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domingo, 22 de abril de 2012

Você, Vinicius

Você está parado agora, Vinicius. É só a sua mente que navega por outro mundo. Seu barco é sua vida escura, podre, suja. Sua jornada é para lugar nenhum. Você apenas da voltas por esse plano já conhecido em outras épocas que é pequeno e vazio, triste como um pássaro acorrentado, preso, ferido em uma gaiola. Não existe cheiro de mar, nem fumaça por perto. O álcool longe de suas mãos, as pílulas, seu maldito remédio levitando ao lado de grossas manchas de enxofre. Você se sente perdido e uma sensação de afogamento te inunda os olhos e os ouvidos e a boca e o resto do corpo. É só a sensação, porque não vai te matar. Você vai viver com isso Vinicius, vai dormir com isso. Vai carregar isso, afogado.
Nesse lugar existem prédios ao redor de ti e muitas janelas, pessoas olham por cada uma delas. Essa gente não tem olhos, os rostos de todas elas apenas se transformaram num aglomerado de massa disforme, uma mistura de carne moída e filetes de pele. Você encara essas cabeças, essas carcaças quase desumanas. A atmosfera tem gosto de ferro, e o vento vem pesado como chumbo. Parece que não há diferenças entre aqui e aí.
O relógio não anda, os ponteiros estão enferrujados e sua sombra também parou no tempo, assim como as coisas que você tentou fazer e fracassou. Você desistiu de tudo o que queria, deixou, esqueceu, esquivou. Até o amor, o verdadeiro, você deixou escapar. Veja como você ama aquela garota, como ela é importante e como você a fez desaparecer, assim mesmo sem querer, mas o sem querer não justifica burrice, Vinicius. Ela tinha desligado a marcha fúnebre que nunca para de tocar em sua cabeça enquanto você vive, e o que foi que você fez? Estragou tudo, triturou isso como se fosse nada. Você se arrepende, você se contorce de dor quando deita na cama e pensa nisso, mergulha nessa dor condensada em delírios e sonhos. É claro que sente saudade e sabe que é só o começo. Voltar no tempo, você quer. Já é tarde, Vinicius. Parece que sua montanha era de areia, afinal, e virou um gigantesco deserto morto e seco, com esse vento que te levou até a consciência.
Agora tem um sol nascendo lá fora, não é visível porque o tempo está nublado. Também não faz diferença. Por mais amarelo e brilhante que ele esteja, você nunca vê cor, nunca vai ver. Você mal sabe o que veio fazer nesse planeta. Por que nasceu? Por que você? Por que assim? Não tem que saber. Agora tanto faz, Vinicius. Você volta pra esse mundo, feito uma alma penada. Alma afogada. O relógio está correndo, porque agora você está no mundo real, e tem um sol lá fora. Você está metido nisso, quer queira, quer não. Você não é um moleque, é um homem. Homens fazem coisas grandes e você está aí vivendo de mentiras, mentindo pra você, mentindo para essa nova moça que está ao seu lado, para esse compromisso que caiu do céu como uma bomba, fruto da sua cabeça defeituosa, da sua burrice. O que ela tem a ver com isso? Seus problemas são só seus, você não tem o direito de passar o seu sofrimento para os outros, mas não controla isso. Você faz um mundo de gente sofrer com você, sofrer do seu sofrimento. Você até pode gostar dela, mas sabe que não é da forma como ela espera. É por isso que você está estagnado, provando dessa coisa sem sal. Você já está morto. Só te falta uma lápide, Vinicius.
Você está enlouquecendo não é mesmo? Nunca vai escapar desse ciclo vicioso, não quer nem abrir a janela. Por que você levanta? Poupe-se. Esqueça a terapia. Esqueça o sistema, os bancos, as contas, o dinheiro, o trabalho, o sucesso, o fracasso e a merda do futebol e a politica também. Esqueça a loteria, os malditos shoppings e suas vitrines de bosta nenhuma, os automóveis. Os bares, as festas, o lixo da televisão e suas emissoras de merda, cus abertos em forma de satélite. Esqueça a internet, os video games, os lugares bonitos e os feios também porque as coisas boas são raras e não valem a pena quando está tudo colocado na balança. Esqueça a podridão, esqueça a fome mundial, a miséria, o amor, o ódio, o câncer e as doenças todas. Viver é uma doença maior, suprema. Mas você não pode, não vai esquecer da sua própria cabeça. Seu crânio comprimindo seu cérebro como se fosse uma morça dessas de bancada amassando um bolo de carne, uma mera bolota de sebo estourando em partículas minúsculas iguais a confetes. Você não dorme há dois dias, aqueles cochilos breves são quase piscadelas momentâneas. Não arruma emprego, nem encontra mais os amigos. Você é um lixo que não tem dinheiro nem para própria cachaça. Ta aí o seu resumo; e quem se importa? Foda-se, Vinicius, você não precisa aturar isso, nem assistir a humanidade se tornar radiotiva e caminhar cada vez mais fundo nesse buraco energético. Não precisa ver essas pessoas todas explodirem em ruína, não precisa sofrer de amor, tentar erguer alguma coisa que não quer ou carregar culpas, mesmo sendo responsável. Esqueça a Responsabilidade. Acabou, acabou, acabou, é o que pisca na sua cabeça e diante dos seus olhos agora. De fodido já basta você.
Ainda existe aquilo no guarda roupas, você sabe, essa merda recém adquirida, o fruto de uma pequena economia secreta, muito bem guardada. Por que não usa suas mãos para algo que presta pelo menos uma vez, Vinicius? Vamos lá, presenteia-te com essa dádiva. Pega essa coisa e segura firme, como se fosse seu coração e talvez seja mesmo. Carregue-a, não precisa mais que uma bala. Coloca isso na boca, encosta o cano bem no céu da boca até o gosto de metal se espalhar pela lingua, assim, aperta forte até fazer doer, até seus olhos de nuvem negra piscarem em sintonia com essa canção que não para. Você sabe o que é dor Vinicius, isso você conhece muito bem. Aperta esse gatilho Vinicius, não durma agora, aperta esse gatilho. Larga essa caneta, você não precisa escrever nada, uma despedida? Não, nem uma carta se quer. Guarde o discurso falido para o inferno. A única coisa que você precisa agora, é de um buraco do tamanho de uma laranja bem no meio da cabeça.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Você, Cesar

Seu nome é Cesar Costa Magno, mas com o passar dos anos a maioria resolveu te chamar de Cezinho. Você não sabe a origem do apelido, nem mesmo lembra quem ao certo o inventou, mas tem certeza que o odeia e nunca se viu em posição de recusa-lo, apenas para preservar seu autocontrole sobre sua personalidade insana e enlouquecedora. É só vez ou outra que ela desliza de seu interior para as luzes do mundo, geralmente em seus momentos mais solitários, pois não gosta de chamar a atenção, não suporta olhos presos em seus movimentos. Você prega a invisibilidade e é fadado a viver num mundo de aparências. Todos esses patifes e suas autogabações causam coisas dentro de ti; é a morte deles que você espera, que você quer provocar. Você vê futilidade em tudo, Cesar. Você não suporta superioridade ao seu redor, não quer sentir-se inferior de forma alguma, mas anda por aí com o fracasso rabiscado nas costas. Pode ser coisa do seu psicológico e até uma fraqueza maior entre todas as suas fraquezas ou simples capricho do seu eu maléfico. E que palavra forte essa, você pensa, mas entende que todos necessitam de coisas más e boas para chegar ao autoconhecimento, e você fala disso como um professor. Autoconhecimento você já teve o suficiente e sabe que não vai mudar.
Você está assistindo um filme agora. Deitada ao seu lado se encontra sua nova namorada, com os braços ela parece dar um nó em seu tronco. Você sente calor, mas a garota quer estar sempre próxima e ela sorri uma porção de vezes também. O nome dela é Pâmela e ela acredita nos seus falsos sorrisos, Cesar. Você tem a sua certeza de que nunca ou raramente vale a pena sorrir verdadeiramente. Nunca se sentiu capaz de esboçar sorrisos aos ventos e a maioria faz isso. Você sempre se pergunta: Por quê? Você não sabe e continua odiando com todas as forças os sorrisos em excesso. Também não está acostumado com os relacionamentos e nem deve. Você sabe que no fim, pouco importa a diferença em suas expressões de felicidade, ou a maneira com que te olham e até mesmo seus perfumes exalando de suas peles suaves e incomparáveis. Uma mulher sempre está pronta para ir embora, para cavar seu tumulo e te jogar lá dentro. A pergunta incansável que vem até sua cabeça é: Quantos túmulos teria de ter até a morte? Você não pode dizer uma quantidade exata, mas pode torna-los mínimos. Relacionamentos quando não são cansativos, são passageiros e vice-versa, ou ambos.
Pâmela tem amigos que você odeia sem nem mesmo os conhecer. Não há nada a ser feito perante isso, e você aceita os fatos, mas não confia plenamente na mulher e acha que nunca vai confiar. Tem sempre uma pontada em seu cérebro, uma coisa que quer inibir seu sistema respiratório e te incinerar por dentro como um cadáver no crematório. Pâmela também ficou amiga de Tomás, de uma hora para outra. Na verdade foi Tomás quem a procurou, o que te deixa mais irritado e cheio de ódio que qualquer outra vez em sua vida. E não é só por isso, você sabe que não é a primeira vez que Tomás vai atrás de uma mulher sua.
Tomás tem todo o jeito de modelo, com suas malditas tatuagens, ao contrário do seu, desengonçado e magricelo. Você sabe que não tem inveja, inveja é uma coisa muito baixa, você só admira o podre e quer acabar com o belo, também não é só isso, outros dos seus ódios são essas pessoas que falam muito para o pouco que fazem, ele é assim. Sua implicância perante Tomás e todas as coisas que ele faz só aumenta. A mania de aparecer em todos os lugares que ele tem, seu rosto bonito desafiando sua vontade de destruir coisas belas, Cesar. Aquela mania dele, de querer parecer malvado nas redes sociais, mesmo distribuindo bondade por todas as frestas do corpo. Parece mesmo que agora é moda ser mal na internet, você pensa. E bancar o revolucionário também. Imagens sobre a politica são tão inúteis quanto os balbucios de um padre numa igreja, porra. Tudo o que ele faz te causa náuseas de ódio, todas essas coisas estúpidas que acabam vindo dele, com aquele corpo enfeitado. Todos ao redor achando isso uma maravilha, aplaudindo a falsa moral e aquelas atitudes todas que nada condizem com as palavras que saem da boca, inclusive Pâmela. Isso te leva á loucura, te leva ao mais profundo abismo da raiva. Pâmela nunca perceberá, e isso nunca te deixa em paz, não sai da cabeça. Ele ainda se faz de seu amigo, Cesar, e você ri. Ri por fora, mata por dentro. É você se escondendo mais uma vez, tapando suas feridas na escuridão do seu espirito em desespero, da sua vontade translúcida de acabar com toda essa palhaçada. Reconhecimento desmerecido para os vermes é o que mais existe no planeta e isso paira bem no fundo do seu encéfalo agora.
O filme já está no final e você o passou navegando em sua consciência. Pâmela em seus braços, seus pensamentos naufragando na realidade. A TV, os rostos carregados de morte, a rotina, o trabalho que nunca basta, o planeta transformado em máquina, a chaga recente que aquela outra mulher lhe causou que nunca cicatriza. Tanto para odiar, pouco para amar é o que resume a sua vida. Você vê com antecedência as coisas boas tomarem distancia e dissiparem na atmosfera. Você sente que tudo te deixa para trás e agora até seus poemas que nunca serão reconhecidos resolveram fugir, Cesar.

sábado, 3 de março de 2012

Toda dor acaba sendo individual

O pior é encarar todos os dias a maçaneta da porta, com meus dedos cansados e pulsantes e o aço frio penetrando como uma faca na palma da mão. Por vezes ela parece rir, com todas as suas farpas e suas marcas de idade, como uma ilusão saltando dos olhos, do cérebro, direto para a realidade tão cansativa e atormentada quanto a minha própria cabeça e qualquer merda que venha existir dentro dela. "Merda, ou a gente tem isso na cabeça ou enlouquece na mesma com o certo dos outros. Merda na cabeça, para eles, é toda vez que o rosto daquele infeliz ocupa parte do seu encéfalo enquanto o resto dele fica com sede de sangue, mas você sabe que isso seria certo e é uma coisa sua, uma coisa nossa." Descreveu Rocco certa vez.
A maçaneta tem desenhos curvilíneos que a fazem parecer uma flor morta, fossilizada naquele metal velho. Tenho três dedos parados sobre ela. Rocco está um pouco mais para a esquerda, onde se encontra um sofá verde escuro, que parece envolto em musgo. Ele tem uma bolinha de borracha que pula e faz um barulho repetitivo no assoalho, repetitivo na minha cabeça como sua voz enfadada; isso me da a impressão de que ele sempre está pronto para o suspiro final. Olho por um instante para meus dedos, minhas unhas estão compridas, os cantos dos dedos gastos e machucados."O que tem lá fora? O que tem lá fora?" Eu sei o que tem lá, eu vivo amedrontado pela janela, mas ele gosta de alertar varias vezes. "Você não sabe, pois vou dizer. Tem sujeira, tem gente sabe? Onde tem isso, tem sujeira. E montes de merdas de carro e varias rotinas tão miseráveis quanto a sua. Você não quer isso. Sabe o que mais? Tem olhos, muitos olhos horríveis." Eu peço para ele parar uma e duas vezes, sua voz continua a propagar pelos cantos. "Não pode ser tudo tão estúpido, tão cru. Custa acreditar que alguém retira forças para trabalhar, para viver e correr no meio desse inferno por essas bobagens todas. O que é esse sofá? Conforto? Ilusão. Viver pra que? Acordar por quê? Ilusão. Eu não sei onde arrumar essas respostas. Você não sabe, você não tem isso. Sua vontade caindo, caindo. Seus dedos escorrendo da maçaneta mais uma vez. Ter cuidado pra quê? Querer o que, quando nada existe?"
Lembro quando Rocco contou sobre o trabalho. Dizia que odiava trabalhar em equipe, mas era obrigado a engolir gente, obrigado a ouvir gente que não estava interessado. "Eles tem bocas fedorentas, a maioria nesse mundo substituiu o cu pela boca." Ele não queria ouvir ninguém, não queria ser ouvido e mesmo assim, era ouvido por mim. "Lembro ainda de quando era mais jovem, quando minha mãe e todos diziam para que eu procurasse algo que me agradasse. Eu sabia que essa hora eu devia pular numa trincheira, armado, e lá ficar. Eu nunca soube o que procurar. Agradar, gostar, essas palavras me confundem. Eu não gosto de nada. Não quero nada. Não espero nada nem de mim, nem de ninguém."
Eu também não tenho uma vontade salvadora cravada no peito. Esse é meu heroísmo sádico. Um heroísmo a minha maneira. Não tenho mais vontade de mudar o mundo, nem as pessoas. Não adoro falsos altares, nem deuses. Não estou interessado em quem está no poder, ou no valor do recheio da minha e da sua conta bancária. Eu preso pelo fim, pela destruição total, o mundo agora é como uma lâmpada falhando em meio a escuridão, a humanidade já deu o que tinha que dar. Rocco gosta disso tanto quanto eu. Hipocrisia? Não, nós não fazemos parte de uma felicidade que não existe, não fazemos parte da ilusão. "Me incomoda a mídia, os sorrisos. É o falso bem e bom de mentira falando a todo tempo. Onde está a voz dos seres viscerais? Os malditos onde estão? E eu não falo de criminosos, sabe como é, existem mais deles propagando essa bondade do que nos presídios. Todo esse poder da imagem da imagem da imagem. Agora já podemos vomitar"
Meus dedos deixam a maçaneta. Rocco esfrega as mãos no rosto, ele soluça baixinho e seu choro é sem lágrimas. O mundo tem cheiro de poeira misturado com carne podre. A jaula dos quatis, no zoológico tem cheiro melhor. Ando tendo muitas dores de cabeça e meus olhos ardem constantemente. Toda dor acaba sendo individual, mas a minha é do Rocco também.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Observando o ódio

Tento andar me equilibrando na linha branca que demarca a sarjeta, Rocco termina a cerveja e atira a garrafa para o meio da rua, existe apenas um poste funcionando por ali. "É isso que me tira do sério as vezes, o barulho do vidro quebrando no lugar dos ossos daqueles filhos da puta. Algo muito maior podia estar acontecendo no meio dessa rua escura, entende?", ele diz. Levo a mão ao bolso procurando o maço. Já não tenho mais cigarros. Eu não falo muito, e o que preciso falar, o Rocco acaba falando por mim.
(...)

Passo algum tempo com isso na cabeça. Muito tempo alimentando o monstro. Não é uma coisa que posso evitar; são os olhos, a pele marcada, desenhada, cuspida em forma de massa corpulenta. São os montinhos de merda que vejo em todas essas expressões que nascem em seu rosto bonito e sorridente, é todo o encéfalo espalhado numa parede branca, escorrendo. Só preciso não mais olhar aquele brilho pútrido, não mais ranger os dentes enquanto tento fugir disso, da loucura estampada em meu peito, viajando feito ácido em minha corrente sanguínea. Quero matar isso, tanto quanto quero matar você e os outros que ainda aparecerão.
(...)

Nem sequer consigo me sentir culpado por isso. Deve existir uma parcela de lucidez, de razão em todos os criminosos, assassinos, psicopatas. Eu sei que existe, eu compreendo o quão incomodo podem ser essas outras tantas vidas cercando a minha. Todas em conflito, todas disputando alguma coisa estúpida. Eu sei que em todo mundo existe um processo de defesa, de salvação.
A diferença em acabar com uma vida por prazer, por simples conforto e acabar com outra por dinheiro ou por interesse governamental eu não sei. É provável que não exista e ainda assim acabamos condenados por esses mesmos assassinos quando saímos da roda sistemática.
(...)

"Existe essa linha tênue entre o fazer e o não fazer", me disse Rocco uma vez. "Odiar não é motivo para explodir ninguém, é só a salvação do seu espírito", continuou Rocco. Coisa egoísta, ele reconheceu, mas o egoísmo anda sempre de mãos dadas com o ódio, assim como ciúme e a inveja. Mas isso não significa que estão sempre juntos.
(...)

Isso que sinto quase que o tempo todo, é como pisar num formigueiro e ficar com o corpo a borbulhar em coceira. E você desfia um frango no almoço enquanto pensa em braços e pernas rompendo de um corpo sujo por dentro e por fora. Tenho essa coisa comigo, posso compartilhar com Rocco algumas vezes, mas isso não me ajuda a dormir, não me ajuda a abrir a porta e pisar na rua, leve como uma bola de algodão. Eu penso em sangue e penso na sua cabeça pendurada na parede do meu quarto. Eu não sonho mais. Eu não sei por quanto tempo posso controlar isso.
(...)

Rocco é meio manco e ele dobra a esquina com rapidez. Eu tenho que tentar chegar em casa, dormir e acordar, mas esse já é outro problema.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Um dia todos acabamos personagens de um filme noir

O rosto apático de Johanna cintilava uma porção de expressões inacabadas em meio ao gotejar daquela chuva noturna de verão. Eu intercalava meus olhares furtivos e bêbados, quase apagados entre seus olhos castanhos e opacos e as massas cinzentas de nuvens quase invisíveis naquele céu negro das duas da manhã. Ela lambia a agua dos lábios enquanto me puxava com alguma pressa por uma das mãos, ria um pouco também; o que me agradava bastante já que durante as duas semanas em que estávamos juntos, nunca tinha visto nada maior que um pequeno sorriso de canto transparecer daquela boca quase tão clara quanto sua pele de marfim. E ela sempre falava de mortes e coisas mortais. Ela morava sozinha e trabalhava num banco cujo nome não vem ao caso. Eu estaria em sua casa pela primeira vez.
Não a conhecia há tanto tempo e acho mesmo que foi todo aquele ar misterioso que me prendeu, que ganhou a confiança de alguém que quase não possui. Na época Johanna tinha vinte e dois anos, eu dezoito. Sempre a encontrava no mesmo ônibus, sempre no mesmo veículo que me levava para longe daquele lugar que eu já não queria mais voltar. A faculdade estava morta dentro de mim, eu havia perdido todo o interesse que antes possuía na missão do jornalista de passar informação através de algum veículo "controlado" por algo muito maior que o monte de bosta que podemos produzir em um mês. As pautas, os microfones de rádio me doíam como se meu cérebro possuísse ossos ao invés de terminações nervosas e esses ossos estavam todos quebrados. Demorei um tempo para começar a conversar com Johanna, essas coisas de puxar conversa e bancar o simpático sempre foi um grande abismo a ser escalado, mas desconfio que Johanna sentia a mesma coisa. Quando nos beijamos a primeira vez, foi algo como espantar morcegos do estomago.
Voltando à noite em questão, Johanna reclamava que o único ponto negativo da chuva é que não se podia fumar em baixo dela, mas que banhos de chuva eram tão bons quanto cerveja, ainda mais numa cidade quente como aquela. Ela logo voltou atrás na opinião e disse que na verdade a combinação dos dois é que era insuperável. Concordamos nesse ponto e já estávamos no portão da casa. Era um portão pequeno, cor vinho que dava para um corredor cinzento com um chão de cimento mal feito e paredes amarelas descascadas. No fundo havia uma curva que dava para um pequeno gramado com uma pitangueira no meio.
- Pitangas só amanhã - ela disse enquanto tentava acertar a chave da porta.
Com a porta aberta, ela me puxou para dentro - dois dos meus dedos estalaram.
- Gosto do barulho dos ossos estalando. Já quebrou alguma coisa antes? Quando quebrei meu braço pude ouvir o som. Apaixonante, eu diria.
- Você provavelmente tem algum distúrbio tão sério quanto os meus, mas eu gosto disso.
- A é? E se hoje quisesse te matar?
- Oh, tudo bem. Não vou reagir, posso ter essa vontade primeiro...
- Ótimo, eu diria.
Ela soltou um risinho fino e bateu a porta. Jogou a jaqueta molhada em cima do sofá e correu até a cozinha. Voltou com duas latas de cerveja e alguns comprimidos. Engoliu quatro num gole só. Fomos até seu quarto. Cama desarrumada, algumas roupas jogadas pelo chão acompanhadas por farelos de alguma coisa.
- Já me sinto em casa - eu disse
Ela colocou música num aparelho de som um pouco antigo
- Quer ouvir algo em especial?
- Vou deixar a seu critério.
Johanna fez Rob Zombie romper do aparelho, Death of it All tocava em tom baixo, quase calmante. Ela avançava pouco a pouco em minha direção, despia-se numa especia de streep tease
- Together we fly, together we fall, together we all see the death of it all. - Cantava em quanto avançava.
Despiu minha camiseta e me empurrou para a cama, massageava-me o peito com uma mão, enquanto a outra descia cada vez mais. Eu a puxei para cima de mim, e logo me coloquei por cima. Johanna sorriu com boa parte do cabelo cobrindo o rosto. O afastei para dar-lhe um beijo. Aquele beijo me fascinava. Sempre gostei de beijos, quase chego a achar que é a parte mais significante de qualquer ato sexual. O beijo de Johanna era como uma espécie de absinto, uma ânsia que vinha descendo a espinha e terminava por explodir. Ela podia me matar.
Seus seios cabiam muito bem em minhas mãos. Eu passava os mamilos duros por entre os dedos, devagar. Me livrei das calças e comecei a trabalhar em cima daquele corpo feito de neve. Johanna era doce, com todo seu jeito mórbido de ser.
Com as unhas rasgando minhas costas, ela levou as mãos até meu rosto, direcionando meu olhar para o dela. Estava com um sorriso armado:
- Finge que tem uma faca.
- O que?
- É, uma faca. Agora faz como se tivesse abrindo meu peito e vai descendo até a barriga. Imagine uma faca gigantesca pontiaguda e afiada rasgando minha carne.
“Jesus Cristo!" Pensei. "Ela é pior do que eu imaginava.”
- Assim, você tá indo bem meu amor. Porra, você tem mãos grandes. Agora faz como se fosse me estrangular, me deixa roxa!
- Tem certeza?
- Mas é claro. Não seja idiota, não estrague tudo agora!
Apertei sem pena aquele pescoço que me parecia tão frágil, até uma lagrima escorrer por um dos olhos de Johanna. Ela sorria como uma criança. Eu podia sentir suas contrações de prazer e suas pernas enrolando nas minhas.
Mais tarde quando tudo acabou, antes ainda de amanhecer, lembro-me de ter levantado para vomitar e buscar mais duas cervejas. As últimas.
Dormimos até às quatro da tarde. Johanna era magnifica quando acordava, acabei fingindo ter uma faca por mais algumas vezes.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Ponte aérea

O voo era o TP97 com destino a Lisboa, e o dia em Campinas estava negro como se quisesse virar noite prematuramente. Eu subia no avião com pés pesados, enquanto passava todos aqueles degraus da pequena escada. Ao meu lado uma das turbinas implorava aos céus para se tornar um buraco negro e eu pensei “é, estamos do mesmo lado”. Não escolho, mas quase sempre sou colocado numa poltrona de alguma das asas e a vista daquilo tremendo, parecendo querer romper a qualquer momento me fascina, isso é, um desastre aéreo seria o suficiente para por fim em todas aquelas ideias que um dia surgem na cabeça e lá permanecem no outro dia e em todos os outros também. Essas ideias e vontades que nunca vamos concretizar. Acabaria também com todas essas outras coisas que nunca queremos deixar para trás, mas deixamos. Sem falar nessa minha dificuldade em me fixar em lugares, em coisas. E também meus pequenos e constantes erros que juntos se tornam maiores que o mundo. De todas as coisas que não suporto talvez a pior delas seja estar sempre no “quase” e isso acabaria também.
A tripulação saudava todos na porta. O piloto esbanjava um sorriso de tigre enquanto guardava no bolso as vidas de duzentas e tantas pessoas. Como seria isso? Qual a sensação de carregar tanta coisa assim por cima do mar? Sei que o “tanta coisa” já depende do ponto de vista. Eu nunca vejo muito enquanto levito por todas aquelas pessoas arrumando suas malas no bagageiro e apertando seus cintos de segurança e checando a programação de filmes.
Meu assento 28B ficava bem próximo aos banheiros, naquela divisória que tem uma cortina. Depositei minha bagagem de mão no maleiro, minha poltrona era a do corredor. Na janela sentava uma moça de cabelos loiros e compridos, bem magrinha; ela desligava o celular. Tinha olhos em tom castanho claro, bem vivos e um perfume suave como sua pele. Ela me recebeu com um sorriso, eu devolvi metade. Assustam-me as pessoas desconhecidas nos aviões, e seus olhos medindo aquilo que não tenho. É pavoroso pensar no que pode sair daquelas bocas e penetrar como fumaça pelos ouvidos durante o percurso todo. Difícilmente consigo me relacionar de forma saudável, mas não quero ser outra pessoa. É fácil saber o que não quero, é difícil querer alguma coisa.
A garota parecia muito tímida e carregava consigo um livro em francês. Hesitou varias vezes antes de abrir a boca.
- Oi. Ele treme muito? – Ela rompeu o silencio.
- Como? - indaguei
- O avião treme?
- Eu na verdade não sinto nada...
- É que é a primeira vez que voo... – Disse fazendo uma expressão serena e inocente e eu sorri de verdade pela primeira vez no dia.
- Quando atravesso o corredor do avião procurando minha poltrona com sua televisão portátil e suas revistas e manuais com guias de segurança, sempre olho das janela para as asas imaginando aqueles grandes pedaços de metal rompendo no ar como se fossem de papel, como se fossem ossos despedançando. Todos os gritos e pedidos de salvação começam a ecoar pela a aeronave. Uma mulher desmaia e cai, o carrinho da comida vem deslizando a toda velocidade com a inclinação projetada pela queda e atinge em cheio alguma cabeça desesperada. Malas e mascaras de oxigênio caem por todos os lados. Alguns pensam que o piloto pode fazer algo, mas não importa o quanto ele seja bom, vamos todos morrer. Outras ainda pensam num deus qualquer com poderes menores que o próprio nome, porque é isso que o medo faz com a maioria das pessoas. Nessa cena toda, eu apenas permaneço sentado em meio ao caos, tentando contar os segundos para o impacto. E guarde o pãozinho que vem junto com o almoço caso não comer, você pode ficar com fome depois.
- Que horror! Você é louco!
- Todo voo pede um acidente e eu sempre espero o meu, se é que ele ainda não aconteceu. Se parar para pensar que sua vida pode não passar de um mero acidente, o pior de todos, isso nem vai parecer tão terrível assim.
Ela virou para o lado e apertou o cinto como pediu a aeromoça. Não trocamos mais palavras durante o resto do voo, mas ela guardou o pão. Parecia mesmo uma boa pessoa, eu teria conversado um pouco mais.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Ontem à noite

Precisei falar com você ontem à noite. Precisei olhar para todos os teus dedos e dizer o quanto eu gosto da tua mão pequena, tão bonita e macia como se fosse de mentira. Precisei cair da cama e bater o nariz no criado mudo pra perceber que você não estava ali. Não tinha calor, nem um céu no teto do quarto. Não tinha um buraco negro dentro do guarda roupa e nem o seu cheiro no travesseiro. Não tinha mais nenhum fio dos teus cabelos escuros preso na rede da varanda. E como era bom deitar contigo ali durante a noite, ficar com os dedos perdidos nas madeixas que escorriam da tua cabeça, só pra ver os morcegos comerem as frutas da árvore do vizinho e contar historias sobre a lua e sobre a maldade desse mundo mesmo que não fossem nada bonitas, mas eu sabia que você gostava de coisas verdadeiras.
Sabe que ontem também tentei te ligar, mas fiquei com medo. E você sempre dizia que eu era medroso em relação a tanta coisa. No fundo não é culpa minha; é como se tivesse outro alguém morando na minha cabeça, alguma coisa que me puxa pra dentro de mim mesmo, algum outro eu segurando minha própria garganta, querendo incondicionalmente sufocar. O mesmo eu que não tem medo das coisas ruins, mas que cansou de lutar contra uma tempestade inacabável aqui. Uma tempestade que já me arrastou e vem tirando muito de mim nos últimos anos. Até preferia ter te conhecido em outra época se é que me entende, numa outra vida talvez. Isso só pra não ter essa lembrança me prendendo nesse lugar horrível. Só pra não sustentar esse lixo de esperança por mais tempo.
Não queria que fosse assim, essa merda toda banhada em álcool – minha vida – indo cada vez mais longe, dando tantas voltas pra chegar ao mesmo lugar. Ando agonizando e me arrependendo de coisas que nem mesmo sei. Ando vivendo e morrendo de saudade enquanto meus passos quase já não são mais passos.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Você disse: Nunca mais quero acordar

Era sempre um dia estranho quando você resolvia jogar baralho sozinha. Você ficava sentada na mesa com a cabeça baixa embaralhando as cartas em movimentos lentos e desordenados, depois estendia todo o baralho sobre a toalha branca de bordados azuis e verdes e puxava do bolso a cigarreira, enrolava um cigarro, os dedos finos tremiam enquanto levava o papel até os lábios espessos e entreabertos, eles quase não tinham cor. Depois sussurrava alguma coisa, era praticamente um sopro inaudível, mas ainda assim chegava a doer e eu sempre me sentia incapaz nesses momentos. Sempre me sentia um pássaro com as asas recém arrancadas por um serrote.
Muitas das cartas já se encontravam queimadas por cigarro, derretidas no meio e nas pontas, as damas já não tinham rosto. Você não gostava que elas sorrissem mais que você. Dizia que elas tinham algo mágico e que assim, destruir algo bonito te fazia sentir melhor. Te fazia aceitar que a vida, os sonhos, a alegria, qualquer coisa nessa porra de mundo tinha fim.
Nesse dia, você apenas deixou o baralho amontoado no centro da mesa, arrastou a cadeira até encostar na parede que tínhamos pintado de um verde bem claro, pois você dizia que quando criança sonhava com paredes dessa cor. Nós pintamos juntos essas paredes, todas as quatro da nossa sala apertada e esse lugar agora parece morto, os moveis, o sofá vermelho desbotado. Tudo morto. Eu estava na varanda, limpava as bostas de pomba que estavam grudadas no apoio, quando você veio correndo, seus cabelos longos tão negros e finos quanto linhas de costura esvoaçavam formando uma nuvem densa. Seu rosto grudado ao vidro, seu sorriso alongado expondo os dentes amarelos, o canino trincado. Seus olhos verdes de moça pedindo afago. Você sorria, mas seu olhar carregava desalento e quando ultrapassei a porta de vidro, não tardou em derramar algumas lagrimas. Eu te envolvi nos braços e você resmungou sobre um atentado terrorista qualquer e depois disse que tinha muito monstro por aí, que era melhor nunca sair de casa, que aquela porta feia, marrom escura com uma lasca faltando no centro devia ser o limite das nossas vidas. Você disse também algo sobre seus fantasmas, que nos últimos dias estavam fazendo um verdadeiro massacre e sua cabeça doía muito. Você gritou "NUNCA MAIS QUERO ACORDAR", meus tímpanos estremeceram. Nós ficamos ali, grudados com as peles, os pelos durante bons minutos. Eu sabia que aquilo tava piorando, você tava piorando, você estava tão fraca e tão bonita ao mesmo tempo.
Naquela noite deitamos cedo e a janela ficou aberta, tinha uma lua quase invisível espiando lá de fora e resolvemos fazer um show pornô para ela. Eu posso garantir que aquela foi a melhor trepada da minha vida. Quando terminamos, você se afundou no lençol, eu podia sentir sua respiração nas costelas e abracei sua cabeça com o braço. Você adormeceu.
Quando eu acordei, já tarde, você não estava mais na cama, as roupas ainda estavam todas pelo chão, sua calcinha enroscou num dos meus pés; andei em direção ao corredor, não senti cheiro de café, nem de torradas. A porta do banheiro estava entreaberta, pelas fresta aparecia um chinelo, uma toalha no chão. Bati de leve na porta. "Madalena" chamei. "Madalena" chamei novamente e não obtive resposta de nenhum canto da casa, nem um som qualquer. Mal entrei naquela geladeira forrada de azulejos brancos e velhos, para ver duas ou três vidas desabarem de uma vez, quatro ou cinco mundos explodindo ao mesmo tempo. Eu não sei como suportei aquilo; encontrar seu corpo ali, nu, pendurado pelo pescoço com um pedaço da minha corda de hapel no ferro que sustentava a cortina da banheira, sua boca roxa e meio aberta, sangue escorrendo do nariz, seus olhos vazios, vazios, vazios. Tão vazios que esvaziaram os meus também; me esvaziaram por completo.
Hoje faz uma semana, Madalena. Seu baralho ainda está na mesa, diabos, eu não tenho coragem de mexer naquilo. Suas roupas ainda estão jogadas em volta da cama, eu tenho esse rosto apático e não posso entrar no banheiro, porque eu vejo a sua imagem no espelho, pendurada, roxa, morta. E não posso tomar um banho sem querer me enforcar também.
Encontrei sua carta de despedida agora a pouco no bolso do roupão, ela tem o seu cheiro e ainda não abri. Não consigo tirar o envelope de perto do nariz e eu gostei tanto do desenho do gato que você fez nele, mas eu sei que o conteúdo disso vai acabar com o que resta de mim, e nem quero imaginar como será a proxima semana. E eu tenho medo, uma merda dum medo tão grande que chego a me sentir estúpido, um verdadeiro filho da puta dum estúpido. Ah Madalena, eu devia ter dito "te amo" mais vezes.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Moedas, chuveiros e manchas de bolor

A moeda rolava entre os dedos ásperos e suados e vez ou outra brilhava com a iluminação tom pastel daquele muquifo, como se tivesse alguma vida para perder, algum sorriso escondido em meio aos traçados do metal, no numero um gasto por infinitas mãos de tamanhos e dimensões diferentes.
- Uma moeda. - Kevin rompeu o silêncio daquele canto mais escuro e escondido do balcão - Uma moeda pra tomar essa porcaria. Um lixo dum pedacinho de ferro. Mijo devia valer mais que isso.
Elias terminava seu segundo copo e amassava o cigarro ainda pela metade no cinzeiro enferrujado enquanto ria. Abriu lentamente a boca espumante e amarelada, como se fosse espirrar.
- E Sarah, pra onde foi?
- Foi embora, como todas se vão.
- É... A segunda em três meses.
- Ela levou o meu chuveiro, aquela puta! Agora tenho que tomar banho com um balde, na pia! Pelo menos Ângela não levou nada.
- Ângela levou uma parte da sua sanidade ou o que restava dela. Agora você está mais fodido do que nunca. - Elias suspirou, enquanto acenava para o pequeno homem de rosto rosado que quase se escondia atrás do balcão.
- Mas o pior é ter que encarar sozinho outra vez aquela mancha de bolor no teto, que mais parece um mapa do triângulo das bermudas. Eu não suporto isso, essa visão todas as manhãs. Tudo bem que a janela consegue ser ainda mais assustadora, mas aquela mancha de bolor, porra, planejamos nossas viajens todas em cima dela. Como se por ali o universo estivesse ao nosso alcance a qualquer hora do dia. Como se fosse um portal de saída do inferno. Agora estou verde e musgoso igual aquele teto.
- Você colocou Sarah naquele quarto logo na primeira semana...
- O que você queria? Ela era mágica.
- Todas são. É por isso que você está aqui agora.
- Sabe, eu devia enfiar essa moeda na testa de Sarah, mas vou enfiar naquela garrafa ali. Foda-se, nunca gostei de moedas.
- Pelo menos ainda tem aquele emprego, pra comprar um chuveiro novo.
- Fui demitido hoje, por negligência.
- Ah merda. Você é uma boa pessoa, Kevin. Uma boa pessoa apesar de tudo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Perdendo as peças do jogo, queimando o tabuleiro

Comecei a trocar palavras com Manuela no pequeno período em que trabalhei na fazenda. Ia passar um tempo em Portugal e resolvi me juntar a um desses projetos da câmara para restaurar o patrimônio arquitetônico escondido no mato. Minha ideia principal quando escolhi fazer isso era o isolamento. O barulho do vento nas folhas das árvores, o canto dos pássaros, o orvalho frio da manhã. Tudo isso parecia melhor que as vozes da cidade martelando continuamente a cabeça; as pessoas vomitavam coisas horríveis, tinham o poder de destruir sonhos com um simples abrir e fechar de boca e ranger de dentes.
Manuela não falava muito, e ainda assim falava um tanto mais que eu. O que era muito bom e despertava meu raro interesse em trocar algo entre almas. Além disso, tinha um sorriso tímido e pequeno, como se fosse um desenho. Isso sempre me fascinou, o contorno dos lábios, a forma. Parece estupidez, mas eu achava aquilo importante. Como a maioria das mulheres que já me chamaram a atenção, Manuela era baixa, tinha proporções pequenas. A pele queimada de sol. Os olhos castanhos, escuros como terra batida às vezes pareciam cantar enquanto ela lambia os lábios ressecados e se inclinava para arrancar minúsculas ervas do muro. Tinha três dreads que saltavam da nuca quando prendia o cabelo quase da mesma cor dos olhos. Os dreads pareciam pequenos gravetinhos gordos, eu gostava de brincar com eles. Era bonita, não era vulgar enquanto caminhava, nem se importava com o que vestia e xingava como ninguém.
Era estranha também. Tinha a mania de fazer perguntas aleatórias e fora de contexto. Claro, eu tinha que ser muito esquisito para gostar desse habito. Uma vez corri atrás de um arbusto para mijar, ela esperava uns dois metros atrás enquanto me atirava algumas interrogações.
- Não tens medo de cobras? Encontrei uma morta no muro, não quero mais trabalhar lá.
- Não tenho. Vou fazer elas ficarem longe de você.
- Ah. E gostas de reggae? E de batatas, gostas?
- É claro, Manuela.
- Acho bué giro os brasileiros falando! Queres ir à praia comigo? Apresento-te pessoas.
- Pessoas?
- Sim! Ou queres ficar ca sozinho?
- Bem...
- Tens que conhecer gente
- Depende da "gente"
Nesse dia, aceitei o convite, mesmo que a parte das apresentações e a combinação asquerosa de sol, areia, sal e agua me desse vontade de correr para um buraco bem fundo e lá ficar por uma semana. Contei que até gostava de praias desertas, com sombra e pouco barulho. Ela me disse que algum dia me levaria para conhecer uma assim, o que nunca aconteceu.
As coisas iam saindo do controle, minha pedra estava derretendo e eu sabia disso. As cervejas não eram suficientes. Eu ficava amedrontado. O medo era diferente, não sei se chamaria aquela coisa assim, mas era algo que me acuava igualmente. Tirava-me do ciclo normal e autodestrutivo dos meus pensamentos.
Faltavam alguns dias para acabar o tempo do projeto. Manuela sorria e colocava as mãos nas minhas costas. Aquela merda toda acontecia outra vez, eu tinha que parar. No último, ela se ofereceu para me mostrar lugares interessantes da cidade durante a tarde, se eu não tivesse nada pra fazer. Inventei uma desculpa. Uma explosão. Uma privada entupida, e acabei indo mamar umas cervejas.
Aqueles dias haviam acabado e quase fui pego outra vez, eu sabia que no fim acabaria sendo tudo igual. Essa merda sempre termina em dor, sempre termina espetando até as solas dos pés. Meu coração regurgitou por alguns dias e a última vez em que tivemos contato, eu estava bêbado num jantar, rodeado por pessoas parcialmente desconhecidas. Meu celular apitara no bolso. Odiava telefones, principalmente quando interrompiam meu trago. Era Manuela, acompanhada por suas perguntas. “Qual música brasileira é que dizias que eu ia gostar?” Respondi a mensagem com um sorriso de canto de lábio, não esperava aquilo, não sou alguém assim procurado. “Não era brasileira, era argentina. Se quiser algumas brasileiras posso te passar.” Ataquei mais uma cerveja. Esperei três dias por mais um apito e ela nunca respondeu. Me recusei a mandar outra, fuzilei essa ideia durante semanas. Pelo menos dali a alguns dias quem sabe, estaria inteiro mais uma vez, isso é, com as partes que ainda me restavam para tapar os buracos.
Meu fracasso humano está cada vez mais além das nuvens. Não suporto jogar com isso, não sei mais mover o pião. Perco as peças uma a uma, o tabuleiro vai virando cinzas e a chama nunca se apaga.

sábado, 6 de agosto de 2011

Muito cedo para matar baratas

A vida de Edgar se resumia em fatores simples e cotidianos. Pensava ele que no mundo não poderia existir nada mais delirante e estúpido que sua vida empoeirada, presa numa existência trivial e seca, nem mesmo Deus e todos aqueles santinhos medonhos e feios que rodeavam as igrejas, as casas, as praças, os escritórios de advocacia e os banheiros públicos seriam tão falsos e tristes como cada uma de suas manhãs ensolaradas ou não, sempre cinzas. Sentia-se aprisionado dentro de um pequeno souvenir, daqueles em formato de bola de cristal, que abrigam dentro uma pequena casa. Um mundo portátil e sujo que quando chacoalhado, arremessado ou bombardeado, só faz nevar e nevar e nevar.
Acordava cedo, com olhos de tigre e nariz escorrendo. Dava palmadas no despertador, que pulava freneticamente na mesinha de cabeceira, até que este fizesse o mais profundo silencio. O último minuto de paz da manhã. Descalço, arrastava os pés até o banheiro como se passasse por um caminho de brasas e cacos fininhos. Lavava o rosto três vezes, antes de erguer a cabeça e contemplar sua imagem de animal acuado em meio à sujeira impregnada nas bordas do espelho. Nunca tomava café, qualquer comida naquele horário lhe caia mal, não conseguia ingerir nem mesmo uma maçã. Por vezes sentia vontade de chorar, ainda parado em frente ao engordurado espelho. Elas nunca escorriam. Era como se suas lagrimas tivessem evaporado, tivessem virado uma cortina de fumaça que desapareceu acima das nuvens. “Merda!” ele dizia, “merda, merda, merda!”
Sua casa virava um campo de batalha quando finalmente se encontrava parado em frente à porta, esticando o braço, alcançando a maçaneta enferrujada, fazendo luz, ruído, fumaça, medo. O poder da rua contra seus cinco dedos magros e gastos da mão esquerda. Ele ganhava essa batalha já há uns bons trinta anos. Era mais um mutilado, uma vitima, do que um veterano de guerra. Não existe mutilação pior que a mutilação da alma. Podem te arrancar as orelhas, os braços e as pernas que você ainda encontra forças pra sorrir, pra voar. Com a alma é diferente, se te esquartejam a alma, só ela, é o fim. Edgar se sentia uma carcaça, uma verdadeira carniça jogada no deserto de concreto, a mercê dos abutres. Milhões deles, famintos nas janelas dos prédios, nos mercados, nas salas de espera dos dentistas, nos cinemas. Sobrevoavam as calçadas, as ruas, os metrôs. Tudo. O planeta era um gigantesco açougue perdido na escuridão do espaço.
Era uma manhã de terça feira. Não chovia, não fazia sol, não fazia nada. Seguiu minuciosamente sua costumeira rotina, exceto pela barata que passou correndo por entre suas pernas quando se aproximava da porta. “Muito cedo para matar baratas.” Pensou.
Andava devagar, carregando nos joelhos toda a estupidez e cansaço do mundo. Arrastava tudo isso pela praia, gostava de passar por ali naquele horário porque não havia ninguém. Ficava só, com o cheiro de marisco e o gosto de sal. Era bonito e triste, seria um pouco melhor se as ondas pudessem trazer do mais profundo oceano, novos sonhos. Sonhos com grandes árvores e barulho de vento e cheiro de terra misturado com qualquer perfume desconhecido. Qualquer odor que não fosse o de sangue batido com tijolo e ferro.
Seus devaneios foram interrompidos quando cruzou o beco que conectava a cidade ao prédio onde trabalhava. O lugar fedia a mijo e vômito. A entrada para o inferno devia estar próxima, pensava. E era só virar a esquina, passar a mercearia ainda fechada para dar com a cara nos portões negros e envelhecidos do edifício 143.
Na recepção Senhor Carlos batia os pés enquanto flertava com a secretária. Afundou os olhos azuis do tamanho de escaravelhos contra os de Edgar:
- 15 MINUTOS ATRASADO EDGAR. 15 MINUTOS!
Tinha hálito de peixe morto, era como se tivesse escamas espalhadas por toda a boca, era horrível. Era humano. Podre.
Edgar sorria enquanto alargava os passos até o elevador. Gargalhava, morria por mais um dia.
- TE CONTEI ALGUMA PIADA? – Interrogava Carlos, lá de trás. – EXISTE AQUI ALGUM PALHAÇO? JUNTE SUAS COISAS E DE O FORA DAQUI!
Edgar não respondeu. Foi até sua sala, sentou-se e acendeu um cigarro antes de começar a juntar as tralhas. Ele tinha ânsia, queria vomitar. “Maldito porco de olhos azuis.” Dizia para si mesmo. Pouco a pouco perdia o controle, não sabia mais para onde correr, não suportava. Não entendia nada. Cinquenta anos atolado na merda. Cinquenta anos vivendo a morte, o inferno. Ele desistia.
Aquela manhã, Carlos merecia, devia estar morto, com os miolos espalhados por todo o balcão da secretaria ou fatiado como uma picanha, mas era muito cedo para matar baratas.

terça-feira, 7 de junho de 2011

O pequeno caçador de relâmpagos

Debruçara na janela pouco antes do caminhão fazer tremer seu prédio de cinco andares e cinco décadas de idade, na esperança de que algum raio lhe partisse a cabeça, mesmo sabendo que este nunca viria, já que seria um ato de muita bondade da vida para com ele. E a verdade colega, ele conhecia muito bem. A vida nunca esteve a seu favor. Não estava a favor de ninguém.
Era um domingo negro. O céu escurecia calmamente junto ao ocaso daquela tarde invernal, não pela ligeira e doce saudação da noite, mas sim pelas volumosas nuvens negras que não tardariam em derramar suas lágrimas sobre a terra cinzenta. As nuvens aconchegavam-se no firmamento como bebês em um grande berço escuro e mórbido aguardando os abraços dos sonhos de papel.
O pequeno caçador de relâmpagos morava no quarto andar. As paredes eram todas rabiscadas. Vomitava os pensamentos em cima da tinta branca escurecida pela idade como se aquilo ali fosse a única página que sobrara em sua vida. Não gostava dos vizinhos, nem de rodas e carros e aparelhos televisores. Ele era assim, era aquilo. Uma espécie de humano em mutação, um quase bicho.
Nosso pequeno em questão tinha lá seus quase vinte ganchos de idade fincados nas costas, devidamente presos e enroscados na carne magrela e pálida. Não era muito interessante aos olhos dos outros e já nem queria ser. Tentava ser visto há alguns anos, mas agora a inexistência calhava melhor. Era tão boa quanto uma barra de chocolate. Nada podia ser mais confortável quanto a ausência de todas aquelas vozes pinicando, espetando, arranhando a cabeça.
Moveu-se em direção à porta. Fitava-a com um ar pesado de chumbo e bronze, apoiou uma das mãos sobre o aço gélido da maçaneta. Todos os dias, quando se via forçado a caminhar até a padaria, esperava que o edifício viesse em ruína para que aquele pesadelo fosse evitado. Direcionar seus passos pela rua era um tormento. A cidade pequena o sufocava como se fosse uma câmara de gás. A mesmice dos rostos estúpidos o irritava. Às vezes sonhava que as pessoas daquele lugar não passavam de baratas imundas passeando por um esgoto cercado de casas. Tinha vontade de martelar a cabeça de cinco ou seis conhecidos até os miolos vazarem pelos ouvidos como se fossem pus toda vez que corria para o abismo seguinte. Coisa que lhe roubava varios sorrisos.
Quando finalmente resolvera colocar os pés na rua e flutuar sobre a merda toda, contando as moedas para o pão, passou pelo velho do casebre verde musgo da esquina. Ele sempre estava lá, sentado em sua cadeira de praia amarela, com os olhos semimortos em direção ao nada que se tornou sua existência. Mais um relato da vida fraca e frágil perdendo outra vez para o tempo. “Que grande homem é aquele”, pensou. Chutou algumas pedras que se soltaram da linha do calçamento cuidadosamente construída por mãos esquecidas. Dobrou a esquina enquanto alguns pingos solitários começavam a cair apressados. Acendeu um cigarro como se fosse fazer um sinal de fumaça para que mandassem tudo lá de cima, para que tudo viesse abaixo de uma vez. Chegou a praça que sempre existiu atrás do quarteirão, lembrou do tempo de criança, quando o pequeno era realmente pequeno. E lá estava o parquinho, as balanças gastas e enferrujadas vigiando seu túmulo na areia, afundando, todo engolido pela sujeira que os gatos deixavam pelo lugar. Lembrou também do tesouro que um dia enterrara naquele espaço morto e ficou imaginando se ainda poderia estar perdido por ali. Talvez se cavasse o encontraria inteiro e seria transportado para o passado como num passe de mágica, e deixaria tudo o que era cruel e sujo no presente.
Quando a agua toda começou a desabar, o pequeno caçador de relâmpagos ficou a contemplar as luzes dos raios entre as folhas das árvores e o seu mundo paralelo de dez anos atrás. A padaria ficava do outro lado da praça, mais uma rua a ser atravessada, mais um pedaço de terra podre a ser percorrido. O pequeno caçador de relâmpagos esquecera o guarda chuva mais uma vez.