sábado, 10 de dezembro de 2011

Ontem à noite

Precisei falar com você ontem à noite. Precisei olhar para todos os teus dedos e dizer o quanto eu gosto da tua mão pequena, tão bonita e macia como se fosse de mentira. Precisei cair da cama e bater o nariz no criado mudo pra perceber que você não estava ali. Não tinha calor, nem um céu no teto do quarto. Não tinha um buraco negro dentro do guarda roupa e nem o seu cheiro no travesseiro. Não tinha mais nenhum fio dos teus cabelos escuros preso na rede da varanda. E como era bom deitar contigo ali durante a noite, ficar com os dedos perdidos nas madeixas que escorriam da tua cabeça, só pra ver os morcegos comerem as frutas da árvore do vizinho e contar historias sobre a lua e sobre a maldade desse mundo mesmo que não fossem nada bonitas, mas eu sabia que você gostava de coisas verdadeiras.
Sabe que ontem também tentei te ligar, mas fiquei com medo. E você sempre dizia que eu era medroso em relação a tanta coisa. No fundo não é culpa minha; é como se tivesse outro alguém morando na minha cabeça, alguma coisa que me puxa pra dentro de mim mesmo, algum outro eu segurando minha própria garganta, querendo incondicionalmente sufocar. O mesmo eu que não tem medo das coisas ruins, mas que cansou de lutar contra uma tempestade inacabável aqui. Uma tempestade que já me arrastou e vem tirando muito de mim nos últimos anos. Até preferia ter te conhecido em outra época se é que me entende, numa outra vida talvez. Isso só pra não ter essa lembrança me prendendo nesse lugar horrível. Só pra não sustentar esse lixo de esperança por mais tempo.
Não queria que fosse assim, essa merda toda banhada em álcool – minha vida – indo cada vez mais longe, dando tantas voltas pra chegar ao mesmo lugar. Ando agonizando e me arrependendo de coisas que nem mesmo sei. Ando vivendo e morrendo de saudade enquanto meus passos quase já não são mais passos.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Você disse: Nunca mais quero acordar

Era sempre um dia estranho quando você resolvia jogar baralho sozinha. Você ficava sentada na mesa com a cabeça baixa embaralhando as cartas em movimentos lentos e desordenados, depois estendia todo o baralho sobre a toalha branca de bordados azuis e verdes e puxava do bolso a cigarreira, enrolava um cigarro, os dedos finos tremiam enquanto levava o papel até os lábios espessos e entreabertos, eles quase não tinham cor. Depois sussurrava alguma coisa, era praticamente um sopro inaudível, mas ainda assim chegava a doer e eu sempre me sentia incapaz nesses momentos. Sempre me sentia um pássaro com as asas recém arrancadas por um serrote.
Muitas das cartas já se encontravam queimadas por cigarro, derretidas no meio e nas pontas, as damas já não tinham rosto. Você não gostava que elas sorrissem mais que você. Dizia que elas tinham algo mágico e que assim, destruir algo bonito te fazia sentir melhor. Te fazia aceitar que a vida, os sonhos, a alegria, qualquer coisa nessa porra de mundo tinha fim.
Nesse dia, você apenas deixou o baralho amontoado no centro da mesa, arrastou a cadeira até encostar na parede que tínhamos pintado de um verde bem claro, pois você dizia que quando criança sonhava com paredes dessa cor. Nós pintamos juntos essas paredes, todas as quatro da nossa sala apertada e esse lugar agora parece morto, os moveis, o sofá vermelho desbotado. Tudo morto. Eu estava na varanda, limpava as bostas de pomba que estavam grudadas no apoio, quando você veio correndo, seus cabelos longos tão negros e finos quanto linhas de costura esvoaçavam formando uma nuvem densa. Seu rosto grudado ao vidro, seu sorriso alongado expondo os dentes amarelos, o canino trincado. Seus olhos verdes de moça pedindo afago. Você sorria, mas seu olhar carregava desalento e quando ultrapassei a porta de vidro, não tardou em derramar algumas lagrimas. Eu te envolvi nos braços e você resmungou sobre um atentado terrorista qualquer e depois disse que tinha muito monstro por aí, que era melhor nunca sair de casa, que aquela porta feia, marrom escura com uma lasca faltando no centro devia ser o limite das nossas vidas. Você disse também algo sobre seus fantasmas, que nos últimos dias estavam fazendo um verdadeiro massacre e sua cabeça doía muito. Você gritou "NUNCA MAIS QUERO ACORDAR", meus tímpanos estremeceram. Nós ficamos ali, grudados com as peles, os pelos durante bons minutos. Eu sabia que aquilo tava piorando, você tava piorando, você estava tão fraca e tão bonita ao mesmo tempo.
Naquela noite deitamos cedo e a janela ficou aberta, tinha uma lua quase invisível espiando lá de fora e resolvemos fazer um show pornô para ela. Eu posso garantir que aquela foi a melhor trepada da minha vida. Quando terminamos, você se afundou no lençol, eu podia sentir sua respiração nas costelas e abracei sua cabeça com o braço. Você adormeceu.
Quando eu acordei, já tarde, você não estava mais na cama, as roupas ainda estavam todas pelo chão, sua calcinha enroscou num dos meus pés; andei em direção ao corredor, não senti cheiro de café, nem de torradas. A porta do banheiro estava entreaberta, pelas fresta aparecia um chinelo, uma toalha no chão. Bati de leve na porta. "Madalena" chamei. "Madalena" chamei novamente e não obtive resposta de nenhum canto da casa, nem um som qualquer. Mal entrei naquela geladeira forrada de azulejos brancos e velhos, para ver duas ou três vidas desabarem de uma vez, quatro ou cinco mundos explodindo ao mesmo tempo. Eu não sei como suportei aquilo; encontrar seu corpo ali, nu, pendurado pelo pescoço com um pedaço da minha corda de hapel no ferro que sustentava a cortina da banheira, sua boca roxa e meio aberta, sangue escorrendo do nariz, seus olhos vazios, vazios, vazios. Tão vazios que esvaziaram os meus também; me esvaziaram por completo.
Hoje faz uma semana, Madalena. Seu baralho ainda está na mesa, diabos, eu não tenho coragem de mexer naquilo. Suas roupas ainda estão jogadas em volta da cama, eu tenho esse rosto apático e não posso entrar no banheiro, porque eu vejo a sua imagem no espelho, pendurada, roxa, morta. E não posso tomar um banho sem querer me enforcar também.
Encontrei sua carta de despedida agora a pouco no bolso do roupão, ela tem o seu cheiro e ainda não abri. Não consigo tirar o envelope de perto do nariz e eu gostei tanto do desenho do gato que você fez nele, mas eu sei que o conteúdo disso vai acabar com o que resta de mim, e nem quero imaginar como será a proxima semana. E eu tenho medo, uma merda dum medo tão grande que chego a me sentir estúpido, um verdadeiro filho da puta dum estúpido. Ah Madalena, eu devia ter dito "te amo" mais vezes.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

11.11.11

tem uma chuva fina
quase invisível
ensopando minha
janela

e eu me perguntei
sobre ti
a primeira vez que
abri os olhos
hoje.
os pássaros estão mudos
nenhum carro passa -
a televisão da vizinha
também está muda e
eu ainda sustento
algum plano -
apesar de tudo.

as folhas verdes
da arvore da frente
já estão ficando
amarelas e
esse é o sinal
de que o
maldito tempo
passa tão lento e
tão rápido como uma
doença

não ajuda, nada ajuda -
e é sempre pior
arrepender-se de algo
que talvez
podia ter sido feito
mas não
foi.

o arrependimento pode um dia
ficar mudo como os
pássaros hoje,
mas o pequeno monstro que
vive brigando aqui dentro
nunca fica mudo.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Moedas, chuveiros e manchas de bolor

A moeda rolava entre os dedos ásperos e suados e vez ou outra brilhava com a iluminação tom pastel daquele muquifo, como se tivesse alguma vida para perder, algum sorriso escondido em meio aos traçados do metal, no numero um gasto por infinitas mãos de tamanhos e dimensões diferentes.
- Uma moeda. - Kevin rompeu o silêncio daquele canto mais escuro e escondido do balcão - Uma moeda pra tomar essa porcaria. Um lixo dum pedacinho de ferro. Mijo devia valer mais que isso.
Elias terminava seu segundo copo e amassava o cigarro ainda pela metade no cinzeiro enferrujado enquanto ria. Abriu lentamente a boca espumante e amarelada, como se fosse espirrar.
- E Sarah, pra onde foi?
- Foi embora, como todas se vão.
- É... A segunda em três meses.
- Ela levou o meu chuveiro, aquela puta! Agora tenho que tomar banho com um balde, na pia! Pelo menos Ângela não levou nada.
- Ângela levou uma parte da sua sanidade ou o que restava dela. Agora você está mais fodido do que nunca. - Elias suspirou, enquanto acenava para o pequeno homem de rosto rosado que quase se escondia atrás do balcão.
- Mas o pior é ter que encarar sozinho outra vez aquela mancha de bolor no teto, que mais parece um mapa do triângulo das bermudas. Eu não suporto isso, essa visão todas as manhãs. Tudo bem que a janela consegue ser ainda mais assustadora, mas aquela mancha de bolor, porra, planejamos nossas viajens todas em cima dela. Como se por ali o universo estivesse ao nosso alcance a qualquer hora do dia. Como se fosse um portal de saída do inferno. Agora estou verde e musgoso igual aquele teto.
- Você colocou Sarah naquele quarto logo na primeira semana...
- O que você queria? Ela era mágica.
- Todas são. É por isso que você está aqui agora.
- Sabe, eu devia enfiar essa moeda na testa de Sarah, mas vou enfiar naquela garrafa ali. Foda-se, nunca gostei de moedas.
- Pelo menos ainda tem aquele emprego, pra comprar um chuveiro novo.
- Fui demitido hoje, por negligência.
- Ah merda. Você é uma boa pessoa, Kevin. Uma boa pessoa apesar de tudo.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Um troféu que não quero ganhar

a indiferença roendo as unhas
escorregando para baixo dos lençóis
igual a uma sombra
e eles estão esperando
a morte está esperando
o mundo está esperando
um troféu que não quero ganhar.

eu deito olhando para a parede
e as estrelas ficam mais próximas,
enquanto isso
tenho pernas de aranha
e posso caminhar pelo teto,
pelos prédios,
posso correr para o inferno
e voltar

mas não me pergunte sobre objetivos,
não me fale sobre potencial
"oh guilherme, ei guilherme por que não faz isso e aquilo?
o que você quer? assim você não ganha nada!"

não faça isso.

todos por aqui temem o nada
enquanto eu o abraço
com minhas pernas de aranha
e
sou louco e errado por isso
e
sou doente por isso.

oh não, eu não vou deixar nada para o mundo
e isso basta

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Samantha #1

Ela vivia aparecendo por ali. Sempre com o cabelo escuro esvoaçando, boca pálida e lábio inferior rachado no canto direito. A garota vivia olhando para o chão e me encarava quando passava rapidamente pela minha mesa. Eu sabia que ela ia até lá para beber café e chá, talvez comer alguma bolachinha, quando tinha e nada mais. Ela parecia mandar todos os papeis e maquinas e carros à merda, cada vez que esticava uma perna para completar um passo. Depois corria para fora, enquanto meu olhar pesado a acompanhava pelo vidro temperado, até que sumisse na esquina com um cigarro aceso e o vestido preto balançando com o vento. Eu não dava à mínima, quem bancava esse lixo todo eram aqueles estúpidos, eu só queria o meu quarto com minha cama e nuvens pelo teto, enquanto abria uma garrafa para acompanhar os comprimidos.
Meus olhos transbordavam as olheiras pelo rosto e todo dia era tudo igual, a fumaça lá fora, o barulho das impressoras, a cabeça sendo aberta por uma navalha cega. Uma copia dum protótipo de paraíso caído.
Naquele dia, ela movia seu pequeno corpo até a mesinha dos petiscos, quando se defrontou com a cadeira de clientes da minha mesa. Sentou-se com seus grandes olhos que acompanhavam a cor do cabelo. Suas pupilas dilatadas me encaravam como pontas de lança. Tinha um nariz fino e um pouco comprido, era delicado. Coçava uma das orelhas que ficavam escondidas em meio aos fios de cabelo.
- E então, como vai tudo? - Sorria como se fizesse parte de um anuncio de pasta de dentes - Sou Samantha.
- Tudo entupido com porcaria. E você... Samantha?
- Olha cara. Não sei qual é a sua, mas esse lugar não combina nada com você. Queria dizer isso, é.
- Vou me demitir e... cobrir-me de terra.
- Assim, não é um trabalho ruim, apesar de monótono e de muito mal gosto - disse ela, debruçada em uma das mãos - Essa sua mesa aí, marrom claro, com design moderno do mundo que te perdeu há uns três anos. Você sentado nessa cadeira gigantesca e vermelha que perto da sua magreza parece um sofá. Esses montes de papeis e formulários rodeando suas mãos branquelas, esperando que seus dedos pressionem a caneta contra eles, esperando que preencham cada lacuna. Nada disso me parece assustador. Tem até essa maquina aí, pra você batucar essas teclas como um louco imitando um cão enquanto cava a própria cova, porque é pra isso mesmo que servem os dias. E veja sua chefe, tem um grande sorriso quando fala com os clientes mais importantes, "ó madame Denise, sente-se aqui, posso te servir um cafezinho? Que belo colar está usando hoje. Ó senhor Carlos, deixe-me ver o que temos por aqui! Ó!" Aquele batom vinho transbordando dos lábios contrastando com as madeixas loiras e os olhos azuis; muita imponência. Olha como eles devolvem o sorriso e abanam o dinheiro como se estivessem diante de um deus. Sem contar que ela também tem uma bunda apetitosa.
- Bem, nenhuma bunda é tão apetitosa assim quando caga na sua cara.
- É, pode ser... Mas esse lugar não combina nada com você.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Três dias sobre a cama

meu corpo jogado
há três dias
sobre a cama

junto a canção, ela triunfa
como tem de ser
e as moscas fazem companhia

manchas de sangue
enfeitando o lençol e
a parede
e um buraco de três polegadas
na cabeça
parecendo uma maçã
vermelha
do amor

Alguém abre a porta
e depois outro alguém aparece
com os mesmos olhos vendados
com a mesma cara embriagante
rostos iguais
e conhecidos
OH MEU DEUS, eles dizem
e meu corpo treme

um deles corre para o telefone
enquanto minha boca sorri
os barulhos dos passos ecoam
pelo corredor
e
apesar do calor
estou bem
como nunca antes
estive