quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Janela

Existe uma janela
iluminando todo
o estrume seco
que tenho
sob as mãos

Ela é triste
e
não pode cantar
e
não pode se envolver em cadeados

Se pudesse,
ela se fecharia
com cimento,
estancaria a luz
com tábuas de eucalipto

Esses papeis ficariam presos,
essa máquina
de tela colorida
chorando códigos, ficaria presa
na escuridão

Eu encaro a janela
com meus olhos de lama,
ela devolve os olhares
gosta de amedrontar
e me expor as vísceras
enquanto as coisas
dentro
e
fora
vão explodindo em convergência

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Perdendo as peças do jogo, queimando o tabuleiro

Comecei a trocar palavras com Manuela no pequeno período em que trabalhei na fazenda. Ia passar um tempo em Portugal e resolvi me juntar a um desses projetos da câmara para restaurar o patrimônio arquitetônico escondido no mato. Minha ideia principal quando escolhi fazer isso era o isolamento. O barulho do vento nas folhas das árvores, o canto dos pássaros, o orvalho frio da manhã. Tudo isso parecia melhor que as vozes da cidade martelando continuamente a cabeça; as pessoas vomitavam coisas horríveis, tinham o poder de destruir sonhos com um simples abrir e fechar de boca e ranger de dentes.
Manuela não falava muito, e ainda assim falava um tanto mais que eu. O que era muito bom e despertava meu raro interesse em trocar algo entre almas. Além disso, tinha um sorriso tímido e pequeno, como se fosse um desenho. Isso sempre me fascinou, o contorno dos lábios, a forma. Parece estupidez, mas eu achava aquilo importante. Como a maioria das mulheres que já me chamaram a atenção, Manuela era baixa, tinha proporções pequenas. A pele queimada de sol. Os olhos castanhos, escuros como terra batida às vezes pareciam cantar enquanto ela lambia os lábios ressecados e se inclinava para arrancar minúsculas ervas do muro. Tinha três dreads que saltavam da nuca quando prendia o cabelo quase da mesma cor dos olhos. Os dreads pareciam pequenos gravetinhos gordos, eu gostava de brincar com eles. Era bonita, não era vulgar enquanto caminhava, nem se importava com o que vestia e xingava como ninguém.
Era estranha também. Tinha a mania de fazer perguntas aleatórias e fora de contexto. Claro, eu tinha que ser muito esquisito para gostar desse habito. Uma vez corri atrás de um arbusto para mijar, ela esperava uns dois metros atrás enquanto me atirava algumas interrogações.
- Não tens medo de cobras? Encontrei uma morta no muro, não quero mais trabalhar lá.
- Não tenho. Vou fazer elas ficarem longe de você.
- Ah. E gostas de reggae? E de batatas, gostas?
- É claro, Manuela.
- Acho bué giro os brasileiros falando! Queres ir à praia comigo? Apresento-te pessoas.
- Pessoas?
- Sim! Ou queres ficar ca sozinho?
- Bem...
- Tens que conhecer gente
- Depende da "gente"
Nesse dia, aceitei o convite, mesmo que a parte das apresentações e a combinação asquerosa de sol, areia, sal e agua me desse vontade de correr para um buraco bem fundo e lá ficar por uma semana. Contei que até gostava de praias desertas, com sombra e pouco barulho. Ela me disse que algum dia me levaria para conhecer uma assim, o que nunca aconteceu.
As coisas iam saindo do controle, minha pedra estava derretendo e eu sabia disso. As cervejas não eram suficientes. Eu ficava amedrontado. O medo era diferente, não sei se chamaria aquela coisa assim, mas era algo que me acuava igualmente. Tirava-me do ciclo normal e autodestrutivo dos meus pensamentos.
Faltavam alguns dias para acabar o tempo do projeto. Manuela sorria e colocava as mãos nas minhas costas. Aquela merda toda acontecia outra vez, eu tinha que parar. No último, ela se ofereceu para me mostrar lugares interessantes da cidade durante a tarde, se eu não tivesse nada pra fazer. Inventei uma desculpa. Uma explosão. Uma privada entupida, e acabei indo mamar umas cervejas.
Aqueles dias haviam acabado e quase fui pego outra vez, eu sabia que no fim acabaria sendo tudo igual. Essa merda sempre termina em dor, sempre termina espetando até as solas dos pés. Meu coração regurgitou por alguns dias e a última vez em que tivemos contato, eu estava bêbado num jantar, rodeado por pessoas parcialmente desconhecidas. Meu celular apitara no bolso. Odiava telefones, principalmente quando interrompiam meu trago. Era Manuela, acompanhada por suas perguntas. “Qual música brasileira é que dizias que eu ia gostar?” Respondi a mensagem com um sorriso de canto de lábio, não esperava aquilo, não sou alguém assim procurado. “Não era brasileira, era argentina. Se quiser algumas brasileiras posso te passar.” Ataquei mais uma cerveja. Esperei três dias por mais um apito e ela nunca respondeu. Me recusei a mandar outra, fuzilei essa ideia durante semanas. Pelo menos dali a alguns dias quem sabe, estaria inteiro mais uma vez, isso é, com as partes que ainda me restavam para tapar os buracos.
Meu fracasso humano está cada vez mais além das nuvens. Não suporto jogar com isso, não sei mais mover o pião. Perco as peças uma a uma, o tabuleiro vai virando cinzas e a chama nunca se apaga.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Luzes esfumaçadas

em algum outro tempo
entre as luzes esfumaçadas
e sujas
meus dedos brancos
e ásperos
encontrarão outra vez
seus longos e negros fios de cabelo
e neles hão de abrir
caminhos para nossos lábios,
para as montanhas
e os seus olhos,
iguais a pequenas jabuticabas
estarão sorrindo denovo

enquanto meu único erro
é esperar
e
te jogar para longe

e esperar;

a bebida fica escassa
os cigarros chegam ao fim
mas as luzes esfumaçadas nunca se apagam
nunca deixam a cidade
são iguais ao meu sangue
que não quer te deixar

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Uma chance para Charlie

O tempo está passando, Charlie
O mundo está derretendo
Vai virar chumbo, vai sobrar só dor
Nunca vai apagar isso com cuspe, Charlie

Nunca mais haverá inverno, Charlie
Nunca voltará a aquecer aquela boca
Não vai mais acender uma fogueira, Charlie
Vai se tornar a fogueira

Seus dedos finos e pálidos vão ser os gravetos, Charlie
Vão ser lenha, vão virar carvão
Seu corpo inteiro se desfazendo em cinzas, Charlie

Você desaparecendo -
montanhas de cinza e poeira
Seu amor sumindo até o último pelo, desintegrando
espalhando tinta por entre os prédios
Montanhas de ossos, poças de urânio, Charlie

Não olhe pra essa janela suja
Não tem nenhum pássaro lá fora
Ninguém te esperando - ninguém ouvindo suas historias
Nem vento e verde e abraços, Charlie
Aquele quintal nem está mais ali
Você não pode mais brincar, Charlie

Feche seus olhos
Mantenha a distancia do quadro que pintou
Você consegue
Aperte essa porra de gatilho, Charlie

sábado, 6 de agosto de 2011

Muito cedo para matar baratas

A vida de Edgar se resumia em fatores simples e cotidianos. Pensava ele que no mundo não poderia existir nada mais delirante e estúpido que sua vida empoeirada, presa numa existência trivial e seca, nem mesmo Deus e todos aqueles santinhos medonhos e feios que rodeavam as igrejas, as casas, as praças, os escritórios de advocacia e os banheiros públicos seriam tão falsos e tristes como cada uma de suas manhãs ensolaradas ou não, sempre cinzas. Sentia-se aprisionado dentro de um pequeno souvenir, daqueles em formato de bola de cristal, que abrigam dentro uma pequena casa. Um mundo portátil e sujo que quando chacoalhado, arremessado ou bombardeado, só faz nevar e nevar e nevar.
Acordava cedo, com olhos de tigre e nariz escorrendo. Dava palmadas no despertador, que pulava freneticamente na mesinha de cabeceira, até que este fizesse o mais profundo silencio. O último minuto de paz da manhã. Descalço, arrastava os pés até o banheiro como se passasse por um caminho de brasas e cacos fininhos. Lavava o rosto três vezes, antes de erguer a cabeça e contemplar sua imagem de animal acuado em meio à sujeira impregnada nas bordas do espelho. Nunca tomava café, qualquer comida naquele horário lhe caia mal, não conseguia ingerir nem mesmo uma maçã. Por vezes sentia vontade de chorar, ainda parado em frente ao engordurado espelho. Elas nunca escorriam. Era como se suas lagrimas tivessem evaporado, tivessem virado uma cortina de fumaça que desapareceu acima das nuvens. “Merda!” ele dizia, “merda, merda, merda!”
Sua casa virava um campo de batalha quando finalmente se encontrava parado em frente à porta, esticando o braço, alcançando a maçaneta enferrujada, fazendo luz, ruído, fumaça, medo. O poder da rua contra seus cinco dedos magros e gastos da mão esquerda. Ele ganhava essa batalha já há uns bons trinta anos. Era mais um mutilado, uma vitima, do que um veterano de guerra. Não existe mutilação pior que a mutilação da alma. Podem te arrancar as orelhas, os braços e as pernas que você ainda encontra forças pra sorrir, pra voar. Com a alma é diferente, se te esquartejam a alma, só ela, é o fim. Edgar se sentia uma carcaça, uma verdadeira carniça jogada no deserto de concreto, a mercê dos abutres. Milhões deles, famintos nas janelas dos prédios, nos mercados, nas salas de espera dos dentistas, nos cinemas. Sobrevoavam as calçadas, as ruas, os metrôs. Tudo. O planeta era um gigantesco açougue perdido na escuridão do espaço.
Era uma manhã de terça feira. Não chovia, não fazia sol, não fazia nada. Seguiu minuciosamente sua costumeira rotina, exceto pela barata que passou correndo por entre suas pernas quando se aproximava da porta. “Muito cedo para matar baratas.” Pensou.
Andava devagar, carregando nos joelhos toda a estupidez e cansaço do mundo. Arrastava tudo isso pela praia, gostava de passar por ali naquele horário porque não havia ninguém. Ficava só, com o cheiro de marisco e o gosto de sal. Era bonito e triste, seria um pouco melhor se as ondas pudessem trazer do mais profundo oceano, novos sonhos. Sonhos com grandes árvores e barulho de vento e cheiro de terra misturado com qualquer perfume desconhecido. Qualquer odor que não fosse o de sangue batido com tijolo e ferro.
Seus devaneios foram interrompidos quando cruzou o beco que conectava a cidade ao prédio onde trabalhava. O lugar fedia a mijo e vômito. A entrada para o inferno devia estar próxima, pensava. E era só virar a esquina, passar a mercearia ainda fechada para dar com a cara nos portões negros e envelhecidos do edifício 143.
Na recepção Senhor Carlos batia os pés enquanto flertava com a secretária. Afundou os olhos azuis do tamanho de escaravelhos contra os de Edgar:
- 15 MINUTOS ATRASADO EDGAR. 15 MINUTOS!
Tinha hálito de peixe morto, era como se tivesse escamas espalhadas por toda a boca, era horrível. Era humano. Podre.
Edgar sorria enquanto alargava os passos até o elevador. Gargalhava, morria por mais um dia.
- TE CONTEI ALGUMA PIADA? – Interrogava Carlos, lá de trás. – EXISTE AQUI ALGUM PALHAÇO? JUNTE SUAS COISAS E DE O FORA DAQUI!
Edgar não respondeu. Foi até sua sala, sentou-se e acendeu um cigarro antes de começar a juntar as tralhas. Ele tinha ânsia, queria vomitar. “Maldito porco de olhos azuis.” Dizia para si mesmo. Pouco a pouco perdia o controle, não sabia mais para onde correr, não suportava. Não entendia nada. Cinquenta anos atolado na merda. Cinquenta anos vivendo a morte, o inferno. Ele desistia.
Aquela manhã, Carlos merecia, devia estar morto, com os miolos espalhados por todo o balcão da secretaria ou fatiado como uma picanha, mas era muito cedo para matar baratas.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Jack

Quando caminho como se estivesse adormecido em morfina, pelas ruas pueris e enferrujadas, na humidade da madrugada a pouco amanhecida, acompanhado apenas pela minha garrafa de vodca barata e pelo orvalho fresco das folhas que me rodeiam e acabo por descobrir que ela, aquilo que me segue passo a passo pelas curvas do infinito breu noturno e frio está logo atrás com os olhos de sangue seco, fixos e tristonhos de sempre, percebo então o quão perdido e sem saída estou. Percebo também a terra que calça meus pés gelados desabar num funeral de passos apresados e barulhentos. Vários deles, que desesperados procuram um abrigo ou qualquer merda que aqueça e faça esquecer. Qualquer coisa menos doída que um final solitário e distante como sempre planejei entre toda a sujeira cotidiana e desumana do mundo.
*
Naquela noite, o percurso todo soava a clichê. Um mar de clichês descabidos e aterrorizantes. Eu tentava de todas as formas desviar o curso, mudar de um pensamento para outro ainda pior como se trocasse de roupa. Como se o mundo fosse um grande navio prestes a se chocar contra um iceberg com os marinheiros todos desesperados sobre a proa, a esbravejar uns com os outros, enquanto o capitão se embebedava no porão. Nunca me tive como marinheiro. Não sei se esse navio é grande demais pra mim ou se todos os tripulantes são tão estúpidos que chego a preferir a morte varias vezes ao invés de sair da minha cabine particular e seguir mandamentos ridículos e sociais com o propósito de conquistar qualquer tipo de status tosco e material; tamanho é o tormento que sempre termino por pensar em mergulhar para o fundo do mar e fingir que não sei nadar.
As pedras do calçamento pareciam desmanchar em meio à escuridão como blocos de cinzas. Eu estava mais uma vez bêbado, tentava correr para o outro lado da rua, mas logo pensava melhor e desistia devido aos constantes faroletes que me atravessavam a vista e as malditas buzinas que me remexiam as entranhas. Parava para vomitar algumas vezes em postes ou árvores e até mesmo nos velhos portões que vestiam a calçada. Gargalhava sozinho enquanto recuperava a postura inicial, mas a merda sempre estava ali comigo. Solidão, era isso que me roía o crânio feito uma capivara gulosa. Pensava muito em solidão. Que palavra mais cretina era essa. Qualquer pessoa pode se sentir sozinha. É uma condição humana, algo que a gente nem sente aparecer e quando vamos ver, já é tarde demais. Mas comigo sempre foi diferente. Minha última garota costumava dizer que eu afastava as pessoas, todas elas. Eu já seguia outra linha de raciocínio, as pessoas é que me afastavam, eram cansativas e sujas. Quantas vezes preferi ouvir o canto dos pássaros no lugar de um alguém falando sem parar na minha orelha. Tinha também o pormenor de ser diferente, gostar diferente, dormir diferente. Se nos tornamos um tijolo que não se encaixa nesse muro, logo somos descartados, não servimos nem prestamos. Não somos interessantes e sendo assim, sempre existe alguma mão pra te partir no meio. A solidão gosta de fazer isso quando é mal interpretada. Mas essas pessoas todas te cercando todos os dias são infinitamente piores e cruéis, não é uma realidade difícil de perceber.
Já chegando a casa, enquanto cruzava o movimento madrugador da 29 de Agosto, passei pela praça da matriz e resolvi circular uns instantes por ali. Subi a pequena escadaria cinza da igreja e parei na porta, falando sozinho feito louco. Encontrei um homem deitado ao pé da grande porta de madeira. Era um desses tipos vagabundos que todo mundo cospe e pisa em cima quando vê. Cheirava a esterco e tinha um único cobertor que talvez já tivesse sido cheiroso e claro como algodão, confortando algum bebê gordo e risonho do condomínio de luxo atrás do bosque. Olhava-me com uma espécie de medo, um medo que eu compartilhava e compreendia. Resolvi chamar-lhe Jack. Sentei-me ao seu lado e lhe ofereci um pouco da garrafa.
- Eu não bebo. – Descarregou com uma voz fraca e cansada.
- Oh, oh...
- Mas se tiver um cigarro, aceito.
Eu tinha meio maço no bolso da jaqueta. Ficamos a fumar enquanto Jack rompia o silencio da sua vida semimorta:
- Faz dois anos que durmo aqui e Deus nunca me abriu a porta da casa. O padre da paroquia me faz cara de nojo toda manhã quando vem abrir a igreja. Pelo menos ele lava minha cama todos os dias, sabe como é...
- O padre é só mais um. – respondi disparando a bituca do cigarro escada a baixo.
- Mais um?
- Mais um perdido.
Jack riu como há tempos não ria, ele era um cara legal e sabia das coisas. Isso era solidão.

terça-feira, 7 de junho de 2011

O pequeno caçador de relâmpagos

Debruçara na janela pouco antes do caminhão fazer tremer seu prédio de cinco andares e cinco décadas de idade, na esperança de que algum raio lhe partisse a cabeça, mesmo sabendo que este nunca viria, já que seria um ato de muita bondade da vida para com ele. E a verdade colega, ele conhecia muito bem. A vida nunca esteve a seu favor. Não estava a favor de ninguém.
Era um domingo negro. O céu escurecia calmamente junto ao ocaso daquela tarde invernal, não pela ligeira e doce saudação da noite, mas sim pelas volumosas nuvens negras que não tardariam em derramar suas lágrimas sobre a terra cinzenta. As nuvens aconchegavam-se no firmamento como bebês em um grande berço escuro e mórbido aguardando os abraços dos sonhos de papel.
O pequeno caçador de relâmpagos morava no quarto andar. As paredes eram todas rabiscadas. Vomitava os pensamentos em cima da tinta branca escurecida pela idade como se aquilo ali fosse a única página que sobrara em sua vida. Não gostava dos vizinhos, nem de rodas e carros e aparelhos televisores. Ele era assim, era aquilo. Uma espécie de humano em mutação, um quase bicho.
Nosso pequeno em questão tinha lá seus quase vinte ganchos de idade fincados nas costas, devidamente presos e enroscados na carne magrela e pálida. Não era muito interessante aos olhos dos outros e já nem queria ser. Tentava ser visto há alguns anos, mas agora a inexistência calhava melhor. Era tão boa quanto uma barra de chocolate. Nada podia ser mais confortável quanto a ausência de todas aquelas vozes pinicando, espetando, arranhando a cabeça.
Moveu-se em direção à porta. Fitava-a com um ar pesado de chumbo e bronze, apoiou uma das mãos sobre o aço gélido da maçaneta. Todos os dias, quando se via forçado a caminhar até a padaria, esperava que o edifício viesse em ruína para que aquele pesadelo fosse evitado. Direcionar seus passos pela rua era um tormento. A cidade pequena o sufocava como se fosse uma câmara de gás. A mesmice dos rostos estúpidos o irritava. Às vezes sonhava que as pessoas daquele lugar não passavam de baratas imundas passeando por um esgoto cercado de casas. Tinha vontade de martelar a cabeça de cinco ou seis conhecidos até os miolos vazarem pelos ouvidos como se fossem pus toda vez que corria para o abismo seguinte. Coisa que lhe roubava varios sorrisos.
Quando finalmente resolvera colocar os pés na rua e flutuar sobre a merda toda, contando as moedas para o pão, passou pelo velho do casebre verde musgo da esquina. Ele sempre estava lá, sentado em sua cadeira de praia amarela, com os olhos semimortos em direção ao nada que se tornou sua existência. Mais um relato da vida fraca e frágil perdendo outra vez para o tempo. “Que grande homem é aquele”, pensou. Chutou algumas pedras que se soltaram da linha do calçamento cuidadosamente construída por mãos esquecidas. Dobrou a esquina enquanto alguns pingos solitários começavam a cair apressados. Acendeu um cigarro como se fosse fazer um sinal de fumaça para que mandassem tudo lá de cima, para que tudo viesse abaixo de uma vez. Chegou a praça que sempre existiu atrás do quarteirão, lembrou do tempo de criança, quando o pequeno era realmente pequeno. E lá estava o parquinho, as balanças gastas e enferrujadas vigiando seu túmulo na areia, afundando, todo engolido pela sujeira que os gatos deixavam pelo lugar. Lembrou também do tesouro que um dia enterrara naquele espaço morto e ficou imaginando se ainda poderia estar perdido por ali. Talvez se cavasse o encontraria inteiro e seria transportado para o passado como num passe de mágica, e deixaria tudo o que era cruel e sujo no presente.
Quando a agua toda começou a desabar, o pequeno caçador de relâmpagos ficou a contemplar as luzes dos raios entre as folhas das árvores e o seu mundo paralelo de dez anos atrás. A padaria ficava do outro lado da praça, mais uma rua a ser atravessada, mais um pedaço de terra podre a ser percorrido. O pequeno caçador de relâmpagos esquecera o guarda chuva mais uma vez.