segunda-feira, 16 de maio de 2011

Parábola

Apavorava-me ter de ir a festas, encontros ou qualquer coisa que envolvesse mais que cinco pessoas. Apavoravam-me os olhos, as vozes, a respiração cambaleante e cansativa de toda aquela gente ao meu redor. Suas conversas idiotas, suas risadas assustadoras e até mesmo seus fios de cabelo me faziam parecer invisível, um monte de estrume em meio a vacas de um só rebanho. Também odiava apresentações e manter longos diálogos era uma coisa extremamente difícil que eu preferia evitar. Sentia-me inferior aos meus amigos. Todos estavam ali rindo, arrumando garotas, dirigindo seus carros. Todos tão seguros de si mesmos acreditando no futuro, felizes. Essa é a parte que explica o álcool, a química. Embebedava-me tentando me igualar a eles, tentando encarnar aquele momento e absorver aquilo. A bebida me dava uma espécie de outra vida, me fazia soltar sorrisos desenfreados em meio ao esterco. Era como se me elevasse além das nuvens, das estrelas. Quando chegava a casa no outro dia, às duas da tarde e me jogava na cama, sujo e com o fígado querendo sair boca a fora, com a mesma pergunta de sempre batucando em minha cabeça “por que diabos levantei manhã passada? Por quê?”
Havia me acostumado à solidão, como um pássaro de cores pálidas trancafiado numa gaiola do tamanho do mundo. A maior parte do tempo isso não era ruim e eu nem queria me ver fora, o problema estava no que sobrava, na pequena parcela torturante das horas que me cercavam lentamente. Eu só precisava não pensar no filme de terror que estou fadado a viver; uma comedia para os olhos dos outros, principalmente para os que se julgam espertos revolucionários enquanto nadam em dinheiro e futilidade com sua inteligência de acéfalo entre os braços. Só precisava não pensar e conseguiria dormir em paz na minha trincheira de pano e costura.
Às vezes ainda insisto em sentar ao lado do telefone na esperança de ouvi-lo tocar, de sentir qualquer voz doce adentrar meus ouvidos como uma canção de ninar para anjos, mas ele nunca toca. E quando finalmente toca é sempre alguém afiando os dentes, a faca, pronto para me matar outra vez. Palhaçada rapaz, palhaçada. E é só isso que eles sabem.
A voz doce está distante, distante como eu estou agora da janela.

9 comentários:

  1. "Eu só precisava não pensar no filme de terror que estou fadado a viver; uma comedia para os olhos dos outros, principalmente para os que se julgam espertos revolucionários enquanto nadam em dinheiro e futilidade com sua inteligência de acéfalo entre os braços." Perfeito.
    Faz muito tempo que não me identifico com um texto, com alguém... Tu escreve muito bem, tu pensa muito parecido comigo. A voz doce não está tão distante e quando menos esperar, você vai encontra-la.

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  2. Nossa, quanto tempo sem vir aqui!
    Mas assim que chego me deparo com teus textos belos. Como sempre!
    Adorei (:
    Beijo grande ;**

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  3. O melhor dos seus textos é que eles transmitem algo real mas não fica pesado e sem classe, fica leve e real somente isso, adoro seu blog estou sempre por aqui!

    visite o meu:
    www.umaformadepensamento.blogspot.com

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  4. Profundo e realista!
    Adoro vim aqui, sempre com textos incríveis. ^^

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  5. ''Havia me acostumado à solidão, como um pássaro de cores pálidas trancafiado numa gaiola do tamanho do mundo.''
    Sua escrita é encantadora, tão franca. Sempre estou por aqui.

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  6. excelente texto...vc escreve com a alma, ou melhor, com o sangue, por isso se torna algo sincero.

    além disso, sabe expressar o q sente, dominando a forma - a escrita -, sabe exatamente o q está fazendo (tanto na vida real, como na literária)! tem consciência e sensibilidade, por isso consegue ler o mundo...

    gostei mt, to seguindo...
    abraço

    poesiaainda.blogspot.com/

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  7. Já fizeram este grifo, mas não posso deixar de repetir: "Havia me acostumado à solidão, como um pássaro de cores pálidas trancafiado numa gaiola do tamanho do mundo."

    Não sei bem o que dizer, só que gostei muito de ter lido isso, que me fez um bem danado.

    Abraço

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