quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Finados

Miguel dormiu o dia inteiro, jogado em sua cama que ficava colada na parede do lado esquerdo do seu casebre de um comodo e meio (meio para o cubículo, conhecido como banheiro). Se via nocauteado a cada feriado e o melhor que podia fazer, já que não tinha dinheiro, nem paciência pra muita gente, era dormir.
Dizia ele que a fonte do seu cansaço corriqueiro não vinha apenas da sua rotina sórdida de trabalho naquela maldita usina, mas também dos seguidos infortúnios em que tinha o dom de se meter durante toda sua vida mal resolvida. Tinha uma mãe tão obcecada em religião e santos estúpidos que uma vez, quando ainda era pequeno, foi esquecido por ela dentro da igreja e uma freira suja e mal cheirosa, como disse ele, teve de levá-lo pra casa, ela foi reclamando o caminho inteiro, enquanto Miguel arrastava os pés e chutava pedrinhas para o meio da rua. Depois do acontecido, prometeu a si mesmo que nunca mais entraria numa igreja. Cumpriu.
Por volta das seis da tarde se viu obrigado a levantar já que o maldito telefone resolveu brincar com seus tímpanos. Levantou, esfregou os olhos, resmungou umas coisas ignorantes em voz baixa e caminhou até o aparelho:
- Fala
- Miguel, rapaz tentei falar com você o dia todo, o que andou fazendo?
- Andei dormindo feito um morto mesmo.
- Baita homenagem não? - riu o cara do outro lado da linha
E Miguel pigarreou, estufou o peito e respondeu calmo, com todo o seu bom humor.
- Realmente, mas a verdadeira tragédia é que sempre aparece um cretino pra estragar meu sono eterno.
Desligou. Ele nunca soube quem era.

3 comentários:

  1. Força ! A vida é assim !
    Quando a água bater na bunda, vai encontrar uma saída ! Espero...

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  2. Acho que a intenção não era ser engraçado.
    Eu ri mesmo assim.

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