sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A maior árvore do bairro

foi um dia triste
o dia em que cortaram a
maior árvore do bairro;
costumava brincar ao redor dela e
a considerava imortal, porque ela tinha
uma aparência muito antiga e um tronco bastante largo

era domingo e acordei cedo, como de costume.
eu era criança e julgava o tempo
uma coisa valiosa demais para
se gastar dormindo

dormir era coisa de adultos afinal,
porque eles eram chatos e
passavam horas preocupados com
coisas chatas, coisas que não tinham sentido algum

mas nessa manhã, os adultos da casa e
provavelmente os do  resto do quarteirão também,
tinham levantado primeiro

havia um barulho de motosserra pairando no ar
que despertou a vizinhança
ele atravessava com violência
as paredes e as janelas da casa

vrééééééé
vrééééééé
vrééééééé

ouvi minha mãe falar com minha avó
"eles vão mesmo construir o prédio"
ela disse

então olhei pela janela da cozinha
de onde antes podíamos ver a árvore esbanjando vida, mas
agora ela estava tombando bem em câmera lenta,
morta

lembro-me de ter sentido um calafrio
que percorreu a espinha e
nesse dia eu quis voltar a dormir
pra, quem sabe, acordar outra vez
olhar pela janela e ver que a árvore tava lá
inteira

eu ainda nem tinha crescido o suficiente
para abraça-la, coisa frustrante, porque
eu achava que ela merecia um abraço

e os dias caminharam rapidamente a partir daí
caminhões, maquinários e caçambas de entulho
circulavam aos montes pela rua
e também havia os caras da construção civil
com seus capacetes laranjas;
eu os via como inimigos, e só mais tarde entendi
que também eram vitimas.

o prédio foi erguido na velocidade
de um relâmpago
e dava pra escutar os vizinhos falando que
aquilo ia ser bom pra cidade
que aquela coisa era "o primeiro de muitos"

eu já tinha visto as cidades maiores na tv
tão atulhadas por esses caixotes de concreto
que até as pessoas pareciam inexpressivas e sem vida
correndo como robôs nas linhas do metrô ou
presas em seus carros com ar condicionado
porque o calor  já se fazia insuportável.

toda essa ideia me assustava cada vez mais e
levei mais alguns anos para digerir que isso se dava
porque eu tava crescendo e tinha acabado de entender que
a Terra tava perdendo a vida para os próprios habitantes

o que eu não sabia, é que tudo isso
era só o começo
de uma sequencia enorme
de tragédias.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015


Leme, 20 de outubro de 2015

Hoje estive brincando com a gaita cor prata que você me deu quando eu ainda era muito pequeno, ela é do  tempo em que você fazia aquela brincadeira com o dedão como se o estivesse arrancando e eu ficava alucinado tentando entender qual era a física por trás daquilo. Eu jamais entendia e você me abraçava rindo.
Aquele tempo era outro tempo e eu na qualidade de criança, sabia pouco dos reais problemas mundanos. Sabia pouco da morte e menos ainda da separação dos meus pais (sabia que eu morava com a minha mãe e era isso). Eu não vivi esse momento (tinha um ano e pouco quando aconteceu, creio) e portanto não lembro de nada. Crescer entre duas famílias sempre foi normal para mim, principalmente porque ambas são boas demais para se deixar de lado.
Eu gostava de passar aqueles dias na sua casa mesmo com meu pai estando longe, nos Estados Unidos. Dormir com vocês no quarto e a vó exagerando nos doces e me cobrindo de mimos eram coisas das melhores do mundo. Eu era um pouco tímido quando chegava, mas logo esquecia a timidez e começa a correr pela casa, entre seus sorrisos, brincado com as cachorras (Bô, Xuxa e Lu) como se tivesse nascido ali. Tudo isso era tão bom e passou tão rápido, como um forte raio. Um raio que fez algo estranho comigo, no lugar do choque mortal.  
É muito fácil culpar depressão e álcool por todo o lixo que fiz em minha vida durante os anos de meia ausência e decepções (eu decepcionei muito a mim mesmo), mas essa não é uma justificativa plausível. Eu causei isso e essa é uma certeza inexorável que vai viver dentro de mim.
Mas quando foi que eu me esqueci de você, vô? Quando foi que me esqueci que um dia você me ensinaria a tocar essa gaita? Passei esses dias me perguntando, pois fiquei com essa sensação horrível que pesa uma tonelada aqui dentro.
Parece que abandonei vocês durante tanto tempo, parece que estive em coma durante mil anos. Parece que perdi inúmeras boas conversas, sabedoria, conselhos, abraços. E agora perdi você, vô. Assim, bem quando eu começava a sentir a infância de volta (um pouco mais madura, é claro). Bem quando começávamos a sofrer juntos nos jogos do Palmeiras. Ah, como eu queria assistir mais jogos com você. Como eu queria que você me ensinasse a tocar essa gaita. Como eu queria dividir com você os problemas pelos quais eu passava e ainda passarei, porque a vida é problemática assim mesmo. Mas eu demorei demais, vô... Eu me sinto mesmo um verdadeiro imbecil as vezes.
Em janeiro fará dois anos que parei de beber. E eu posso me orgulhar porque você me viu parar. Desculpe aquela discussão completamente desnecessária e sem sentido algum que tivemos um dia em que eu estava meio bêbado (você sabe do que estou falando). Desculpe pela minha ausência que hoje tanto me fere, pois eu ainda estou tentando me perdoar.  
Fique bem, onde quer que você esteja. E um dia, em outra vida ou outra dimensão nos encontraremos para por em dia todas essas coisas valiosas que perdi, porque assim há de ser. 
Eternas saudades de você, que foi tão valente enfrentando essa doença. 

Do seu neto,
Diego.    

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Rigor mortis

Era estranho estar diante do fim. Abraça-la e não sentir nada além de um garrote preso à garganta, e na ponta dos dedos um formigamento de quase morte. Era estranho porque fazia calor e meus lábios, pela primeira vez, sentiram em seu pescoço um frio cadavérico.

Buscávamos, os dois, dizeres finitos e insignificantes num enorme cemitério de palavras, mas falar já era impossível afinal as palavras é que morreram primeiro, num outro momento, num outro tempo que não era aquele.

Soltamo-nos e cruzamos nossos olhos, negros como nuvens de tempestade, uma última vez.

Breu fez-se ao redor, misturando-se aos seus cabelos e engolindo aquele dia de verão. Nossos lábios, antes carne, agora eram lápides cinzas. Estávamos rígidos.

Aquele dia não era dia. Era tarde demais.            

sábado, 6 de dezembro de 2014

Leme, dezembro de 2014

Me perdoe.
Preciso chafurdar a cabeça nisso tudo por uma última vez, antes que o ano vire. É a ânsia de desafogar (porque calei demais pra te ouvir) que me faz perder alguns minutos da minha noite de sono com essas palavras que vieram um pouco tarde. O fato é - se você está lendo isso agora - é porque esqueceu alguma coisa (me pergunto o que dessa vez) da mesma forma que eu esqueci. Mas não se preocupe, não vou estender o assunto, que já é muito batido pra se perder mais do que dez minutos de reflexão. As coisas se tornam muito breves depois de tantas despedidas tortas.

Naquele tempo eu só queria ser legal, mas era imbecil demais pra conseguir fugir das suas palavras secas. E eu bebia. Bebia muito.

Eu gostava dos seus olhos, porque eles eram mais escuros que os meus e tinham um quê de abismo. E meu passatempo preferido era mergulhar em abismos. Me jogava em queda livre, engolia bosta de urubu e tomava muito vento na cara, mas eu não tava nem aí porque eu era otário e bebia. Bebia muito.

Talvez tenha sido exatamente por culpa do meu mundo ébrio que nunca entendi muito bem suas idas e vindas. Não que você tenha tentado explicar. A ideia era plantar o peso das suas dúvidas nas minhas costas mesmo, eu acho. E funcionava. Eu rolava minha montanha imaginaria abaixo, batendo em árvore e pedra. Eu ficava feliz, mas devia correr e não corria. Eu esperava pra despencar quantas vezes fossem necessárias.

Não da pra dizer que as coisas com você não foram marcantes. Esse nosso último encontro em janeiro, era pra que mesmo? Como me acompanharam essas marcas. E elas ainda acompanharão. Você disse que sempre lembraria de mim quando ouvisse O Teatro dos Vampiros. Eu também tenho tralhas pra lembrar de você.

Outro dia, em dois mil e dez, queria te mandar uma carta. Qualquer besteira dessas pra se ter numa gaveta... Século XXI, eu sei, eu não devia me espantar por você achar uma chatice. Eu, que busco inspiração em todos esses escritores velhos e decadentes e prefiro a paz dos cemitérios e você toda moderna em meio aos arranha-céus e luzes mortas de TV. Talvez eu seja um porra de um atrasado mesmo, vai saber, as vezes só tô perdido nesse século lixo, mas quem não gosta de ter algo assim pra guardar, ou pra tacar fogo, que seja? Mas eu não sabia que, como foi mesmo que você disse?

"Carta é coisa de viado."

Você me disse que carta é coisa de viado. E eu inventei qualquer assunto pra disfarçar minha cara de frustração e tentar te agradar com qualquer coisa que não fosse uma maldita carta. Não funcionou. Nunca funcionaria.

E eu sumi por aquele portão de embarque porque as coisas eram confusas, confusão era seu sobrenome e ali eu tinha a chance de chutar tudo pro inferno, precisava escapar de alguma forma. Antes mesmo de te contar que viajaria, e aguentar aquele seu ataque de sei lá o que e todo aquele discurso de "eu vou no aeroporto me despedir" (você ama despedidas né? Toda aquela coisa cinematográfica hollywoodiana e o caralho. Pelo menos isso deu pra sacar em todos esses anos.) e seu primeiro sumiço, eu tava morrendo pra te ver de novo. Eu te contei e você perguntou:

"Afinal, o que você espera de mim?"

Nesse instante eu resolvi partir.
Mas podia ter respondido alguma coisa inteligente, só que meu cérebro virou do avesso com a bofetada. E ficou por isso mesmo, perdi a fala. Eu sempre perdia a fala. (Na última vez que nos vimos não foi diferente. Eu tinha um oceano de coisas pra te dizer, mas afoguei, e foi feio. Mas essa é uma outra parte - repetida - da história que não convém registrar agora.) No fim você seguiu seu rumo e eu fingi que segui o meu. Aqui eu ainda não sabia que essa coisa ia virar um hábito, só queria voar por cima do atlântico e achar meu espaço no mundo. 

Então no ano seguinte eu estava instalado em Lisboa, ou melhor, eu tava fodido em Lisboa porque te amava. E assim enterrei minha viagem. Me enganava com um trabalho ali na biblioteca em Cascais, outro na serra de Sintra, no meio do mato. Mas eu tava mesmo fodido, vomitando poemas e ressaca.

Quando não perambulava pelos inúmeros sebos procurando raridades nem tão raras assim, passava horas andando por aquelas ruas muito antigas, repletas de lojas de suvenires para turistas, daqueles chineses loucos trabalhando feito locomotivas a vapor. Costumava olhar para os postais, tentava adivinhar qual deles você gostaria mais e aí não tardava para o "carta é coisa de viado" aterrissar na minha cabeça e eu desistia da ideia.
Não tava difícil pra cair na real. Você era uma mulher pequena, cercada de coisas pequenas numa cidade grande. Eu não fazia parte desse mundo. Jamais nos adaptaríamos e é por isso que nunca daríamos certo. Mas eu tava enlouquecendo.

Eu passava tempo demais bêbado e tinha um fantasma morando na minha cabeça. Eu inventei você. Eu precisava me tratar. 

E parar de beber.

Agora sei. As coisas estão seguindo o curso certo e o ponto zero desse saber foi janeiro desse ano.
Espero que tenha sido o mesmo para você.

Um abraço,
Diego.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Vida e morte no zoológico cotidiano

Igor chegou ao seu limite de sofrimento com uma dor de dente repentina que já o vinha massacrando há umas duas semanas. Ele tem essa mania. Vai empurrando com a barriga, até a coisa sarar sozinha ou se tornar diabolicamente insuportável. Foi assim também com uma dor de ouvido que teve certa vez. Enquanto a cabeça inteira, isso é, toda a massa dela não entrou em ponto de erupção, não procurou resolver o problema. O que acabou lhe rendendo uma bela inflamação que quase lhe custou a audição do ouvido esquerdo. Igor acha que provavelmente é um imbecil pseudo masoquista. Apenas mais um entre milhares, tentando sobreviver da forma menos maçante e desprezível possível num planeta já cansado de girar, louco para explodir. Mas voltando ao assunto do dente, acabou marcando uma consulta com a sua dentista, mesmo muito contrariado, depois de fazer um esforço psicológico imenso para agarrar o telefone. Ele tem essa treta com telefones, não se dão nada bem. Sempre que precisa telefonar, tenta ser o mais direto possível nas conversações, muitas vezes abusando de estupidez involuntária para isso.
A consulta foi marcada para as 14:30 do dia seguinte. Igor chegou ao consultório meia hora antes, contorcia-se de dor. Curvou-se para subir a pequena escada que levava até a porta de entrada apoiando a bochecha esquerda com a mão. A mesma atmosfera cor de salmão de sempre escorrendo pelas paredes e os sofás estampados, que pareciam pintados por tintas claras de aquarela fazendo contrates com o piso quase marrom, tomava conta do lugar. Na televisão suspensa num daqueles suportes no alto da parede, passava um programa desses que entretém a parte mais abundante da massa mundial. Desses que entopem, saturam com lixo essa mesma massa. Também já havia um homem na sala de espera; quando Igor apontou pela porta, ele rasgava uma página de revista. Parecia uma receita de qualquer coisa. Ele tentou disfarçar coçando o cabelo grisalho, deixando a revista de lado. Igor sentou-se de forma que uma linha diagonal ficasse entre eles. O homem tinha uma aparência horrível, grandes olheiras lhe caiam dos olhos até quase o queixo, e a bochecha direita estava bem inchada, parecia que algo queria sair dali. Também possuía marcas profundas distribuídas pelo nariz grande e fino e no resto do rosto, como se num passado remoto tivesse sido perfurado por uma furadeira e espancado com um martelo. Apesar de tudo, deixava a impressão de ser bastante recatado e conservador. Ele encarava com olhos pretos opacos e pupilas dilatadas. Um pouco agitado com a movimentação inesperada, tentou seguir disfarçando, dizendo qualquer coisa. 
- Sabe os dentes do fundo? Eles acabam comigo. Não consigo dormir. 
- Isso é mal... – Igor respondeu, desinteressado.
Ele voltou para a revista, folheou rapidamente algumas páginas até seu celular tocar. Atendeu.
- Diga. – Um longo silencio se fez, a pessoa na linha parecia falar muito. Ele mexia a cabeça impacientemente. – Olha, eu não quero saber. Já temos um. Diga para a sua amiga que NÃO, OBRIGADO. Não vou tolerar outro cachorro. Por isso mesmo, tente entender. Querida, deixe esse animal encontrar um lar com muitas crianças que brinquem com ele. Não, não estou sendo mal. EU SOU BOM ATÉ DEMAIS. Não quero saber se é bonitinho ou o que for. Já está decidido. 
Ele olhou para Igor, suspirou e guardou o celular num dos bolsos da calça.
- Minha mulher é pior que os dentes, me deixa louco.
- Imagino que outros caras ao redor do mundo devem estar passando pelo mesmo problema. E mulheres também, no que diz respeito aos relacionamentos. 
- Ela quer outro cachorro. Já temos um. A casa não é muito grande, sabe como é. 
 O homem queria conversar, era um desses que sai contando a vida pro primeiro desgraçado desconhecido que vê na frente. Igor continuava pressionando a bochecha esquerda com a mão. Permaneceu em silêncio, bastante incomodado pela dor e pela falação. 
- Eu faço tudo por ela, sabe? Mas ela só sabe pedir o tempo inteiro. Pede isso, pede aquilo. Pede coisas mirabolantes às vezes, como um utensílio que faz ovos cozidos quadrados que ela viu na internet... Pra que uma pessoa precisa de uma geringonça que faz ovos quadrados? Enfim... outro cachorro, definitivamente, não. 
- O senhor está certo. Se não é viável, faz bem em não querer. – respondeu com um tom de aborrecimento, mas o homem não se tocou.
- Sim. Esse nosso até dorme na cama com a gente de vez em quando. O Cachorro é espaçoso, grande. Um fila! Às vezes tenho que sair pra ele ficar. Então, como se não bastasse os dentes, não consigo dormir. Muitas vezes tenho que ir pro sofá.
-É, acho que vocês precisam conversar. 
- Sabe que vez ou outra até acho que ela transa com o cachorro. É impressionante. hahahaha
- Tem gente que gosta mesmo de foder com animais...
- Hehe. Estou brincando...
- Mas isso existe. Esse lance de zoofilia. Tem muito material na internet.
- Meu deus. 
- Sim, MEU DEUS mesmo. Tem de tudo lá, você não acreditaria se visse com seus próprios olhos. Cavalos, porcos, cabras, vacas... Uma fazenda. Não. Um zoológico inteiro! Pobres animais, não entendem nada.
- Isso está me dando NOJO. Isso é ASQUEROSO. 
- Mas tem quem goste. Que é que a gente pode fazer? 
-Minha mulher nunca seria capaz de uma coisa dessas. Eu estava apenas brincando.
- Com certeza, mas algumas pessoas se divertem pra valer com essa coisa. Elas realmente ficam realizadas sexualmente e psicologicamente.  Podemos algum dia, encontrar um amigo ou conhecido ou familiar com um ótimo e misterioso humor estampado por todo o corpo e nem imaginar que o motivo é...
- Puta que pariu. – ele interrompe Igor. – Vamos parar de falar disso. Tô começando a imaginar coisas, meu estomago está embrulhando. Foi só um comentário pra descontrair, pra rirmos um pouco. A propósito, vou indo, isso tá demorando muito. Preciso mesmo voltar pra firma. Até mais, rapaz. Foi um prazer.
O cara deve ter ficado incomodado mesmo, pra largar a consulta assim com todo aquele inchaço na cara, pensa Igor, tomado pela dor generalizada na face. Sentia-se satisfeito por ter se livrado do chato que tentava ser legal e divertido. Nada pior, ainda mais com todo aquele sofrimento agonizando dentro da boca. Mas talvez tivesse exagerado um pouco com o infeliz.
Cerca de dez minutos depois, a porta perto da TV se abriu. Era lá onde ficava a sala de atendimento. Pela porta vieram passando uma moça e provavelmente a filha, uma garotinha que devia ter lá seus sete anos, segurando uma bexiga de luva com um rosto feliz desenhado por pincel atômico. Igor não pôde deixar de observar discretamente a bunda da moça, saliente num desses vestidinhos estampados de verão. Que bela silhueta ela tinha, e que cabelos longos e castanhos cheirosos, foi possível sentir o perfume deixando um rastro no ar. “Maldito sortudo” pensou, em relação ao pai da garotinha, essa que tinha o rosto bem parecido com o da mãe. Olhos negros, nariz um pouco arrebitado, algumas poucas sardas e lábios naturalmente avermelhados. Ele foi chamado pela dentista, que esperava encostada no batente.  Então atravessou os sofás indo até a porta, enquanto as duas se perdiam para sempre em direção à rua.
- Olá, Igor. Faz tempo que você não aparece por aqui. Quatro anos já, pela sua ficha.
Não importava quantos anos ele podia ficar sem dar as caras por ali. A doutora certamente não envelhecia. Era sempre o mesmo rosto com as madeixas loiras amarradas num coque. Os olhos azuis, bastante claros e provocantes, os lábios carnudos, dando aquele sorrisinho de canto. Nenhuma ruga a mais, nenhuma ruga a menos. Nem manchas, nem nada. Quando era menor, tinha que cuidar pra não ter uma ereção, ali totalmente vulnerável e indefeso naquela cadeira. 
- Fiquei todo esse tempo sem um incomodo sequer na minha dentição. Isso não é excelente doutora Márcia?
- Claro, mas mesmo assim é preciso fazer consultas periódicas... 
Igor se limitou apenas a olhar, mesmo que sua vontade fosse dizer “Mas claro, se eu defecasse dinheiro! Por que não?”
- Bom, vamos lá. Pode sentar. 
Ele se acomodou na cadeira. Ouviu as luvas estalando nas mãos da doutora.  Tão logo ela sentou ao lado e vestiu a mascara cobrindo a boca, o encosto da cadeira começou a se mover.
- Confortável assim? 
- Sim.
- Certo. Qual é o problema?
- Em baixo, do lado esquerdo. Está me matando.
- Certo. Abre a boca.
Ela começa a fazer uma inspeção minuciosa em todos os dentes com aquele espelhinho.
- Igor, ali onde está te matando precisaremos fazer um tratamento de canal, pra hoje. E também encontrei outras duas caries, essas podem esperar. Vamos marcar um retorno pra obturarmos elas, ok?
- Beleza.
- Abre a boca.
A dentista enfia aquele espelhinho outra vez, e começa a cutucar o dente podre de Igor. Ela aplica uma anestesia e prepara uma das maquinas. Ecoa no consultório o barulho do motor. Ele encara profundamente os olhos azuis da doutora Márcia antes de fechar os seus, na tentativa de evitar que todas as coisas mais miseráveis e horrendas da face da terra comecem a passar por sua cabeça, como relâmpagos. 

*

Agora, mais ou menos uma semana depois, Igor está parado no ponto de ônibus, pronto para voltar pra casa após o trabalho. Não foi ao retorno para cuidar das outras caries, afinal elas nem incomodam porcaria nenhuma. Ele folheia o jornal da cidade, nada muito além de notícias sobre enchentes e onda de roubos seguidos por homicídio e viciados aglomerados em terrenos baldios assustando vizinhanças e corrupção e conflitos imbecis e miséria e morte e mais todo o tipo de coisa que afirma nas entrelinhas que estamos acabados esperando um lugar na vala comum dos planetas extintos, quando de repente depara-se com a seguinte noticia em forma de uma pequena nota, num quadro na extremidade da página:

DONA DE CASA É LEVADA PARA HOSPITAL EM SITUAÇÃO INUSITADA 
A mulher, 52 anos e mãe de dois filhos, estava tendo relações sexuais com o animal de estimação da família, um cão da raça fila, quando acabou  ficando presa ao bicho. Mesmo envergonhada, teve de ligar para o pronto socorro e solicitar a presença de paramédicos e ambulância em sua residência. O cachorro teve de ser completamente sedado para que os médicos conseguissem “desgruda-lo” do corpo da dona de casa. O marido, 54, só ficou ciente da real situação quando chegou ao hospital, depois de ser contatado por um médico da clinica e disse estar profundamente desapontado com o ocorrido “Nunca imaginei que algo assim pudesse ocorrer comigo.” Disse, bastante abalado.” 

O ônibus chega ao ponto. Igor joga o jornal numa lixeira e vai para o fim da fila tentar entrar naquela lata de sardinhas. Ele pensa na situação enquanto espera a sua vez de passar na catraca. “Que piada. Seria muita coincidência com o cara do dentista.” Uma criança moribunda passa ao lado da fila pedindo uns trocados e dispersa seus pensamentos, enquanto o motorista grita de dentro do ônibus.
- Pessoal, vou precisar ficar parado aguardando instruções! Tem um congestionamento logo ali na frente. Parece que alguém foi amassado no asfalto outra vez. 
- Oh merda – sussurra Igor, em meio ao burburinho irritado das pessoas – estamos mesmo condenados.
Uma potente chuva se forma através de uma garoa inocente. Os trovões, longínquos como se viessem de outro planeta, saúdam a noite que já tenta dominar toda a cidade com sua penumbra, perdendo apenas para a força das luzes dos automóveis, dos postes e dos prédios. 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

00:00

pensando em insônia
pensando em uísque e cerveja e
nostalgia enquanto leio conversas antigas de msn
e o programa nem sequer existe mais

pensando em coisas que morreram em você
e em como elas morrem o tempo todo,
em todos os lugares e em todas as pessoas,
por infelizes falhas humanas

pensando no toque infernal do despertador às 7:00 da manhã
pensando nos latidos dos cachorros da vizinhança
cortando o silêncio da noite,
pensando que tenho que trabalhar hoje e depois e depois e depois
pensando no salário
pensando em rotina e
no ódio

tudo resumido em murros contra o nada.

pensando em viagens
ônibus, campinas, são paulo, cheiro de bosta, guarulhos,
aviões, nuvens, turbulências, comida congelada,
banheiros minúsculos, guias de segurança
novos velhos ares

pensando em amigos
família
alegria
ursos polares
montanhas nevadas
natureza
isolamento
solidão
manifestações
política
corrupção
fronteiras
poder
consumismo
riqueza
pobreza
contas bancarias
dívidas
fome
guerra
tragédias
overdose
humanos
deuses
falsidade
raiva
assassinato
dúvida
desmotivação
descrença
decepção
indiferença

pensando em deitar,
fechar os olhos,
sonhar uma e outra coisa para fugir da mesmice
dos ponteiros do relógio
pensando em acordar,
cara de merda contra o espelho,
contra o mundo

pensando em saudade
e eis sua voz e olhos e boca e mãos e cabelos
pensando em você caminhando sozinha,
desaparecendo pelas escadas do metrô
pensando que eu podia ter te amado melhor
pensando no passado

pensando durante anos,
mergulhando no mesmo erro
que escorre incessantemente pelos muros mais altos e resistentes
que você jamais imaginou

pensando em teimosia, orgulho, cretinice
pensando em crise
pensando errado

e pensando em não pensar
nunca mais

ou quase isso.

17/7/2013

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Formigas por todos os lados


Desvio da fila dos caixas eletrônicos. O calor ali se mescla com a respiração e o burburinho das pessoas que se espremem pelo banco, o que faz a atmosfera começar a ficar perturbadora. Uma leve dor me sobe pela nuca e eu respiro fundo e estalo os dedos da mão direita. Enfio a mão no bolso, tiro o celular e o deposito no pequeno compartimento para objetos metálicos. Tento atravessar a porta giratória. Ela apita e trava. O guarda do outro lado do vidro me encara de cima a baixo, com suas olheiras pendendo pelo rosto. Dou um passo atrás com certa irritação, começo a vasculhar os outros bolsos, encontro o isqueiro, as chaves, o maço de Marlboro. Meto tudo no compartimento, junto com o celular. Atravesso a porta e recolho meus objetos no compartimento, ao lado do guarda que tem um bigode amarelado de nicotina e sorri dizendo “bom dia”.
Antes de pegar a senha do caixa, passo pelas mesas de atendimento ao cliente e vou até um filtro de água mineral parado num canto. Bebo três copos de água gelada. Volto até a maquininha das senhas e aperto o botão: “pagamentos e recebimentos”. A máquina cospe o papel: “senha número 87, previsão de espera: 15 minutos”. Olho ao meu redor, todas as cadeiras estão ocupadas, olho para o monitor que mostra as senhas chamadas e ele marca o número 43. “15 minutos? 15 minutos o caralho...” falo comigo. Atravesso outra vez o recinto e encosto ao lado do filtro. “Somente o ser humano mesmo pode ser tão estúpido a ponto de inventar essas burocracias, esses compromissos. Só nossa raça pra acabar com o simples que era pra ser a vida”, penso.   
Puxo um desses encartes de benefícios e serviços do banco que estava numa espécie de prateleira de papelão e cinco minutos da minha manhã já se foram pelo esgoto. Olho para o encarte que tem como ilustração a foto de uma família acompanhada pelo slogan: “Invista na família. Mude agora o seu futuro”. A mulher loira, vitoriosa, vibrante como uma raridade, uma escultura única. O homem igual, se não fosse pelo cabelo castanho escuro. No meio dos dois, uma menina e um menino. Todos estão bem arrumados, despreocupados e aparentemente cheirosos fazendo um piquenique num jardim repleto de cores pulsantes, num dia ensolarado de primavera. Todos sorrindo descaradamente com os seus dentes a mostra, brancos e limpos, impecáveis e vitoriosos. Desvio o olhar do encarte e acompanho com os olhos as pessoas que estão por ali, em sua grande maioria desesperadas e enlouquecidas, sem tempo para cuidar dos dentes, ou sem chances para juntar um pouco que seja de tempo livre. Elas estão fatalmente vitimadas e humilhadas por qualquer coisa errada no mundo. São pessoas reais, vivendo, respirando, comendo realidade e perdendo a compostura diariamente enquanto enfrentam a labuta. A ironia que escorre pelos muros e grades da nossa pequena e frágil existência as vezes é tão escancarada, tão grotesca que se mistura em meio ao resto da sujeira e passa despercebida pelos olhos mais cansados. Eu devolvo o encarte no lugar e tento distrair meu pensamento com algo que não seja o calor do outro lado ou cheiro de bunda, quando escuto alguém dizer meu nome.
- Diego? Que aconteceu que nunca mais te vi por aí?
- Ando ocupado. O tempo está curto, César. 
César costumava frequentar os mesmos bares que eu. É pintor, além de vendedor. Vive tentando expor suas telas em eventos pelo país, mas ainda não conseguiu. Ele fala demais quando não está bêbado, o que deve ser uma forma de vomitar a ansiedade crônica que corre em suas veias. É um bom sujeito, mas unicamente chato.
- Sei como é. Eu também estou passando apertado. Eu e a Patrícia estamos morando juntos agora. – ele diz, suspirando.
- É mesmo?
- Vai fazer duas semanas.
- Que bom, cara.
- Você estava deplorável no fim do ano, enquanto entornava garrafas e contava sobre aquela história das duas mulheres. Você conseguiu se acertar com aquela lá, cheia das tempestades?
- Não.
- Oh, sinto muito...
- Não sinta.
- Mas a outra sumiu, pelo menos?
- As duas sumiram. 
Ficamos em silêncio. César parece um pouco impaciente e logo volta a falar. 
- Sabe... Eu acho que não gosto mais da Patrícia. Na verdade, acho mesmo que estou começando a odiá-la.  
- Por quê?
- Eu não sei. Sinto que estou no limite. 
- Entendo você.
- Eu a amava há duas semanas. A coisa estava exatamente aqui dentro – ele aponta com a mão esquerda para o próprio peito – até quarta feira da semana passada. Era noite e estávamos transando, sabe? 
- Sim...
- Foi magnifico como sempre. Estávamos felizes. Terminamos o negócio e fomos tomar um banho juntos. Até aí tudo bem, então deitamos para dormir. Eu precisava realmente dormir, vinha passando por noites intermináveis de insônia e sentia que ali, naquele momento poderia dormir como nunca. Realmente consegui, acho que dormi profundamente durante uns trinta minutos e aí ela me acordou dizendo que havia formigas pelo colchão. Acendi a luz, não tinha nada. Apaguei a luz, virei pro lado e fechei os olhos. Estava quase pegando no sono novamente quando ela começou a me cutucar, falando sobre as formigas. Levantei, acendi a luz mais uma vez. Eu disse que não havia formigas, que ela devia estar com algum tipo de alergia. Então ela me disse que as formigas estavam escondidas em baixo da cama, eu dei uma olhada e não tinha nada lá. Nisso ela se levantou e atirou o lençol pro chão e gritou: “Elas tem que estar em algum lugar!” Aí ela foi pra cozinha e voltou com uma daquelas facas de churrasco e começou a triturar o colchão e a roupa de cama. Enfiava a faca e rasgava com uma destreza realmente assassina. Quando o colchão ficou totalmente destruído e com as molas expostas feito vísceras, ela olhou pra mim e disse calmamente: “Não estão aqui”, e foi guardar a faca. Eu tentava digerir o que tinha acontecido quando ela me chamou na cozinha. Fui até lá, ela apontava para todos os lugares. Pra pia, pra parede, pra mesa, pro doce de abobora da mãe em cima do fogão. “Estão aí as danadas, eu apenas sonhei que elas estavam na cama”, ela disse. Eu fiquei claramente irritado, ela tinha destruído um colchão praticamente novo. Tinha feito um escândalo e eu odeio esse tipo de coisa. Então começamos a discutir e eu não consegui dormir outra vez. Passei a noite praguejando enquanto ela dormia no sofá.
- Olha... Eu entendo você.
- Não, eu estou enlouquecendo. Ela também mudou meus quadros de lugar. Todo dia de manhã olha pra eles e diz que eu devia usar mais cores nas pinturas, enquanto tomamos leite naquelas canecas horríveis que ela trouxe pra minha casa. Às vezes tenho a impressão de que ela só está me parasitando. É como se ela sugasse até a minha merda.
- Eu passei por isso ano passado.
- Verdade?
- Sim.
- Não sei mesmo o que pode ter dado errado, Diego. Veja bem – ele faz uma pausa para coçar a garganta - ontem mesmo ela começou outra vez com o assunto sobre as formigas. Disse que eu devia comprar algum veneno, porque as malditas apareciam no açúcar e no arroz e estavam por todas as partes. Disse que estava farta de comer formigas e que eu precisava tomar alguma providencia.
- E você tomou?
- Então eu disse para que ela mesma comprasse o veneno, que não me esperasse por tudo porque ela já é grande o suficiente para fazer coisas por conta própria e eu já tenho que passar o dia trabalhando e preciso de tempo para pintar. E ela me encarou, começou a gesticular com os braços pra lá e pra cá, de forma enlouquecedora, dizendo que eu não dou valor suficiente a ela, não ouço o que ela diz e que eu só penso em pintar e gosto mais dos quadros do que dela, essas merdas todas, sabe? Daí eu falei que era bom ela procurar alguma ocupação e me ajudar a por dinheiro na casa, me ajudar com qualquer coisa, porque eu estou cansado de ver a cara dela em casa o tempo todo, batucando teclas no computador enquanto eu enlouqueço. 
- E ela?
- Começou a chorar. Depois ela berrava histericamente sobre valores e princípios, e desejou que as formigas comessem todas as minhas telas. Você precisava ver, fez um verdadeiro teatro. Aí foi pra casa da mãe dela e então minha sogra me ligou. 
- Minha nossa. Queria te apedrejar pelo telefone?
- Não exatamente. Ela queria me passar o nome de um ótimo veneno para formigas, veja só que piada. Pediu para que eu tivesse mais paciência... Disse que a minha personalidade estava mudando por causa das formigas e que tão logo as mesmas fossem eliminadas tudo ficaria bem. Então eu pensei em perguntar se a filha dela era uma formiga, mas disse apenas “ok” e desliguei, porque naquele momento precisava dar uma cagada. A Patrícia voltou meia hora depois como se nada tivesse acontecido e ainda veio dizendo que o aniversário dela está chegando e então quer um presente magnifico.
- O presente é fácil... Você pode pintar uma tela de uma formiga. Uma tela grande. Podem ser várias formigas ao invés de uma.
- Porra, você quer me ajudar ou não?
- Estou te ajudando.
- Hoje, antes de eu sair de casa ela estava prestes a começar a falar das formigas mais uma vez. Eu disse pra ela ir embora se não estava satisfeita. Que eu não era obrigado a sustenta-la. E ela disse que se fosse embora, eu nunca mais a veria. Você acha que as coisas vão melhorar se eu matar as formigas? 
- Não, eu não acho. Esse tipo de coisa ou é boa ou é ruim, independe das formigas. Matar as criaturas só faz você entrar no jogo, e depois das formigas vão aparecer besouros, moscas, baratas e qualquer outra coisa pior e é você que vai ter que lidar com tudo isso.
- Mas eu não queria perde-la. Eu sentia mesmo que a gente tinha algum futuro.
- Parece que você se enganou.
- É... Ela é louca. Acho que vou mesmo dizer pra ela fazer as malas hoje. 
- Pode ser melhor para ambos. 
- Mas isso vai me deixar deprimido por dias. Acho que nunca vou arrumar uma foda tão boa outra vez. E ela também é muito bonita, uma verdadeira raridade, você sabe. Tínhamos tudo pra vingar, não sei o que aconteceu.  
- Essas coisas acontecem o tempo todo.
- Acontecem?
- Estamos sempre procurando nos enterrar num buraco cada vez mais fundo, César.  A única coisa é que tem gente que leva tempo demais pra perceber isso.
- Como assim?
- Deixa pra lá.
Sei que ele voltará atrás com a merda toda e não tenho mais nada a dizer. Olho novamente para o monitor das senhas. Está lá o número 58. Eu amasso minha senha e penso comigo: “pro inferno com isso.” Digo a César que preciso ir e saio do banco. O centro da cidade nunca esteve tão feio e quente. Atravesso a avenida em direção a praça, sento num banco protegido pela sombra de uma arvore. Acendo um cigarro enquanto vejo pernas cansadas atravessarem os jardins, quase perdidas. Formigas.