intermináveis de insônia e sentia que ali, naquele momento poderia dormir como nunca. Realmente consegui, acho que dormi profundamente durante uns trinta minutos e aí ela me acordou dizendo que havia formigas pelo colchão. Acendi a luz, não tinha nada. Apaguei a luz, virei pro lado e fechei os olhos. Estava quase pegando no sono novamente quando ela começou a me cutucar, falando sobre as formigas. Levantei, acendi a luz mais uma vez. Eu disse que não havia formigas, que ela devia estar com algum tipo de alergia. Então ela me disse que as formigas estavam escondidas em baixo da cama, eu dei uma olhada e não tinha nada lá. Nisso ela se levantou e atirou o lençol pro chão e gritou: “Elas tem que estar em algum lugar!” Aí ela foi pra cozinha e voltou com uma daquelas facas de churrasco e começou a triturar o colchão e a roupa de cama. Enfiava a faca e rasgava com uma destreza realmente assassina. Quando o colchão ficou totalmente destruído e com as molas expostas feito vísceras, ela olhou pra mim e disse calmamente: “Não estão aqui”, e foi guardar a faca. Eu tentava digerir o que tinha acontecido quando ela me chamou na cozinha. Fui até lá, ela apontava para todos os lugares. Pra pia, pra parede, pra mesa, pro doce de abobora da mãe em cima do fogão. “Estão aí as danadas, eu apenas sonhei que elas estavam na cama”, ela disse. Eu fiquei claramente irritado, ela tinha destruído um colchão praticamente novo. Tinha feito um escândalo e eu odeio esse tipo de coisa. Então começamos a discutir e eu não consegui dormir outra vez. Passei a noite praguejando enquanto ela dormia no sofá.
- Olha... Eu entendo você.
- Não, eu estou enlouquecendo. Ela também mudou meus quadros de lugar. Todo dia de manhã olha pra eles e diz que eu devia usar mais cores nas pinturas, enquanto tomamos leite naquelas canecas horríveis que ela trouxe pra minha casa. Às vezes tenho a impressão de que ela só está me parasitando. É como se ela sugasse até a minha merda.
- Eu passei por isso ano passado.
- Verdade?
- Sim.
- Não sei mesmo o que pode ter dado errado, Diego. Veja bem – ele faz uma pausa para coçar a garganta - ontem mesmo ela começou outra vez com o assunto sobre as formigas. Disse que eu devia comprar algum veneno, porque as malditas apareciam no açúcar e no arroz e estavam por todas as partes. Disse que estava farta de comer formigas e que eu precisava tomar alguma providencia.
- E você tomou?
- Então eu disse para que ela mesma comprasse o veneno, que não me esperasse por tudo porque ela já é grande o suficiente para fazer coisas por conta própria e eu já tenho que passar o dia trabalhando e preciso de tempo para pintar. E ela me encarou, começou a gesticular com os braços pra lá e pra cá, de forma enlouquecedora, dizendo que eu não dou valor suficiente a ela, não ouço o que ela diz e que eu só penso em pintar e gosto mais dos quadros do que dela, essas merdas todas, sabe? Daí eu falei que era bom ela procurar alguma ocupação e me ajudar a por dinheiro na casa, me ajudar com qualquer coisa, porque eu estou cansado de ver a cara dela em casa o tempo todo, batucando teclas no computador enquanto eu enlouqueço. 
- E ela?
- Começou a chorar. Depois ela berrava histericamente sobre valores e princípios, e desejou que as formigas comessem todas as minhas telas. Você precisava ver, fez um verdadeiro teatro. Aí foi pra casa da mãe dela e então minha sogra me ligou. 
- Minha nossa. Queria te apedrejar pelo telefone?
- Não exatamente. Ela queria me passar o nome de um ótimo veneno para formigas, veja só que piada. Pediu para que eu tivesse mais paciência... Disse que a minha personalidade estava mudando por causa das formigas e que tão logo as mesmas fossem eliminadas tudo ficaria bem. Então eu pensei em perguntar se a filha dela era uma formiga, mas disse apenas “ok” e desliguei, porque naquele momento precisava dar uma cagada. A Patrícia voltou meia hora depois como se nada tivesse acontecido e ainda veio dizendo que o aniversário dela está chegando e então quer um presente magnifico.
- O presente é fácil... Você pode pintar uma tela de uma formiga. Uma tela grande. Podem ser várias formigas ao invés de uma.
- Porra, você quer me ajudar ou não?
- Estou te ajudando.
- Hoje, antes de eu sair de casa ela estava prestes a começar a falar das formigas mais uma vez. Eu disse pra ela ir embora se não estava satisfeita. Que eu não era obrigado a sustenta-la. E ela disse que se fosse embora, eu nunca mais a veria. Você acha que as coisas vão melhorar se eu matar as formigas? 
- Não, eu não acho. Esse tipo de coisa ou é boa ou é ruim, independe das formigas. Matar as criaturas só faz você entrar no jogo, e depois das formigas vão aparecer besouros, moscas, baratas e qualquer outra coisa pior e é você que vai ter que lidar com tudo isso.
- Mas eu não queria perde-la. Eu sentia mesmo que a gente tinha algum futuro.
- Parece que você se enganou.
- É... Ela é louca. Acho que vou mesmo dizer pra ela fazer as malas hoje. 
- Pode ser melhor para ambos. 
- Mas isso vai me deixar deprimido por dias. Acho que nunca vou arrumar uma foda tão boa outra vez. E ela também é muito bonita, uma verdadeira raridade, você sabe. Tínhamos tudo pra vingar, não sei o que aconteceu.  
- Essas coisas acontecem o tempo todo.
- Acontecem?
- Estamos sempre procurando nos enterrar num buraco cada vez mais fundo, César.  A única coisa é que tem gente que leva tempo demais pra perceber isso.
- Como assim?
- Deixa pra lá.
Sei que ele voltará atrás com a merda toda e não tenho mais nada a dizer. Olho novamente para o monitor das senhas. Está lá o número 58. Eu amasso minha senha e penso comigo: “pro inferno com isso.” Digo a César que preciso ir e saio do banco. O centro da cidade nunca esteve tão feio e quente. Atravesso a avenida em direção a praça, sento num banco protegido pela sombra de uma arvore. Acendo um cigarro enquanto vejo pernas cansadas atravessarem os jardins, quase perdidas. Formigas. 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Algo sobre como as coisas ficam insanas no natal



É 24 de dezembro, 3:47 da manhã, madrugada da véspera de natal. Tudo parece silencioso nas ruas. A loucura está chegando ao fim. A correria para comprar o peru, os assados, castanhas, as frutas de todos os tipos e cores e as uvas passas, as malditas uvas passas. As pessoas pararam de arrastar suas crianças pelas calçadas, finalizaram as buscas frenéticas e furiosas por presentes e merdas. Agora dormem em suas casas, entre pisca-piscas irritantes e bolas coloridas penduradas em arvores de plástico, esperando alucinadas pelo natal enquanto Victor detona uma garrafa de vinho e tem um bom sexo reconciliatório com Diana. 
Ela está por cima enquanto ele concentra o olhar em seus seios. Ela arrasta as unhas por seu peito, em meio aos pelos e diz “Monstro. Você é meu monstro.” O celular no criado mudo começa a tocar, a chamada vai até o fim e o toque cessa. Agora ele carrega Diana para baixo e começa a trabalhar mais rápido, uma gota de suor escorre pela têmpora direita dele e pinga entre os seios dela, a gota percorre todo aquele vale branco e mergulha no umbigo. Os dois gozam. Ele rola para um lado e Diana levanta, puxa o maço de cigarros de dentro da bolsa e vai ao banheiro. O celular toca outra vez. Número desconhecido. Victor atende. 
- Alô?
- Ela está aí com você, não é?  - A voz de Eva vaza pelo aparelho.
- Eu não disse para você parar de me ligar?
- Está ou não?
- Não. Estou dormindo. Deixe-me dormir.
- Estou indo aí.
- NÃO VENHA. VOCÊ NÃO TEM ESSE DIREITO. 
- Ela está aí. Eu sabia seu filho da puta.
- Eva, nós terminamos. Você precisa se afastar de mim, tomar um tempo só seu, ou isso vai te deixar doente.
- Você me prometeu que nunca voltaria pra ela. Você disse isso. 
- Escuta Eva, é melhor você ir dormir. São quase quatro da manhã...
- O que eu vou fazer sem você, Victor?
- Vai viver sua vida. Vai encontrar outro otário. Vai continuar fazendo o que você sempre fez. 
- OTÁRIO OTÁRIO OTÁRIO – ela grita - você adora essa palavra. Deve me achar uma otária também. O que você pensa seu cretino? Você acha que é uma espécie de gênio?  VOCÊ ACHA QUE É DEUS? QUE TODO MUNDO É OTÁRIO, MENOS VOCÊ?
- Eva, você está bêbada? 
- Eu vou me matar, ouviu bem? Vou matar meus cachorros, meu canário e depois me matar. E a culpa é sua. Você vai lembrar disso todo final de ano, nunca vai me esquecer. – Ela desliga
Diana sai do banheiro, jogando a longa cabeleira cor de caramelo para trás com as mãos.  O cigarro preso entre os lábios. Victor está sentado na beirada da cama, ainda segurando o celular.
- Quem era ligando tão tarde? – Diana quer saber
- Eva está bêbada. Disse-me coisas horríveis. Falou que ia matar os cachorros, o canário e depois se mataria. 
- Não é melhor ligar e falar com ela direito? 
- Já tentei, ela não vai me atender.
- Então é melhor ir até lá.
- Não. Ela não vai fazer nada, não tem colhões. 
- Bem, vou preparar um chá para relaxarmos. – ela joga o que resta do cigarro dentro da garrafa vazia ao pé da cama.
- Boa ideia. Depois dessa crise, seria mesmo bom.
Victor caminha até o banheiro e puxa uma revista de uma cesta que fica ao lado da pia. Levanta a tampa da privada e senta. Começa a ler uma matéria sobre submarinos clandestinos que transportam drogas, fabricados nos confins da floresta amazônica pela As FARC. Diana faz barulho na cozinha, parece que matou uma barata. O celular volta a tocar. Ele levanta da privada e corre atender. 
- Ainda não me matei. – Eva diz
- Estou vendo. Se tivesse se matado eu teria terminado minha cagada.
- Eu pensei que você estava fodendo com aquela outra, por isso liguei.
- Eva, concentre-se na sua vida. Você vai conseguir.
- Estava pensando em me matar, mas não há mais o que matar. VOCÊ MATOU TUDO O QUE EU PODIA MATAR EM MIM.
- Você ainda está bebendo?
Diana aparece na porta do quarto com duas canecas de chá. Atravessa o cômodo, os seios firmes apontando em direção a Victor. Ela sussurra “Então, é ela de novo?” Victor assente com a cabeça.
- Eu cheguei a pensar que você era diferente, Victor. Mas você é igual aos outros. Por que você fez isso comigo?
- É isso que os seres humanos fazem uns aos outros... É natural as coisas acabarem, entende?
Victor escuta um barulho do outro lado. Eva deve ter derrubado alguma coisa. Uma garrafa, talvez. Ela desliga.
Ele volta ao banheiro, recoloca-se na privada. Diana deixa uma das canecas em cima do criado mudo e da pequenos goles na outra. Acomoda-se na cama, encosta na cabeceira e cruza as pernas.  Victor termina o serviço no banheiro e volta para o quarto. 
- Falei com Vilma. Vamos até lá por volta das seis da tarde, para ajudar a arrumar as coisas. Ela disse que Todd não vê a hora de te mostrar sua nova espingarda. – Diana diz com uma voz mansa. 
- Odeio essa época do ano. Feliz natal? Feliz ano novo? Foda-se.
- Você odeia todas as coisas. Por isso é meu monstro. 
- Diana, podemos passar esse tormento de natal em casa. Terminamos os vinhos e fodemos e jogamos cartas... O que me diz?
- Não. Já está tudo combinado.
- Vilma tem um presépio gigante no quintal. Presépios me assustam.
- Lembra ano retrasado, Victor? Todd, bêbado, abateu um dos três reis magos com uma de suas espingardas, Vilma ficou furiosa. Agora são apenas dois.
- Ele devia é abater o presépio inteiro. Libertar a casa daquela coisa assustadora. 
- Bom, temos que estar lá às seis da tarde.
- Eu não sei se vou conseguir dormir, sabendo de toda essa loucura ao meu redor.  Se eu não conseguir dormir, não vou suportar. 
O celular toca pela quarta vez, Diana estica um dos braços e apanha o aparelho jogado na cama. 
- Número desconhecido. – ela diz
- De novo?
Victor atende. Ele faz algumas caras de espanto, passa uma das mãos sobre a cabeça. Eva havia começado um discurso interminável, ele quase não consegue uma brecha para falar.
- Eva... Estou ligando para sua mãe!
Eva desliga. 
- Santo deus! 
- O que aconteceu? – pergunta Diana.
- Ela disse que falou com Tommy. Que ele vai leva-la a Paris e que a ama de verdade
- Oh, isso não é ótimo?
- Seria, se Tommy não fosse um maldito urso de pelúcia de vinte e sete anos. E ela disse mais, falou que vai mandar flores francesas para o meu velório, quando você me matar.
- Nossa. E depois eu é que sou a louca.
- Mas você já me ameaçou com uma faca duas vezes. Na segunda abriu um rasgo no meu braço. Treze pontos... Lembra? 
- Eu e ela certamente somos muito diferentes. 
- Com certeza...
- Me diz, vai mesmo ligar pra mãe dela?
- É claro que não, Eva tem trinta e dois anos. Amanhã nem vai lembrar que isso aconteceu.  
Os dois terminaram o chá, apagaram a luz e deitaram. Victor envolveu Diana nos braços. Os corpos ainda suados se mesclavam sobre o colchão. Ficaram em silêncio durante quinze minutos.
- Diana? – ele sussurrou em meio ao breu silencioso do quarto.
- O que é?
- Eu não te disse quando estávamos no mercado? As pessoas ficam muito perigosas nessa época do ano. Completamente insanas...
Ele sentiu Diana suspirar. Ela ficou imóvel como uma pedra, imersa em sono profundo. Victor fechou os olhos. Pensou consigo mesmo, “o que diabos é isso que os seres humanos vivem fazendo a si mesmos e aos outros?” Uma hora depois, dormiu sem respostas.

domingo, 4 de novembro de 2012

Clichês efêmeros

O conto a seguir sofreu pequenas alterações ao longo das últimas horas (05/11/2012 - 02:07).

Estamos numa noite nublada de quinta-feira. As nuvens estão um tanto carregadas, trovões e relâmpagos tomam parte da penumbra do céu formando desenhos e rabiscos luminosos que me riscam os olhos. Por um instante desvio o olhar do firmamento em direção ao chão, reparo numa moeda de cinco centavos presa entre as pedras da calçada, já tão gasta quanto as solas dos meus sapatos. Estava quase irreconhecível, parecia esquecida ali há muito tempo. Isso dispersa meu pensamento por instantes e me faz lembrar que precisava comprar calçados novos, e talvez umas meias.
Volto a olhar para o céu. Não transpiro muito, mas o calor dos últimos dias faz minha testa umedecer levemente. Não estaria mal que começasse a chover. Tento evitar olhar as horas, e é bom que elas me evitem também. Impaciência é uma coisa que não combina comigo, não é o tipo de negócio que costuma borbulhar dentro de mim. Na verdade mal sei o que é isso; se não fosse por estar parado aqui, na frente desse bar, no meio de um movimento incessante de pernas e mais pernas esperando por ela, provavelmente todo meu corpo estaria imerso em apatia e indiferença. Não existe substancia ou situação que eu conheça até então que me cause efeitos tão devastadores quanto essa mulher. Bizarro, colega. Eu não sei descrever o tipo de força que ela emana para me construir e me derrubar quase que ao mesmo tempo. Eu não sei descrever merda nenhuma quando se trata disso. É quase bestial. 
Tenho sede e vou para dentro do bar. Penso em comprar uma cerveja. Melhor, cerveja não. Não agora. Pego uma água. Lembro-me de algumas das várias discussões que tivemos no passado por causa do álcool. Está tudo bem, eu tento beber menos. Eu quero fazer as coisas certas uma vez na vida.
Planto-me outra vez na calçada, observo entre as cabeças, em meio às luzes e os relâmpagos. Não há sinal de chuva no céu e eis que a vejo virando a esquina, com seu pouco mais de 1 metro e 56 centímetros. Cabelos negros, de tamanho mediano balançando com a leve ventania que contorna as pessoas e os prédios. Faz aproximadamente oito meses desde o nosso último encontro, uma coisa corrida. Um quase adeus tão deprimente quanto a ausência que venho sentindo. Porra, eu não sei por que diabos tudo entre a gente ficou assim. Não entendo como deixei, ou deixamos tudo chegar nesse ponto nebuloso, nessa nuvem negra que separa vidas da mesma forma que separa o céu da terra. 
Agora Ana surge em minha cabeça. Por alguns instantes sinto-me como se estivesse sido transportado para um universo paralelo, como se tivesse perdido os sentidos, afogado em reminiscências desgastantes, é isso que certos erros fazem com a gente. Estou imaginariamente longe do bar, da calçada, do fedor da cidade. Ana foi mais um dos meus erros. Talvez o pior da minha vida até então e digo não só por mim, mas também por ela. Ana não tem culpa por ter sido uma coisa que plantei sem querer colher, e não devia sair machucada. Mas ainda assim dividi meu erro com ela e sou sujo por dividir minhas culpas, sujo por algum dia ter jogado metade dos meus sacos de merda nas costas dos outros. Sujo por em momentos de loucura ter alimentado vezes sem conta um ódio tão vil, tão porco, inclusive de mim mesmo. Dividi o peso, mas a capacidade de ter afundado aquilo que mais queria quando voltei para cá será sempre minha. Ana, uma brisa que soprou no canto errado, um pássaro que se perdeu no céu escuro dessa sujeirada que fiz e agora tento limpar. Isso tudo significa ser humano. Isso tudo significa ser humano por ser tão errado.
Se eu pudesse voltar naquela sexta, era começo do ano. Eu teria atendido aquele telefonema, Camile. Eu teria mudado o rumo dessa merda toda sem abrir feridas em ninguém, como devia ser. Mas fiz a coisa ao avesso e agora agonizo.
Começo a voltar ao mundo real. Estou novamente em pé na calçada esperando por Camile, que virou a esquina e agora já está tão próxima que posso olhar fundo em seus olhos, e mergulhar mais uma vez naquelas duas luas negras, os satélites do meu melhor planeta.
Instintivamente pego o maço de cigarros do bolso, levo um a boca e acendo. Não me parece a melhor coisa a ser feita, mas não levo nenhum jeito para reaproximações. Nunca levei. Só percebo que estou realmente fumando quando dou lá a terceira tragada. Camile agora está parada em minha frente e estica seus bracinhos finos de pele meio morena em minha direção. É um abraço gelado, como aquele de oito meses atrás. Ela olha em minha direção e deixa escapar um sorriso falso, quase rasgado.
- E pensar que antes você dizia que eu estava carregado de falsos sorrisos... - eu digo
- O que quer dizer com isso, err Diego?
- Nada.
- Você não tinha parado de fumar?
- Achei que tinha.
- Tá aí uma coisa que não muda em ti. Vive achando demais.  O que tu faz com as certezas?
Eu não respondo. Procuro uma mesa e faço sinal para sentarmos. Amasso o que sobra do cigarro numa lixeira próxima. Ela parece impaciente, não para de brincar com um cordãozinho da bolsa e evita olhares diretos. Ela sabe se esquivar como ninguém e sempre acaba me desarmando.
- Todo ano é a mesma situação. - eu digo
- Acho que dessa vez é diferente.
- Em que sentido?
- Não sei. Nem sei o que você quer dizer com isso...
Tento desconversar, ela tem o controle de tudo. Não demoro em perceber o quão fodido estou.
- Camile... Eu sinto sua falta.
- Eu também sinto a sua, mas não acho boa ideia a gente voltar a se falar. - ela ataca dessa vez, sem flanquear.
- Por que não?
- Porque eu já passei por isso duas vezes e não quero passar uma terceira.
- Se você acreditasse...
- Mas eu não acredito, Diego. Não acredito. Isso nunca funcionaria. E também não quero falar sobre tudo o que a gente já conversou antes. Então não comece um monólogo.
- Não seja egoísta. Tô me encontrando com você porque sempre quis as coisas diferentes.
- Egoísta o caralho, entendeu? Já se esqueceu das outras vezes? Eu tô cansada das suas merdas. E isso nem sequer é um encontro. – ela olha para o teto, leva uma mecha do cabelo para trás da orelha e continua. – Sabe, você deve ser o cara mais estagnado que eu conheço. Das coisas que você queria, chegou a concluir alguma? Você desiste de tudo. Você morre pelo caminho toda vez.
- E o que é que você sabe sobre as coisas que eu quero? 
- Agora estamos fazendo avanço. Você desistiu de mim inconscientemente. Apenas não descobriu ainda, Diego. 
Dou uma golada na garrafa de agua. Espero em silêncio para ver se ela solta mais alguma bofetada verbal. Ela voltou a se posicionar na defensiva. Penso em atacar, mas não tenho forças. 
- O único avanço que eu queria fazer aqui era me acertar com você.
Tento investir com um beijo, ela se inclina para trás e vira o rosto. Sinto o cheiro da maquiagem, a leveza de sua pele. Como me faz falta aquele toque... Eu recuo por um segundo. Agora tento abraçar seu rosto levemente com uma das mãos. Ela levanta: 
- Já estamos acertados, de certa forma.  Eu vou indo agora.
Camile começa a andar. Eu a acompanho, desviando dos transeuntes que aparecem em minha frente. Viramos a esquina. O metrô está logo ao lado, ela desce as escadas quase levitando, como se eu não estivesse ali. Continuo atrás. Sinto por dentro um desespero fora do normal subindo pela boca do estomago e girando no esôfago. Essa coisa é tão incomum para mim que mal consigo acionar um mecanismo de defesa. Estou completamente rendido e em segredo não sei o que fazer. Compramos os bilhetes, passamos as catracas. A merda do trem já esta lá. Ela vai irredutível até a porta:
- Camile, espera!
 Ela me olha pela última vez, antes de entrar:
- Eu disse que se você terminasse com ela, ia ficar sozinho. Otário.
- Fico sozinho então, porra, fico sozinho! – nesse momento eu perco a paciência e começo a gritar. – Isso não me faz mais ou menos fudido do que já estou, Camile!
Algumas pessoas olham um pouco assustadas enquanto passam pela plataforma.
- Então tá bom. A gente se vê.
Ela embarca no trem, sem olhar para trás. Agora estou impotente, gritando do lado de fora. Começo a andar de costas, sem tirar o olho da janela onde ela está sentada. O trem parte e some na escuridão do túnel. Tudo indica o último minuto, a última vez. Eu acabo de perder algo insubstituível. 
Tenho vontade de vomitar, mas minhas pernas querem correr. Saio do metrô, acendo um cigarro. Tento caminhar normalmente, enquanto praguejo em silêncio. “Vai pra puta que pariu, então. Vai...” 
O metrô mais uma vez leva uma parte de mim, enquanto apanho um táxi para a rodoviária. 
Desmembrado, estou voltando para casa. 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Às 5 da manhã

coisas batendo na cabeça
às 5 da manhã
talvez um tijolo ou
uma garrafa vazia,
um estalo no cranio e
avencas brotando pelas orelhas
em meio ao calor.

acomodo-me no sofá
ao mesmo tempo em que alguém tenta vender
modernos utensílios
dentro da minha TV muda
igual um tumulo formado por luzes

percorro os canais
e lá estão mais utensílios
ou previsões do tempo e
telejornais carregados de "bom dia"
prestes a começar

o mundo nunca parece tão feito
de televisores e coisas batendo
em cabeças como é
às 5 da manhã
enquanto o tempo faz questão de morrer
sem passar.

um murro num velho filme de ação bate
o uísque barato
canções desconhecidas batem
e o resto descansa
numa especie de sono
interminável
e estou tão acordado
quanto jamais estive

desligo a TV.

vou até o banheiro
jogo água no rosto e
encaro o espelho, não há nada a fazer.
caminho para o quarto
não acendo a luz
ligo o ventilador.
atiro-me na cama e faço um casulo com o lençol.

mantenho os olhos fechados.

as janelas batem,
e as portas
e os pássaros
e sol

você também bate em minha cabeça
com toda a força que o silêncio pode ter
às 5 da manhã.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Alissa não precisava morrer

Alissa tinha essa forte tendência suicida. Já havia tentado de tudo. Uma mangueira conectada no escapamento do carro inundando o interior do veículo com monóxido de carbono. Uma forca improvisada numa viga de madeira do rancho da casa, que por sinal estava podre e se rompeu quando ela pulou da cadeira. Tentou remédios, vários deles e álcool. Até mesmo um veneno ou sabe se lá o que diabos era aquilo que encontrara enquanto dava fim nas coisas da mãe, já falecida a oito anos. " Eu precisava de espaço no armário e então resolvi jogar a velharia fora. Separei apenas uma boneca de porcelana, que ela gostava muito e então me deparei com um frasco avermelhado, cheio de bolinhas laranjas e ásperas. Pensei que aquele era um bom momento e tomei tudo, mas aquilo só me fez cagar e vomitar por uma semana. Tive que dormir sentada na privada, um horror." Ela contou certa vez enquanto fazia uma omelete para o café da manhã. E numa noite, após o sexo, quando tomei coragem para perguntar das marcas nos pulsos ela respondeu "a primeira vez é sempre a mais idiota." Fiquei em silêncio por alguns segundos tentando entender o que ela quis dizer com idiota, matutando sobre as outras tantas vezes. Terminei por mudar de assunto.
Não sei bem se Alissa não tinha mesmo sorte com esse lance de suícidio ou se no fundo da sua alma nebulosa coberta por aquele manto de pele cristalina, ela na verdade não queria morrer. Talvez fosse isso, ela odiava em silêncio e por mais ódio que pudesse sentir da vida, odiava a morte igualmente como se buscasse um mundo paralelo entre as duas coisas. Algo que cultivara na infância e que sobrevivera até então, infinito. Possuía também grandes olhos cor de caramelo, um nariz fino, pequenino, levemente arrebitado que parecia sempre querer, com certa timidez, apontar para a lua. Uma boca avermelhada por natureza, nem muito fina, nem muito grossa terminava o contraste com aquela cabeleira obscura, num tom preto quase de cegueira.
Nos conhecemos por acaso, na sessão de filmes de horror de uma locadora alternativa numa noite de sexta. Eu procurava coisas trash do gênero Grindhouse, quando ela veio com um filme na mão. Apontou a capa para mim.
- Já assistiu esse?
Olhei para o título. Era um filme japônes chamado Suicide Club. Uma colegial estava em primeiro plano na capa e atrás dela varias outras.
- Não. - respondi.
- Eu estava pesquisando, me pareceu muito bom.
- É, talvez...
- Você não é muito falante, não é?
- A maior parte do tempo, não.
- Bom assim. Se quiser assistir comigo... Está convidado.
- Você nem me conhece.
- Você não me parece perigoso. Apesar de justamente isso indicar o contrário - ela abriu um sorriso.
- Olha...
- Então o rapaz vai me seguir? – perguntou, interrompendo.
- Com certeza.
Morava perto dali e no caminho, pouco foi dito. Ela contou coisas sobre a vizinhança e disse que há uma semana a policia federal havia cercado o bairro para prender seu vizinho, que era pedófilo.
Vivia com o irmão, ele trabalhava com alguma coisa de supervisão e controle de hidrelétricas e estava viajando a trabalho. Um portão grande e cinza que se abriu fazendo um barulho agudo levava pela garagem até uma porta grossa de madeira que dava para a sala. E ali estávamos sentados, assistindo o filme japonês. Tudo começou numa estação de metrô de Tóquio, onde varias colegiais estavam indo apanhar o trem, mas antes que ele chegasse até a plataforma, todas elas deram as mãos e pularam nos trilhos ao mesmo tempo. E aí veio aquele banho de sangue e carne triturada na tela, na multidão. E gritos, muitos gritos. Uma serie de suicídios começou a acontecer no decorrer do filme e um detetive resolve investigar tudo isso. Logo descobriu que existia um grupo de música, teoricamente infantil e de muito, mas muito mal gosto japonês que estava por trás disso. Bem, nessa altura eu já não estava nem mais ligando para o filme. Não conseguia tirar os olhos daquele pedaço de gente ao meu lado. Ela ejetou o dvd.
- Gostou?
- Na verdade achei todos esses cretinos um bando de adolescentes influenciados pela mídia. Nada mais que isso. Sei lá, aquele grupo era horrível. Parecia uma coisa tipo Xuxa. Talvez se partirmos desse ponto podemos entender as mortes. Por outro lado, Japão é meio assim mesmo. Muita gente bitolada com esse tipo de coisa...
Ela riu.
- Também esperava mais, – disse – eu já tentei.
- Tentou o que?
- Suicídio, oras.
- Por quê?
- Acho que falta do que fazer. Ou falta de vontade de fazer... Quer uma cerveja?
- Mas é claro.
E assim passei o final de semana na casa dela, acordando atrasado para o trabalho na segunda feira. As pessoas desequilibradas sempre me atraíram.

*

Uma semana se passou. Madrugada seca. Estávamos no meu apartamento bebendo sem parar durante umas quatro horas, quando Alissa aproximou-se da janela e voltou-se para mim.
- Vamos fazer um teste.
- Que teste?
- Eu vou subir no ar condicionado do vizinho de baixo, está logo aqui. – ela se debruçou na janela para olhar o ar condicionado.
- Estamos no décimo quarto andar...
- E daí?
- Para com essa merda.
- Eu vou subir, vamos ver se ele me aguenta.
- Não ouse meter sequer uma perna pra fora dessa janela.
Ela era pequena, 1,57 de altura e pesava 48 quilos. Vinte e três anos de muitas historias. Apoiou uma perna no ar condicionado e me fitou com olhos de provocação.
- Volte essa perna para dentro AGORA MESMO! – gritei, me contorcendo no sofá.
- Parece firme, acho que não vai cair.
- Não...
- Já estou indo! Já estou indo!
- Escuta aqui...
- Atenção!
- Foda-se também. É isso que você quer? Vá em frente. Tomara que se arrebente lá em baixo.
Alissa gargalhou, deixou cair a garrafa para fora. Eu pensei que ela iria recuar.
- Nossa, é alto mesmo!
Nesse momento já estava em pé no ar condicionado, completamente fora. Eu só podia ver a calça jeans preta pela janela. Levantei-me para puxa-la para dentro, mas ela voltou por conta própria.
- Viu? Me aguentou.
- Você é louca ou o que? Podia ter caído de bêbada também.
- Não sei.
Ela foi até o banheiro, pude ouvi-la vomitar, depois escutei o som de seus passos se arrastando pelo assoalho até o quarto. Abandonei minha garrafa e a segui. Ela já estava deitada, de barriga para baixo, fez um esforço para me olhar.
- Você pode me comer se quiser, mas eu vou dormir. Hoje você finge que é um necrófilo.
Não consegui conter o riso, mas sabia que de alguma forma ela iria gostar da experiência.

*

As coisas correram bem a partir daí. A indiferença de Alissa perante a vida e os riscos e qualquer coisa que envolvesse certo tipo de ação inesperada me encantou. Ela começou a passar a maior parte do tempo em meu apartamento, o que não era ruim. Sua presença desfilando pelos cômodos todas as manhãs e todas as noites era como uma obra de arte viva. Também sua voz baixa e suave como uma nuvem ecoando pelas paredes feito uma melodia composta só para mim. E seu sorriso quase inexistente, como uma Mona Lisa comtemporânea, louca e suicida me dava forças para ressuscitar da cama todos os dias e correr para o trabalho. Já levávamos dois meses juntos. Suicídio não era decepar a própria cabeça numa guilhotina, mas sim abandonar Alissa.
Estávamos numa manhã de domingo nublada e tudo indicava uma boa chuva. Já fazia mais ou menos um mês que não víamos agua cair, a cidade estava em clima de deserto. Sentei na cama e acendi um cigarro, olhei para a janela e acariciei levemente os cabelos de Alissa, que voltou o olhar para mim.
- Parece que finalmente vai chover. – eu disse
- Já não é sem tempo. Posso morrer afogada, seca jamais.
Ela se levantou, foi até o banheiro e jogou agua no rosto. Pude ouvir barulhos na cozinha e um cheiro de café logo começou a navegar pela atmosfera. Fui até lá.
- Já era pra ter resultado, não é? – olhou para mim e sorriu.
- O que?
- A morte.
- Vai começar com isso de novo? Alissa, você nunca quis morrer de verdade.
- Não vou. Até acho que você tem razão, mas porra, que tudo é uma verdadeira merda, isso é. E morrer é supostamente uma coisa boa...
- Não discordo, mas faltando a capacidade de comprovar isso, a gente morre de mentira por aqui. Pra mim tem funcionado muito bem, apesar de ainda termos que calçar nossos sapatos e enfrentar meia cidade para trabalhar.
Alissa tirou o café do fogo, serviu duas xícaras.
- Pelo menos é certeza que aqui a gente pode foder e fazer nossas guerras e criar nossos personagens. – ela riu
- Certeza é sempre uma vantagem! – alcancei uma xícara e dei um gole no café.
- Se é! E das grandes.
Alissa sabia, a gente só precisava matar um demônio de cada vez. E os primeiros pingos de chuva já começavam a encharcar os vidros das janelas.

domingo, 12 de agosto de 2012

Um poema áspero

a estupidez te domina tão rápido
quanto exércitos de homens enfurecidos pela pátria
mal colocada na
história e
não importa a quantidade
de garrafas entornadas
as coisas não vão mudar.

é isso que Otávio diz
enquanto termina outro copo,

elas simplesmente não vão mudar
e vão te atormentar ano após ano,
ele continua.

não preciso de ninguém
não quero saber de nada - digo -
vamos apenas continuar na pegada.

Otávio pede mais duas doses de conhaque
e solta uma tímida gargalhada.

não só quer como lamenta a ausência
feito um cão,
você é sujo - solta outra gargalhada
é tão sujo que não pode viver sóbrio
você é sujo e fraco
e não aguenta um segundo
na escuridão

por um momento penso em fugir das coisas ruins
e ligo para Marília,
ao mesmo tempo que a chamada se propaga por meus ouvidos e
o som percorre meu corpo como uma corrente de vapor,
penso se há realmente algo a ser dito.

as coisas estão morrendo,
é tudo morte, uma sequência assassina,
lembro de quantas coisas matei pelo caminho
e
desligo antes que alguém atenda, sem pensar no meu número
cravado como uma chaga ali no aparelho que pertence a ela.

eu, uma chaga.
Marília, uma bênção.
uma paisagem tão longínqua quanto posso
imaginar.

derrotado outra vez
abandono a mesa enquanto Otávio
mergulha em outra
dose