quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Não importa o quão asquerosa é a cidade, a madrugada sempre é bonita. Na rua, uma leve neblina formava-se por baixo das luzes dos postes, a lua quase cheia começara a dizer adeus da mesma forma em que eu, carregando minha mochila, tentava dizer à Marina. Dentre as muitas coisas que faltavam ali dentro daquele corpo de olhos caramelados e cabelos curtos que cobriam o pescoço, a única que de fato me incomodava era sua falta de espírito; acho mesmo que aquela coisinha ali sentada na varanda, segurando minha mão com a força de um gigante tornara-se muito urbana e muito apegada a um mundo de televisão, desses bem mentirosos. Dizia-me “eu te amo” todas as manhãs, quando eu tentava me levantar da cama sem fazer nenhum ruído, para trabalhar em algum dos meus trabalhos provisórios, mas ela nunca trocaria aquele conforto ilusório que conquistou ali, pela minha presença. Eu sabia disso.
Era como se vivesse dentro de mim um cão selvagem, e muitas vezes ele hibernava como um urso, mas cedo ou tarde acordaria dum pulo e minhas pernas teriam que caminhar mais uma vez. Marina tentava não chorar e também falar alguma coisa que talvez me fizesse ficar. O choro tornou-se mais fácil e escorreu como agua das nuvens naqueles dias pluviais. Abaixei-me, contendo suas lágrimas com os polegares:
- Não devia esconder sua beleza atrás dessa dor que te escorre pelos olhos.
- Pensei que não iria...
- Você sabia, Marina, você sabia.
Passei para trás de sua orelha uma mexa de cabelo que lhe cobria parte do rosto e toquei seus lábios com os meus pela ultima vez. Quando cheguei até o portão, ainda podia ouvir os soluços vindos da varanda. Caminhei um tanto desolado pela calçada até virar a esquina. “Ela bem que podia vir atrás de mim, bem que podia” pensei e por um momento quase voltei, mas logo me veio a cabeça que amor não é algo assim, que se prende.

3 comentários:

  1. "...amor não é algo assim, que se prende."
    Parece que sou eu dizendo esta frase. Aprendi que amar é pura liberdade, desde então me apaixonei por meu espírito livre.

    Me surpreendi aqui, as palavras são muito boas, e os textos cheios de sentimentos intensos.
    Parabéns!!!

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  2. Gostei desse.
    sem puxação de saco.

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  3. Li seu blog até onde a preguiça me deixou ler e, quédizê... Parabéns. Principalmente por esse texto.

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